Num estado com tradição política como o Rio Grande do Sul, é possível perceber, nas trajetórias pessoais de alguns militantes, a influência e as referências a passagens importantes da história recente do país. Dois dos entrevistados pela equipe da Radiobrás são exemplos: aprenderam a fazer política em casa, com o pai, e, desde muito jovens, passaram a dedicar parte de seu tempo à militância.

Clara Scott, 56 anos, era bancária no final dos anos 70, quando quem dirigia o sindicato da categoria era Olívio Dutra, mais tarde governador do Rio Grande do Sul pelo PT. Em 1983, filiou-se ao recém-criado PT: "È aquela coisa, tu quer uma sociedade mais justa e igualitária, e no partido encontra mais gente que compartilha desses ideais."

Depois de atuar voluntariamente em várias campanhas eleitorais, trabalhando em horário de almoço, à noite e aos fins de semana pelo partido, Clara resolveu dedicar-se em tempo integral à atividade. Em 1994, inscreveu-se para o concurso de secretária do diretório municipal do PT em Porto Alegre e foi selecionada. Passou oito anos no trabalho, de 1995 a 2003.

Lá, Clara conta que buscou tarefas ligadas ao atendimento ao público, seja como recepcionista ou ouvidora. "É interessante porque tu dá aquele tratamento para o pessoal. Tem que ter paciência, ouvir", diz ela. "È uma coisa que a gente não consegue mudar: as pessoas querem resolver todos os seus problemas no período eleitoral."

O pai de Clara era funcionário da Assembléia Legislativa e, apesar de nunca ter se filiado a um partido, envolvia-se constantemente em política.

"Ele chegou a se entrincheirar com o Brizola no palácio", conta a petista, fazendo referência ao movimento de resistência que o então governador do estado, Leonel Brizola, comandou em 1961 para defender a posse de João Goulart (vice-presidente) após a renúncia de Jânio Quadros (presidente).

"Tinha hora em que eu me indignava com ele: puxa, o senhor me diz pra votar em candidato de esquerda, eu voto, eles vão lá e cassam", lembra Clara. "Ele saía de madrugada pra fazer colagem (de cartazes). Era um homem muito generoso e dedicado."

O pai de André Carús, 24 anos, militante do PMDB há 10, foi vereador por dois mandatos em Alegrete (RS). Antigo militante do MDB, Eroni Carús acabou cassado no início do regime militar. Passou 15 anos sem seus direitos políticos e, após a redemocratização do país, voltou a se eleger vereador.

André Carús começou na política no movimento estudantil secundarista. Hoje, ele é presidente da Juventude do PMDB na cidade e também participa da direção estadual dessa organização partidária.

Ele se diz contrário às últimas decisões tomadas pela direção nacional do partido, como a de não apresentar candidato à Presidência da República – o atual governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, chegou a se apresentar como pré-candidato.

"Algumas pessoas querem usar o partido hoje como instrumento para tirar vantagem, um balcão de negócios para atender seus interesses", critica o advogado e assessor do senador Pedro Simon (PMDB-RS) no escritório em Porto Alegre.

Segundo Carús, políticos como o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), senador José Sarney (PMDB-AP) e Jader Barbalho (PMDB-PA) são exemplos do que ele não quer para o partido.