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12 de Setembro de 2006 - 12h28 - Última modificação em 12 de Setembro de 2006 - 19h22


Mães da Baixada Fluminense lutam para vítimas não serem culpadas por violência

Spensy Pimentel
Enviado Especial

 
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Valter Campanato/ABr
Belford Roxo (RJ) - A moradora Odete Pereira conta a história de três meninas assassinadas barbaramente na cidade em 1988. Imagem das crianças foi incorporada ao altar da Igreja Nossa Senhora dos Mártires da Baixada. Violência é fator decisivo para voto na região.
Belford Roxo (RJ) - A moradora Odete Pereira conta a história de três meninas assassinadas barbaramente na cidade em 1988. Imagem das crianças foi incorporada ao altar da Igreja Nossa Senhora dos Mártires da Baixada. Violência é fator decisivo para voto na região.
Queimados/Caxias (Rio de Janeiro) - É preciso andar quilômetros por algumas das raras vias asfaltadas que cortam os bairros da periferia de Belford Roxo (RJ), na Baixada Fluminense, para chegar à Igreja de Nossa Senhora dos Mártires da Baixada, no Jardim Amapá, já no município de Duque de Caxias.

A santa foi criada pelo catolicismo popular há pouco mais de 15 anos. Basicamente, os fiéis acrescentaram ao pé da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira dos mártires, a figura de três meninas: Elizete, 5 anos, Elianete, 7, e Eliete, 9.

"É uma forma de aproximar a santa de uma realidade concreta, local. Isso dá mais força à devoção", explica o diácono Antonio Pedro, da paróquia de Lote XV, em Belford Roxo, responsável pela igreja.

Odete Pereira Fernandes, 83 anos, uma das integrantes mais antigas da comunidade, é quem conta a história. No exato lugar onde hoje está o sacrário da igreja, na manhã de 4 de maio de 1988, foram encontradas mortas as três crianças, junto com a mãe grávida, Maria das Neves, e o pai, Sebastião Vidal dos Santos.

As meninas foram estranguladas, segundo Odete. A mãe, depois de ser estuprada, teve a barriga furada a golpes de tesoura. O pai foi encontrado enforcado com as mãos amarradas para trás.

"Era uma coisa que ninguém esperava. Até hoje, ninguém sabe dizer por quê, nem quem foi", diz dona Odete. Pai e mãe não aparecem pelas imagens na igreja. Como anjinhos, as meninas acompanham Nossa Senhora, na parede atrás do altar.

O diácono afirma: "A religiosidade popular identifica uma inocência e uma pureza angelical nas crianças". A vida mundana é que macula essa pureza, explica ele.

A indignação popular gerada pela chacina que vitimou 29 pessoas em Queimados e Nova Iguaçu, em 31 de março de 2005, está relacionada a essa concepção, como explica o sociólogo José Cláudio Souza Alves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ).

"Foi uma chacina fora dos padrões, porque matou pessoas vistas como inocentes. Isso trouxe uma comoção social muito grande", diz ele. "Por outro lado, isso também mostra como ainda persiste na região o mito de que bandido bom é bandido morto."

Pesquisador há 13 anos dos temas relacionados à violência no Rio, ele lembra que essa lógica ajuda a ocultar o fato de que os mortos pela violência da polícia e dos grupos de extermínio são, em geral, jovens pobres, marginalizados. "São as vítimas perfeitas, porque são enxergadas como réus."

O movimento dos familiares das vítimas da chacina de 2005 percebeu e está procurando combater essa concepção. "Pode ser bandido: ninguém tem direito de tirar a vida de ninguém. Hoje, eles matam os filhos dos outros. Amanhã, alguém pode matar o filho deles", diz a dona de casa Lucinéia Maria Sipriano, 52 anos, mãe de Marcos Vinícius Sipriano de Andrade, um dos mortos no crime.

Lucinéia foi uma das idealizadoras do movimento, que pretende ir além da pressão pela punição dos sete policiais militares acusados pelo crime. "Nós vamos continuar, porque há mais crimes acontecendo. Todos os familiares de vítimas podem se juntar a nós", diz Kátia Patrícia da Silva, irmã de Marcos Vinícius.

As ativistas garantem que, mesmo familiares de supostos criminosos mortos, como os jovens que trabalham para o tráfico de drogas, poderão integrar o movimento. "Não tem problema nenhum. O menino podia até estar no tráfico, mas ele é filho, e ela é mãe", explica Lucinéia.

O primeiro teste para o movimento podem ser as eleições de outubro. "Se a população continuar votando nesses que só pensam em matar e querem passar por cima até do poder de Deus, a Baixada vai estar na ruína", diz Kátia. "Tem candidato que promete segurança na rua. Mas a segurança que eles estão colocando muitas vezes é a mesma que depois vai te matar na rua."

 


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