O aumento em 2005 do número de crianças na faixa dos 5 aos 14 anos que trabalham no Brasil, após cinco anos de queda, deve ser analisado com cautela, alerta a doutora em antropologia Delma Neves, professora da Universidade Federal Fluminense. Trabalhar durante a infância nem sempre pode ser encarado como algo
ruim, explica, especialmente quando há algum vínculo familiar com o trabalho.
Delma Neves disse que o trabalho infantil é um problema geralmente
quando está ligado à baixa remuneração da família ou de impossibilidade
dos adultos responderem a essa responsabilidade. Ela acrescentou que,
também, às vezes está relacionado a um trabalhador que precisa de
mão-de-obra capaz, mas procura quem possa ser disciplinado mais
facilmente e ao mesmo tempo aceite ganhar um salário menor.
“É um absurdo pegar uma criança, botar para fazer um trabalho e pagar um valor mínimo, mas na condição de assalariado”.
A antropóloga explicou que, no caso do trabalho feito com a família,
como diagnosticado pelo IBGE na região Sul, “é outra questão". Segundo
ela, "aí ela está trabalhando sob orientação dos pais e, muitas vezes,
com os pais, respeitando os horários de escola e, também, adequando o
tipo de trabalho às condições da criança. Isso é muito comum”, afirmou.
De acordo com a pesquisadora, “não há
campanha que consiga resolver isso muito bem porque os pais
consideram, inclusive, que esses meninos têm que ser desde cedo
socializados para aprender a trabalhar”.
O resultado do trabalho infantil consta da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) 2005, divulgada hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. A alta foi de 10,3% em comparação a 2004 e, segundo o IBGE, estaria ligada a fatores sazonais (seca) registrados na área agrícola, em especial do Sul do país. Segundo o IBGE, devido à falta de chuva, os agricultores perderam suas culturas e, face aos prejuízos sofridos, os filhos foram levados a ajudar nas hortas para o consumo das famílias.