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Brasília - Essa foi a pergunta
que me fiz quando fui convidado pelo presidente da Radiobrás
para assumir a função de ouvidor. Logo me ocorreu a
imagem de um cara com uma orelha enorme que ouvia tudo que o público
tinha a dizer e repassava para aqueles(as) que fazem o jornalismo e a
nossa programação. Depois ouvia suas considerações
e as retransmitia ao público.
Essa figura caricata do ouvidor
em meu pensamento foi evoluindo no decorrer dos últimos meses,
tempo que tive para tomar pé da situação,
entender as expectativas dos profissionais da empresa em relação
ao trabalho da ouvidoria, ser apresentado a minha equipe e iniciar o
diálogo com o(a) cidadão(ã).
Entre telefonemas e
e-mails foram mais de 200 nesse período, o suficiente
para começar a conhecer nosso público, saber quais são
suas preocupações, críticas e desejos em relação
a esta empresa pública de comunicação. Foi um tempo para o
planejamento de minha ação, também utilizado
para definir o formato desta coluna, e dos espaços Ouvidoria
no Ar, que estamos inaugurando hoje
no rádio e na TV. Foi um tempo para conhecer um pouco da
história das ouvidorias no Brasil e no mundo, e me inteirar do
trabalho de minha antecessora, Emília Magalhães.
Finalmente, esse
tempo, de pouco mais de dois meses, me permitiu saber exatamente o
que é uma ouvidoria e para que ela serve, ou melhor, a quem
ela serve. Colocando-me na
posição de leitor, percebi que às vezes lemos
uma notícia que em vez de nos esclarecer sobre um determinado
assunto nos enche de dúvidas. As perguntas ficam entaladas em
nossa garganta e não sabemos a quem recorrer para pedir as
respostas. Aí nos perguntamos se somos nós que não
conseguimos entender ou se foram os jornalistas que não
souberam explicar. Seja qual for o caso, a Ouvidoria deve ter a
resposta. Ela é um canal de diálogo para receber as
perguntas, críticas e sugestões.
Além disso, ela
tem a função de, com base nas demandas do público,
ajudar os jornalistas a pensar sobre o que fazem e como fazem. Quando
um(a) leitor(a) envia uma correspondência ou liga para a
Ouvidoria ele(a) recebe um número de protocolo com o qual
ele(a) poderá acompanhar o caminho percorrido por sua mensagem
dentro das instâncias do jornalismo. Após uma análise
preliminar, feita pelos assessores da ouvidoria para saber se o
assunto é de nossa competência, a voz do(a) leitor(a)
começa a provocar uma série de reações na
redação. Muitos dizem que o jornalista não gosta
de ser criticado e eu acrescentaria que nós todos, de modo
geral, não gostamos de ser criticados. Mas justamente no
jornalismo, a crítica é mais que fundamental. Os
jornalistas, absorvidos em sua rotina diária, pressionados
pela urgência do tempo para que a notícia não
envelheça em suas mãos,
normalmente não têm muito tempo para refletir sobre seu
trabalho.
E aí entra a Ouvidoria para chamar a atenção
do(a) jornalista no sentido de lembrá-lo(a) que do outro lado
da página eletrônica há um leitor que pode não
ter entendido o que ele(a) quis dizer, ou que faltaram informações
importantes ou ainda que ele(a) esqueceu de ouvir alguma parte
envolvida no assunto, ou até mesmo que
a linguagem com que ele(a) se comunicou com o(a) leitor(a) não
permite que sua mensagem seja bem compreendida. Portanto, cabe a
Ouvidoria não só ouvir o(a) leitor(a) como também
fazer com que sua voz seja ouvida na redação.
Em uma decisão
amparada por uma norma interna, qualquer setor da empresa tem um
prazo de cinco dias úteis para responder ao leitor(a) sobre
sua demanda. A Ouvidoria analisa a resposta para ver se o pleito
do(a) leitor(a) foi satisfatoriamente atendido, caso contrário,
é solicitado ao(a) autor(a) que a resposta seja refeita.
Assim sendo, a
Ouvidoria tem por missão comparar o que foi feito com o que
deveria ou poderia ter sido feito. E nada melhor do que uma crítica
construtiva para provocar mudanças no sentido de produzir
novos modos de pensar e de fazer o jornalismo. É a crítica
que não visa destruir nem desmerecer um trabalho, e sim
proporcionar uma oportunidade para que esse trabalho seja
permanentemente repensado à luz da capacidade de compreensão
do leitor(a).
Para sugerir aos
jornalistas o que poderia ou deveria ser feito em vez do que foi
publicado, a Ouvidoria conta com um referencial teórico que
funciona como um pacto entre a direção e os jornalistas
da casa. Esse pacto está consolidado num conjunto de normas,
regras e recomendações reunidas no Manual de
Jornalismo da Radiobrás –
um trabalho árduo e coletivo que custou quatro anos de
reflexão da equipe da empresa.
Além de dar voz
ao(a) cidadão(ã) e de cuidar para que ela seja ouvida
na redação da Agência Brasil, a Ouvidoria
também tem a função de ajudar a formar e a
informar o(a) leitor(a) para que se estabeleça uma relação
crítica entre leitor(a) e notícia. Para isso, a
Ouvidoria tem em seus planos para 2007, a implantação
de um programa de educação para a mídia através
do qual serão fornecidos a estudantes do ensino fundamental e
médio instrumentos de análise de mídia e
oportunidades de criticar e fazer mídia, usando a estrutura e
os meios dos veículos da Radiobrás como laboratório.
Paralelamente a isso, a Ouvidoria também está
preocupada em implementar um projeto de análise crítica
de mídia com estudantes de comunicação através
de parcerias com escolas de nível superior, institutos de
pesquisa e organizações não governamentais
afeitos ao tema da comunicação.
Como o(a) leitor(a)
pode observar, tenho muito trabalho pela frente. O desafio é
contribuir para mudar a qualidade da relação que o(a)
leitor(a) tem com aquilo que lê, com a maneira como se informa,
com a qualidade da informação. É sobre o
atendimento a esse direito fundamental da pessoa humana, o direito à
informação, que me debruçarei durante todo este
ano, ouvindo muito e falando só o essencial.
Semanalmente estarei
aqui com a Coluna do Ouvidor analisando as críticas e
sugestões que você enviar, com o objetivo de aprimorar o
jornalismo com foco no cidadão produzido por esta empresa
pública de comunicação da qual você,
cidadão(ã), é o(a) mais legítimo(a)
proprietário(a).
Agora já vejo o
ouvidor como uma pessoa normal. A figura caricata dos primeiros dias
se desfez depois que o mistério do cargo foi se dissipando
pelo conhecimento e pela informação. Só eles são
capazes de desfazer os fantasmas que criamos.
Até a próxima
semana.
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