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Valter Campanato/ABr
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Novo Hamburgo (RS) - O vice-presidente da Associação de Calçados Abicalçados, Ricardo Wirth, fala sobre a crise que enfrenta o setor. Número de empregos gerados, segundo ele, é suficiente para que próximo governo pense em soluções para a redução nas exportações.
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Novo Hamburgo (RS) - A região do Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, destacou-se nos últimos anos por exportar 60% dos sapatos que o país vende para o exterior. Há um ano, no entanto, os negócios vêm sofrendo uma forte retração.
A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) calcula que, em 2004, foram vendidos 212 milhões pares para o exterior. Já em 2005, 190 milhões de pares foram exportados, a um preço médio de US$ 10 e um valor total de US$ 1,8 bilhão.
Este ano, a desaceleração no setor continua. De janeiro a julho, foram exportados 107,6 milhões de pares, 10 milhões a menos do que no mesmo período do ano passado.
O vice-presidente da Abicalçados, Ricardo Wirth, diz que a principal razão para que o governo federal olhasse com mais atenção o setor é a quantidade de postos de trabalho gerada pela indústria de calçados (quase 300 mil, atualmente, em 8,4 mil empresas), basicamente para trabalhadores de baixa qualificação.
"O treinamento é feito pela própria indústria", diz Wirth. "Seria estupidez dizer que o Brasil, com a quantidade de pessoas desempregadas e sem qualificação que tem, não é viável na produção de calçados."
Desde a crise iniciada em 2004, só no Rio Grande do Sul, 15 mil trabalhadores foram demitidos. Wirth afirma que a indústria brasileira é, hoje, competitiva e está atualizada tecnologicamente. Os problemas são as condições desiguais de competição, que estão além da eficiência e da produtividade.
"No nosso setor, a lei de mercado funciona em sua perfeição", diz ele, para quem a atual sobrevalorização do real é o principal obstáculo para o setor. "Se tivéssemos um câmbio adequado, em muitos segmentos, poderíamos competir tranqüilamente até com a China."
Basicamente, o Brasil, segundo Wirth, só não consegue concorrer com a China quando se trata de sapatos muito baratos (de US$ 1 a US$ 2), produzidos em grandes volumes.
Apesar de não se considerar “especialista” para resolver o problema do câmbio sobrevalorizado, o vice-presidente da Abicalçados aponta os altos lucros dos bancos e a elevada carga tributária como co-responsáveis pela crise.
"Nós temos a sensação de que estamos trabalhando para financiar os altos ganhos do setor financeiro e manter a inflação sob controle."
Os empresários afirmam que a exportação de calçados ficaria viável com o dólar a R$ 2,50 ou R$ 2,60. Por enquanto, com a moeda americana valendo R$ 2,10 a R$ 2,20, as empresas maiores têm mantido as vendas para o exterior como forma de não perder mercados.
Vendem o produto a preço de custo ou mesmo com prejuízo. Outros começam a apostar nas vendas para o mercado brasileiro. No entanto, diz Wirth, a expansão do mercado interno gerada pelos programas de transferência de renda do governo não seria a solução para um setor como o calçadista. "As pessoas que estão ganhando com isso não vão comprar calçados, por enquanto. Elas gastam, basicamente, em comida – o que é justo, mas não resolve o problema da indústria."
Além disso, no mercado interno, o setor calçadista ainda enfrenta problemas com a sonegação de impostos, a pirataria e o contrabando, práticas que fazem com que o produto ilegal tenha um preço final falsamente competitivo.
Segundo a Abicalçados, em 2005, apesar do consumo ter estagnado em três pares por pessoa, a importação legal subiu de 9 milhões de pares em 2004 para 17 milhões de pares. Ou seja, um aumento de 89%, que não contabiliza o contrabando e subfaturamento. Do total de produtos importados, 60% vieram da China.
O Sindicato dos Sapateiros de Sapiranga e Região aponta outro problema: empresas instaladas em estados onde os trabalhadores têm um acúmulo de conquistas trabalhistas estariam sofrendo assédio de estados do Nordeste, com promessas de isenção fiscal e outros incentivos. Resultado: trabalhadores em estados como a Bahia e o Ceará são contratados por salários menores e recebendo menos benefícios sociais, como participação nos lucros, convênios e serviços. Segundo o sindicato, enquanto um sapateiro gaúcho ganha cerca de R$ 600, no Nordeste, o salário médio está em torno de R$ 400.
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