O rosto do
sapateiro Arolde da Luz Bica, 27 anos, tem uma expressão angustiada. O salário
de Arolde está atrasado há 20 dias. O rapaz já deve R$ 130 do que comprou fiado
no mercado perto de casa, R$ 240 do aluguel do mês e R$ 115 da pensão da filha.
Os R$ 540 que tem a receber fazem falta.
"Faz seis anos que trabalho
como sapateiro e isso nunca tinha acontecido", conta. Encontramos Arolde na sede do Sindicato dos
Sapateiros de Sapiranga e Região. Ele busca orientação para saber como agir a
respeito do atraso.
O dinheiro esperado faz parte das
férias compulsórias decretada pela empresa onde Arolde trabalha, a Vale
Calçados, para boa parte dos 600 trabalhadores - segundo o sindicato, eram 1,3
mil até 2004.
Como tantos outros jovens que
trabalham na indústria calçadista gaúcha, Arolde é filho de agricultores (veio
de São Luis Gonzaga, região oeste do estado), cursou até o 1º ano do ensino
médio e chegou a Sapiranga sem saber nada do ofício de sapateiro. Incentivado
por um amigo, desembarcou na cidade numa sexta-feira e, na segunda, já estava
empregado. Nas empresas onde trabalhou, aprendeu a profissão.
A angústia que assola a região do
Vale dos Sinos, de onde sai cerca de 40% da produção brasileira de calçados,
não tem classe social. A algumas centenas de metros do sindicato, a mesma
expressão está no rosto dos proprietários da Calçados Pricawi, Carlos
Krasnievicz, 50 anos, e João Pereira David, 49 anos.
Os dois sócios trabalham há mais
de 30 anos no setor e começaram como Arolde. Filhos de agricultores, aprenderam
dentro das fábricas do Vale dos Sinos e ficaram milionários com a indústria do
sapato. Começaram com capital próprio, empregando 30 funcionários.
No auge, há três anos,
empregavam, direta e indiretamente, 1,6 mil pessoas, produziam mais de 12 mil
pares de calçados por dia e faturavam US$ 10 milhões por mês. Hoje, mantêm 115
funcionários – com outros 120 em férias, por tempo indeterminado. Produzem mil
pares ao dia e o volume de negócios caiu para cerca de R$ 8 milhões por mês.
Desde que fundaram a Pricawi, há
treze anos, Carlos e João vendiam para o exterior 100% da produção da fábrica.
È uma situação típica em Sapiranga, onde cerca de 90% da produção de quase 300
empresas se destina à exportação. Por isso, os empresários dali foram
especialmente afetados pela valorização do real desde o segundo semestre de
2004.
Nessa época, eles aceitaram
encomendas em dólar quando a moeda americana valia cerca de R$ 3,20. Quando
foram entregar o produto, o dólar já havia baixado para cerca de R$ 2,40.
Significa que, quando Carlos e João trocaram a moeda americana por reais para
pagar os funcionários ou os fornecedores, receberam 25% a menos do que
esperavam.
O resultado de tudo isso foi um
acúmulo de prejuízos e dívidas que já chega a mais de R$ 5 milhões. Carlos e
João dizem que nunca viram uma crise como essa no setor e estão ressentidos com
o poder público. "Nunca ninguém do governo veio ver se nós estamos bem,
perguntar se precisamos de alguma ajuda. Só aparecem para nos multar e para nos
cobrar", reclama Carlos.
Por causa da inadimplência gerada
pela crise, os empresários dizem que não puderam aproveitar os recentes
créditos de R$ 400 milhões que o governo liberou para o setor. "O pacote
só ajudou quem não precisava", conta João.
Além disso, segundo eles, a
empresa tem cerca de R$ 1,6 milhão em créditos com a Receita Federal, que estão
retidos desde o ano passado – exportadores recebem de volta o dinheiro
referente a vários impostos, calculados sobre o consumo de matéria-prima e o
gasto com mão de obra.
Carlos, João e Arolde vão votar
em 1º de outubro. O sapateiro acredita que, depois das eleições, as coisas vão
melhorar. "Do jeito que está, não pode
piorar", diz ele. Se passarem mais dois meses, e as coisas não melhorarem
na indústria, Arolde já cogita ir embora de Sapiranga. "O aluguel e a
comida não esperam."
Carlos e João dizem que votarão com esperança de que
alguém faça algo pelos seus problemas. "A falta de atenção do governo é o
que mais prejudica o setor", afirma Carlos. "Nós somos a galinha dos
ovos de ouro do Brasil e não estão cuidando da gente."