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Mulheres no FISL

Up one level
Mulheres homenageadas no encontro

Software livre para a mulher é um paradoxo

by Danielle Almeida Pereira em 2008-04-19 12:04 last modified 2008-04-19 23:18

Como vemos em outras profissões, a área de informática também é propensa a estereótipos de gênero? Ou melhor, qual é a participação das mulheres nessa área? Elas são bem aceitas? E como foi a participação da mulher nessa nona edição do Fisl? Foram quase 400 palestrantes e mais de 7 mil participantes. Quantos deles são mulheres? O Fisl é um evento predominantemente “masculino”?

Após levantar essas questões, conversamos com Fabianne Balvedi, militante dos direitos femininos e do software livre, além de pesquisadora de mídias livres. Ela já participou de inúmeras edições do Fisl, mas, este ano, preferiu não ir. Balvedi mora em Curitiba e falamos com ela via internet.

O bate-papo rendeu. Confira:

Agência Brasil: Queria, primeiro, que você fizesse um breve resumo de suas ações e de sua participação no desenvolvimento de softwares livres. Explique um pouco para a gente também como funciona o Estúdio Livre...


Fabianne Balvedi: Bem, eu não sou programadora de software. Por isso, minha participação na comunidade de software livre é em relação a suporte, documentação e tradução de softwares. A documentação também envolve pesquisa. É principalmente na pesquisa que eu me envolvo e, por isso, o projeto do Estúdio Livre. Te passo os links:

http://estudiolivre.org/tiki-index.php?page=paperEL

http://estudiolivre.org/tiki-index.php?page=EncontroEstudioLivre2007

http://estudiolivre.org/el-gallery_view.php?arquivoId=4245

ABr: Você participou de várias edições do Fisl e divulgou, inclusive, um vídeo sobre a mulher e o software livre. Qual a sua impressão quanto à participação das mulheres nesse assunto? Na sua opinião, o software livre liberta a mulher?

Balvedi: Eu acho que o software livre para a mulher é um paradoxo, pois ao mesmo tempo que liberta, também "prende"

ABr: Como assim?

Balvedi: Prende em relação a hábitos discriminatórios enraizados na cultura das tecnologias. E liberta no sentido de que hoje as informações estão disponíveis mais do que nunca para quem não se deixa levar por conceitos pré concebidos

ABr: Você poderia dar exemplos de que hábitos são esses?

Balvedi: A competição é um deles. Apesar do Software Livre passar a idéia de ambiente colaborativo, a integração passa geralmente pela meritocracia

ABr: Mas, onde a mulher entra nisso?

Balvedi: Geralmente as mulheres são cobradas muito mais que os homens em relação às suas competências e, num ambiente onde o mérito conta muito, essas cobranças acabam por sobrecarregar as expectativas em relação ao desempenho das mulheres

ABr: Então o mundo real encontra reflexo no mundo virtual? No caso dessa competição, por exemplo...

Balvedi: Sim, com certeza. Já soube de muitas histórias de mulheres que se fizeram passar por homem para não sofrer preconceito

ABr: É aí que existe o paradoxo? Já que uma tecnologia livre entra no mundo da competição?

Balvedi: Sim, isso mesmo

ABr: Você disse que o software livre liberta. Como isso acontece?

Balvedi: Ah, liberta por propiciar à mulher a possibilidade dela estudar os códigos e ter acesso às documentações livremente. Quando a mulher se liberta internamente de suas próprias amarras, o software livre permite que ela mergulhe num mundo de conhecimento anteriormente não disponível. A internet, por ser aberta, permite isso. Fui convidada para palestrar em Luanda (África) sobre a questão de gênero na tecnologia e minha palestra será sobre isso. Ainda não está certo se conseguirão patrocínio para minha viagem, mas posso te passar o resumo que enviei para o I Fórum de Software Livre de Luanda:

"Sim, você pode!"

Durante o 8 Fórum Internacional Software Livre
em Porto Alegre, a interface g2g circulou pelo evento
perguntando: o software livre liberta a mulher?
As respostas foram as mais diversas, mas as
que mais preocuparam foram as que afirmavam
que tecnologia não é coisa para mulheres. Esta
apresentação pretende tirar o "não" desta frase,
apontando ações afirmativas que desmistifiquem
a idéia de que o gênero de uma pessoa seja um fator
limitador de suas ações, que define o que se pode
ou não fazer dentro de uma sociedade.

Eu vou fazer a apresentação em cima do vídeo

focando nas ações pró-ativas para a libertação das mulheres

Abr: A questão do hacker e do anonimato também seria algo contraditório aqui? Ou seja, você citou caso de mulheres que se disfarçam de homens para evitar o preconceito... e com o anonimato, isso não muda?

Balvedi: O anonimato funciona só em parte. Se você quer um emprego, não pode manter sempre suas ações anônimas. Se você quer participar de uma comunidade meritocrática, quem recebe o mérito é seu Nick (pseudônimo usado por desenvolvedores na internet). Se teu nick não é associado a seu nome, apenas no mundo virtual você recebe mérito, não no mundo real.

ABr: Mas existe uma forma de a mulher se libertar então?

