Valter Campanato/ABr
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Duque de Caxias (RJ) - Fábio Tenório Cavalcanti, neto do ex-vereador e ex-deputado federal Tenório Cavalcanti, trabalha para preservar a memória do avô, considerado exemplo de político-justiceiro na Baixada Fluminense.
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Rio de Janeiro (RJ) - A violência e a política praticada na Baixada Fluminense tornaram-se o principal objeto de estudo do sociólogo José Cláudio
Souza Alves. Professor da Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro (UFFRJ), ele é autor do livro "Dos Barões ao Extermínio – Uma
História da Violência na Baixada Fluminense".
Na publicação, ele conta a trajetória do ex-deputado da União Democrática Nacional (UDN)
Tenório Cavalcanti. De acordo com Alves, nos anos 60, ele representou uma passagem entre o antigo coronelismo e a nova
política ligada à aliança entre o populismo e a atuação dos grupos de
extermínio na região.
No estudo, o pesquisador lembra que, apesar de se
apresentar como um migrante nordestino comum, Tenório tinha laços familiares
que lhe permitiram iniciar sua carreira política. Era sobrinho de um deputado,
o que lhe valeu a indicação para cargos de gerência de obras viárias na região,
entre outros. Por meio do comércio de lenha, carvão e materiais de construção,
iniciou sua fortuna pessoal.
Casando-se com a filha de um ex-prefeito de Nova
Iguaçu, assegurou entrada nos círculos políticos da Baixada, nos anos 30. Ao
mesmo tempo, Tenório, afirma Alves, formou um grupo armado de cerca de 40
capangas, muitos vindos também do Nordeste.
Em 1936, elegeu-se vereador de Nova Iguaçu pela
UDN, representando o distrito de Duque de Caxias. Opunha-se ao governo de
Getúlio Vargas e foi cassado em 1937. Durante o Estado Novo, envolveu-se em
diversos conflitos armados contra os aliados de Vargas.
A onda migratória nordestina, na avaliação de
Alves, mudou o perfil do eleitorado da Baixada e propiciou que, em 1947,
Tenório fosse eleito deputado estadual. Em apenas 20 anos, entre 1940 e 1960, a
Baixada passou de 140,6 mil para 891,3 mil habitantes. É exatamente esse o período
em que ascende a carreira política de Tenório.
Ele ia armado com sua metralhadora Lurdinha às
sessões da Assembléia Legislativa, escondendo-a sob a capa que oi tornou
conhecido como "homem da capa preta". Também usava colete à prova de
balas. O então ministro da Guerra, Góis Monteiro, conterrâneo de Tenório, lhe
dava licença especial para andar equipado com esse aparato.
A UDN era um partido de elite, mas, graças às
suas votações expressivas, Tenório mantinha seu prestígio na agremiação. Os
votos estavam relacionados a uma poderosa máquina de prestação de favores.
Segundo Alves, Tenório chegou a empregar três secretários e 30 atendentes como
auxiliares no atendimento de pedidos de eleitores.
Em 1953, foi acusado pelo assassinato do delegado
Albino Imparato.
Com um mandato de prisão contra si, Tenório trancou-se em sua fortaleza, no
centro de Caxias. Deputados da UDN e até ministros tiveram de intervir para
fazer valer a imunidade parlamentar do alagoano.
Em 1954, fundou o jornal "Luta
Democrática" e conquistou 42 mil votos na eleição para deputado federal –
o melhor resultado de todo o Rio. Em 1958, ele construiu a Vila São José – depois
chamada de Vila Tenório. Utilizou-se, para isso, de verba da extinta Legião
Brasileira de Assistência.
O crescimento do trabalhismo e o aumento dos
conflitos com a UDN fizeram com que ele desse uma "guinada à
esquerda". Se antes atacava os comunistas nos editoriais de seu jornal,
passou a apoiar movimentos populares como o dos camponeses da Baixada –
inclusive em ações armadas, para as quais cedia seus capangas.
Juntou-se à "Rede da Legalidade", que
defendeu a posse de João Goulart, em 1961. Fez comício ao lado de Luís Carlos
Prestes. Segundo Fábio Tenório, seu neto, em 1964, chegou a auxiliar na fuga do
país de vários perseguidos pela ditadura. Acabou cassado pela ditadura, em 1964
e, até o fim da vida, continuou morando em Duque de Caxias. Morreu em 1987, aos 82 anos, de pneumonia.
"A trajetória política de Tenório
Cavalcanti, seus percalços e seus dilemas, exemplifica de forma contundente a
passagem da dominação política oligárquica e rural, que tinha no coronelismo
sua sobrevivência, para outra, calcada no populismo, no clientelismo e na
disputa eleitoral", diz Alves no estudo.
"Tenório é, por assim dizer,
a encarnação da violência que se legitima pela pretensão de entrar num campo
político que se reestruturava a partir das mudanças sociais que
experimentava."
O surgimento dos grupos de extermínio na segunda
metade dos anos 60, analisa Alves, foi como a multiplicação de
"tenórios" destinados a proteger a coletividade. "Entramos assim
no limiar de uma nova fase na Baixada, caracterizada pelo surgimento do
esquadrão da morte."