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Valter Campanato/ABr
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Belford Roxo (RJ) - A moradora Odete Pereira conta a história de três meninas assassinadas barbaramente na cidade em 1988. Imagem das crianças foi incorporada ao altar da Igreja Nossa Senhora dos Mártires da Baixada. Violência é fator decisivo para voto na região.
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Queimados/Caxias (Rio de Janeiro) - É preciso andar
quilômetros por algumas das raras vias asfaltadas que cortam os bairros da
periferia de Belford Roxo (RJ), na Baixada Fluminense, para chegar à Igreja de
Nossa Senhora dos Mártires da Baixada, no Jardim Amapá, já no município de
Duque de Caxias.
A santa foi criada pelo
catolicismo popular há pouco mais de 15 anos. Basicamente, os fiéis
acrescentaram ao pé da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira dos
mártires, a figura de três meninas: Elizete, 5 anos, Elianete, 7, e Eliete, 9.
"É uma forma de aproximar a santa de uma
realidade concreta, local. Isso dá mais força à devoção", explica o
diácono Antonio Pedro, da paróquia de Lote XV, em Belford Roxo, responsável
pela igreja.
Odete Pereira Fernandes, 83 anos, uma das
integrantes mais antigas da comunidade, é quem conta a história. No exato lugar
onde hoje está o sacrário da igreja, na manhã de 4 de maio de 1988, foram
encontradas mortas as três crianças, junto com a mãe grávida, Maria das Neves,
e o pai, Sebastião Vidal dos Santos.
As meninas foram estranguladas, segundo Odete. A
mãe, depois de ser estuprada, teve a barriga furada a golpes de tesoura. O pai
foi encontrado enforcado com as mãos amarradas para trás.
"Era uma coisa que ninguém esperava. Até
hoje, ninguém sabe dizer por quê, nem quem foi", diz dona Odete. Pai e mãe
não aparecem pelas imagens na igreja. Como anjinhos, as meninas acompanham
Nossa Senhora, na parede atrás do altar.
O diácono afirma: "A religiosidade popular
identifica uma inocência e uma pureza angelical nas crianças". A vida
mundana é que macula essa pureza, explica ele.
A indignação popular gerada pela chacina que
vitimou 29 pessoas em Queimados e Nova Iguaçu, em 31 de março de 2005, está
relacionada a essa concepção, como explica o sociólogo José Cláudio Souza
Alves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ).
"Foi uma chacina fora dos padrões, porque
matou pessoas vistas como inocentes. Isso trouxe uma comoção social muito
grande", diz ele. "Por outro lado, isso também mostra como ainda
persiste na região o mito de que bandido bom é bandido morto."
Pesquisador há 13 anos dos temas relacionados à
violência no Rio, ele lembra que essa lógica ajuda a ocultar o fato de que os
mortos pela violência da polícia e dos grupos de extermínio são, em geral,
jovens pobres, marginalizados. "São as vítimas perfeitas, porque são
enxergadas como réus."
O movimento dos familiares das vítimas da chacina
de 2005 percebeu e está procurando combater essa concepção. "Pode ser
bandido: ninguém tem direito de tirar a vida de ninguém. Hoje, eles matam os
filhos dos outros. Amanhã, alguém pode matar o filho deles", diz a dona de
casa Lucinéia Maria Sipriano, 52 anos, mãe de Marcos Vinícius Sipriano de
Andrade, um dos mortos no crime.
Lucinéia foi uma das idealizadoras do movimento,
que pretende ir além da pressão pela punição dos sete policiais militares
acusados pelo crime. "Nós vamos continuar, porque há mais crimes acontecendo.
Todos os familiares de vítimas podem se juntar a nós", diz Kátia Patrícia
da Silva, irmã de Marcos Vinícius.
As ativistas garantem que, mesmo familiares de
supostos criminosos mortos, como os jovens que trabalham para o tráfico de
drogas, poderão integrar o movimento. "Não tem problema nenhum. O menino
podia até estar no tráfico, mas ele é filho, e ela é mãe", explica
Lucinéia.
O primeiro teste para o movimento podem ser as
eleições de outubro. "Se a população continuar votando nesses que só pensam
em matar e querem passar por cima até do poder de Deus, a Baixada vai estar na
ruína", diz Kátia. "Tem candidato que promete segurança na rua. Mas a
segurança que eles estão colocando muitas vezes é a mesma que depois vai te
matar na rua."
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