Balvedi: Existe no sentido de que temos de nos conscientizar de que nós podemos, temos "armas" para tanto, a informação está disponível, agora é acreditar que é possível

ABr: Bom, você participou de várias edições do Fisl, mas esse ano não quis participar. Qual a sua impressão do evento e da evolução dele? Em que ele mudou e o que ele tem mudado dentro das comunidades e dos interessados em software livre?

Balvedi: Antes de responder, achei o link do artigo que fala que o software livre é sexista: http://cofradia.org/modules.php?name=News&file=article&sid=16811. Tem uma discussão boa ali no fórum abaixo, em que dizem que não é o SL em si que é sexista, e nisso eu concordo. São as comunidades que o são.

ABr: E o Fisl? Me chamou a atenção o número reduzido de mulheres aqui...

Balvedi: É que esta questão não é tratada ainda com a devida seriedade pelo evento. Nas mesas de debate você raramente vê mulheres. Ano passado propusemos um debate sobre cultura livre ao evento e barraram justamente uma das mulheres.

link pro artigo da flosspols:
http://flosspols.org/deliverables/FLOSSPOLS-D16-Gender_Integrated_Report_of_Findings.pdf

este tá beeeeem completo

Abr: Fabianne, você teria alguma consideração que gostaria de fazer e que não conversamos aqui?

Balvedi: Sim. Ainda em relação à questão de gênero, queria colar aqui um trecho que o GT-Mulher do CREA-PR enviou como proposta ao Fórum da Mulher no WEC

 

"Além do desafio diário que a mulher passa para se impor perante seus
colegas do sexo oposto, ainda ocorre uma situação pior: o preconceito
da mulher contra ela mesma. Muitas ainda tem uma visão
auto-depreciativa de sua posição, tanto nas relações pessoais como nas
profissionais. Isto acontece porque o preconceito contra a mulher
sempre esteve inserido em nossa sociedade e muitas pessoas são levadas
a agir naturalmente com esta linha de pensamento, pois para elas isto
é normal. Este preconceito também leva as mulheres a buscarem
confrontações com elas mesmas, principalmente em ambientes altamente
competitivos. Sob o estereótipo de "sexo frágil", tem-se a falsa
impressão de que seria mais fácil "vencer" alguém com estas
características, o que as sinaliza ainda mais como alvo fácil de
críticas e expectativas que vão muito além do que seria normalmente
exigido de um homem."

 

Segue também um texto muito bom sobre a competição ser uma característica masculina. Que fique claro que tenho consciência de que todos temos características femininas e masculinas independente do sexo. Mas elas se desequilibram, infelizmente.

 

"Nossa cultura tem favorecido, com firmeza, valores
e atitudes yang, ou masculinos, e tem negligenciado
seus valores e atitudes complementares yin, ou femininos.
Temos favorecido a auto-afirmação em vez da integração,
a análise em vez da síntese, o conhecimento racional em vez da
sabedoria intuitiva, a ciência em vez da religião, a competição em vez
da cooperação, a expansão em vez da conservação, e assim por diante.
Esse desenvolvimento unilateral atinge agora, em alto grau, um nível
alarmante, uma crise de dimensões sociais, ecológicas, morais e
espirituais.

Estamos, no entanto, testemunhando ao mesmo tempo o início de um
espantoso movimento evolutivo que parece ilustrar o antigo ensinamento
chinês segundo o qual 'o yang, tendo atingido seu clímax, retrocede em
favor do yin'. As décadas de 60 e 70 geraram toda uma série de
movimentos sociais que parecem caminhar nesta mesma direção. A
preocupação crescente com a ecologia, o forte interesse pelo
misticismo, a progressiva conscientização feminista e a redescoberta
de acessos holísticos à saúde e à cura são manifestações da mesma
tendência evolucionária".

Tao da Física

 

Abr: Ok, Fabianne, muito obrigada![smile]

lvedi: Bem legal falar contigo. Espero que tenha ajudado.

Participação das mulheres no mundo do software livre é pequena

by Danielle Almeida Pereira em 2008-04-22 16:28 last modified 2008-04-22 16:28
Durante entrevista à Agência Brasil, a militante e pesquisadora de mídias livres, Fabianne Balvedi, disse que a participação feminina no Fisl “não é tratada ainda com a devida seriedade pelo evento”.

“Nas mesas de debate você raramente vê mulheres. Ano passado propusemos um debate sobre cultura livre ao evento e barraram justamente uma das mulheres”, conta.

Conversamos com o organizador do Fisl, Mario Teza, sobre a participação das mulheres no evento e a inserção do debate quanto à participação feminina no universo do software livre.

De acordo com o organizador, “existe um déficit nessa área”. Teza citou pesquisa da Intel que levanta os seguintes dados: na área de tecnologia da informação, a participação da mulher é de 20%, já na área de software livre, essa participação cai para 2%.

Mas ele afirma que o Fisl é um dos maiores eventos com participação de mulheres. O organizador garante, ainda, que o fórum tem a “preocupação com a questão de gênero”. “No primeiro Fisl houve palestra da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) sobre participação das mulheres no software livre”, diz.

 

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» Véspera do evento
» Dia 1 (17/04)
» Dia 2 (18/04)
» Dia 3 (19/04)








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