|
Valter Campanato/ABr
|
Porto Velho (Rondônia) - Entrevista do presidente da ONG ambientalista Rio Terra, Alexis Bastos.
|
Porto Velho (Rondônia) - Além dos efeitos sociais da construção das usinas de Jirau e Santo
Antônio, no rio Madeira, ambientalistas de Rondônia também temem seu
impacto ecológico. A construção das usinas pode ocasionar um extermínio
das espécies de peixe no rio.
"A ictiofauna do Madeira é a segunda mais
rica do mundo", afirma o ambientalista e geógrafo Alexis Bastos,
representante do Grupo de Trabalho Amazônico no estado.
São cerca de 700 espécies de peixe, segundo ele, mesmo número de
espécies de aves na região. Pelo menos o impacto sobre os peixes é
considerado inevitável, mesmo na avaliação dos defensores da usina,
como o economista Valdemar Camata, da Federação das Indústrias do
Estado de Rondônia (Fiero).
"Estudos de Furnas mostram que, no primeiro
ano após a construção de uma barragem, desaparecem 70% das espécies de
peixe", diz Bastos.
A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) foi uma das
primeiras empresas a ter de lidar com essa problemática no país, nos
anos 70. Segundo técnicos da empresa, esse impacto acontece por dois
motivos: primeiro, porque várias espécies só se reproduzem se subirem o
rio (a chamada piracema).
As barragens impedem esse movimento. Mesmo a
construção de escadas e elevadores, segundo Bastos, não tem eficiência
completa, porque parte das espécies não consegue subir o rio por esse
meio.
Segundo motivo: as espécies tendem a desaparecer após a
construção de uma barragem tem relação com a mudança no regime hídrico
de um rio. Normalmente, ele oscila, ao longo do ano, subindo e descendo
conforme as chuvas.
Às margens, quando o rio baixa, formam-se pequenas
lagoas, onde se criam os alevinos. Grosso modo, o período de
crescimento dos filhotes corresponde a nova elevação do nível das
águas. Com a cheia, os peixinhos vão para o leito do rio já
suficientemente desenvolvidos para enfrentar os predadores e outros
inimigos naturais.
Bastos e Camata divergem com relação a outra questão: o alagamento
ocasionado pela usina. Segundo o ambientalista, diferentes versões do
projeto foram apresentadas publicamente, em diferentes momentos, e não
há clareza sobre que área ficará submersa.
Já Camata afirma que não há
discrepância e que a tecnologia a ser utilizada vai fazer com que o rio
simplesmente fique estancado em seu volume de cheia. Segundo ele, o
único impacto, portanto, será o fim da agricultura de várzea praticada
pelos ribeirinhos.
Uma outra ameaça ao ecossistema amazônico, segundo Alexis Bastos,
pode ser a construção de eclusas no rio Madeira. Trata-se de uma parte
do projeto das usinas que ainda está em discussão, mas é defendida, por
exemplo, pela Fiero.
As eclusas, segundo o ambientalista,
proporcionariam que grandes barcaças de grãos, por exemplo, subissem o
rio até a divisa com a Bolívia, entrando no rio Madre de Dios e
chegando ao Pacífico. O mesmo caminho poderia ser feito pelo rio
Guaporé, no sudoeste do estado.
Esse eixo de transporte poderia ser vantajoso para os produtores do
Norte e do Centro-Oeste que exportam soja para o mercado asiático, por
exemplo, porque a rota marítima diminuiria consideravelmente,
barateando o produto. O problema é que isso poderia ampliar a pressão
do agronegócio, na visão dos ambientalistas.
O novo caminho serviria
como um incentivo adicional para pecuaristas, madeireiros e
sojicultores promoverem o desmatamento e a exploração ilegal da
floresta.
Os empresários apostam na capacidade do Estado de regular e
fiscalizar. Rondônia foi o primeiro estado a ter uma lei que
estabeleceu um zoneamento econômico-ecológico. Trata-se de uma espécie
de mapeamento que define os locais onde se pode estabelecer cada
atividade econômica num território.
Hoje, segundo a Fiero, apenas 30%
da área de Rondônia está desmatada, e há reservas legais no restante do
território.
Os ambientalistas, porém, desconfiam dessa capacidade. "O governo do
estado chega a estimular a invasão de áreas indígenas e unidades de
conservação. É uma visão muito imediatista, querem é ganhar dinheiro
com a madeira, a soja", diz Bastos.
Um exemplo tirado na ponta do lápis ajuda a compreender essa
desconfiança. Nas contas da Fiero, Rondônia cresceu 55% nos últimos
três anos. "Mais que a China", destaca Camata. "Isso aqui tem tudo para
se tornar uma 'Nova Califórnia."
O economista diz que o
setor madeireiro já foi responsável por 70% do Produto Interno Bruto do
estado, mas que essa realidade está mudando.
O engenheiro agrônomo Eribaldo Menezes Cardoso estuda o setor
madeireiro em Rondônia há 23 anos. Ele calcula que a madeira ainda é
responsável por 37% do PIB do estado, que hoje é de cerca de R$ 9
bilhões.
Nada menos que 85% desses mais de R$ 3 bilhões correspondem a
madeira irregular, de alguma forma – desde a falta de um plano de
manejo até a compra de documentos falsos para produto extraído de forma
irregular.
Cardoso diz que as dificuldades criadas por órgãos ambientais
incentivam a ilegalidade. A análise de um plano de manejo, que, segundo
ele, deve demorar, por lei, no máximo 45 dias, chega a levar o dobro do
tempo, 90 dias.
Isso, somado com a facilidade com que se pode obter
documentos ilegais e subornar fiscais, formaria a receita da
marginalidade no setor. "Claro que há muita desorganização, mas existem
empresários sérios. O problema é que, mesmo quem quer se regularizar,
muitas vezes não consegue", lamenta ele.
|
|