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Valter Campanato/ABR
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Porto Alegre (RS) - Material de campanha no comitê do PMDB gaúcho. Militantes reclamam da falta de interesse dos eleitores pelo debate político.
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Porto Alegre (RS) - A cena já foi comum, segundo narra quem
circula pela avenida João Pessoa, no centro da capital gaúcha. Grupos de
militantes realizando campanha pela rua se encontram. Alguém solta uma
provocação e o bate-boca acaba em briga. "E dá-lhe pau. O pessoal acaba
indo parar no hospital ou na delegacia", conta Valdir Lacerda da Silva,
dono de bar na região.
Na avenida João Pessoa, pouco
mais de 100 metros separam o diretório estadual do PMDB no Rio Grande do Sul e
o diretório municipal do PT em Porto Alegre. Em tempo de campanha, ambos se
transformam em centros de coordenação das atividades dos militantes e
distribuição de material eleitoral.
Só que, este ano, a menos de três
semanas do primeiro turno das eleições, a avenida João Pessoa está tranqüila.
"Não deu nenhuma briga por aqui", diz Valdir. A sensação de que há
algo errado no ar é confirmada por militantes dos dois partidos, historicamente
adversários no estado e, nesta eleição, responsáveis por dois dos principais
candidatos a governador.
"Há um repúdio diante de
tudo o que tem acontecido", afirma André Carús, 24 anos, presidente da
Juventude do PMDB em Porto Alegre, em referência aos escândalos envolvendo
investigações sobre corrupção no governo federal e no Congresso.
"Há uma descrença geral. Tem
gente que não sabe diferenciar. Uma parte do povo vê as denúncias e coloca
todos os políticos num saco de gatos."
Carús conta que percebe esse
repúdio quando faz campanha na rua, entregando material na porta de escolas,
por exemplo. "Tem gente que rasga, bota no chão. Tem gente que olha e
entrega de volta, de desaforo. Tem gente que pega o material, sai andando e
depois bota no lixo."
"A ética aqui no Rio Grande
é muito cobrada. Tanto é que, nesses escândalos, praticamente não tem nenhum
gaúcho", afirma Marcos Cruz, um dos coordenadores de campanha do PT no
estado.
Clara Maria Scott Silva, 56 anos,
militante do PT desde 1983, reclama de uma "campanha da mídia" para
colocar em descrédito os candidatos do partido.
"Colocam um carimbo, como se
fôssemos todos corruptos", diz a petista. Ela aponta como fator adicional
para a apatia na campanha as limitações impostas pela nova legislação
eleitoral, que proíbe a utilização de outdoors, cartazes e faixas em espaços
públicos, por exemplo.
"Já houve campanha em que
essa cidade ficou vermelha", lembra, em alusão à cor de seu partido, que
já governou a capital por quatro mandatos e, o estado, na gestão anterior à atual.
"Agora estão com essas restrições novas. Nas próximas eleições, é capaz
até que cortem o horário eleitoral. No futuro, acho que vamos precisar de uma
bola de cristal para saber que vai ter eleição."
O adversário Carús, do PMDB,
concorda que é, principalmente, a menor presença de militantes do PT o que
provoca a impressão de esvaziamento. "Indiretamente, pela agitação do PT,
obrigava os outros partidos a ir para a rua."
Outro ponto tradicional de
divulgação das campanhas em Porto Alegre é a Esquina Democrática, entre a rua
dos Andradas e a avenida Borges de Medeiros, no centro da capital.
Segundo os militantes que fazem
campanha no local, cerca de 500 mil pessoas passam por ali todos os dias. O
ponto é tradicionalmente tão concorrido que a Justiça Eleitoral realiza
sorteios e determina os dias em que cada coligação ou partido pode fazer
campanha ali.
Num banco de rua próximo à
esquina, um grupo de velhos amigos que se reúne ali há mais de 30 anos
confirma: é a campanha mais desanimada das últimas décadas. "Só vêm fazer
campanha os que têm cargo. Neste horário (18h), era pra ter mais de mil pessoas
fazendo campanha ali", diz o radialista Gustavo Alves, 62 anos.
"A falta de credibilidade
dos políticos anda muito grande. Acho que muita gente vai anular seu voto. O
povo está muito desgostoso", emenda o funcionário público João Carlos
Lemos, 66 anos.
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