O papel dos acusados de envolvimento com jogos ilícitos presos pela Operação Furacão está descrito no processo em curso na 6ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro. No documento, a juíza Ana Paula Vieira de Carvalho explica que o trabalho começou em 2005, com o objetivo de aprofundar investigações sobre um esquema organizado de corrupção na Delegacia Fazendária da Polícia Federal do Rio de Janeiro.
Segundo a juíza, a operação logo percebeu a ligação de delegados e agentes federais com o esquema de casas de bingos e jogos ilícitos. “A Operação Furacão trouxe fortes indícios de que os denunciados operacionalizam sofisticada organização criminosa, com movimentação de elevadíssimas somas de dinheiro e infiltração nas mais altas esferas do aparelho estatal”, declara a juíza no processo. Atualmente, 29 pessoas são citadas nas investigações. Desse total, 23 estão presas, quatro foram libertadas e um está foragida. O ministro do STJ Paulo Medina foi denunciado, mas teve sua prisão negada.
A Operação Furacão desarticulou uma quadrilha de contraventores, delegados e magistrados acusados de crimes como corrupção, tráfico de influência e envolvimento com jogos ilegais. A investigação mostrou a relação entre bicheiros, a polícia e a Justiça no Rio de Janeiro. Além da prisão preventiva dos acusados, a Polícia Federal apreendeu dinheiro e artigos de luxo que estavam em posse dos suspeitos, como jóias, veículos importados, armas e munições.
Em 1993, a então juíza Denise Frossard, do Tribunal de Justiça do Rio
de Janeiro, havia condenado por formação de quadrilha os contraventores
Aniz Abraão Davi, o Anísio, Ailton Jorge Guimarães, o capitão
Guimarães, José Petrus Kalil, o Turcão. Eles foram condenados a seis
anos de prisão, mas foram colocados em liberdad depois de cumprirem três
anos da pena.
A Agência Brasil publica a seguir uma tabela para esclarecer as acusações. As informações são divulgadas agora, quase duas semanas depois da ação da Polícia Federal, porque os dados estavam sob sigilo de Justiça.
| NOME | QUEM É | ACUSAÇÃO | SITUAÇÃO |
|---|---|---|---|
| Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães | Dono
de casa de bingo e presidente da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro | Seria um dos líderes da organização criminosa, e determinaria indiretamente os destinos do grupo | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| Ana Claudia Rodrigues do Espírito Santo | Secretária da Associação dos Administradores de Bingos e Similares do Estado do Rio de Janeiro (Aberj) | Teria auxiliado o policial civil Marcos Bretas no repasse de proprinas a funcionários públicos cooptados pela organização criminosa | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| Aniz
Abraão Davi, o Anisío | Dono de casa de bingo e presidente de honra da escola de samba Beija Flor | Seria um dos líderes da organização criminosa, e determinaria indiretamente os destinos do grupo | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| Antonio Petrus Kallil, o Turcão | Dono
de casa de bingo e de rede de hotéis e alimentos | Seria um dos líderes da organização criminosa, e determinaria indiretamente os destinos do grupo | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| Belmiro Martins Ferreira | Sócio
da Betec Games, empresa especializada na
importação de componentes eletrônicos
utilizados nas máquinas de azar | Teria pago propina ao desembargador Carreira Alvin para liberar máquinas apreendidas | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| Carlos Pereira da Silva | Delegado de Polícia Federal | Teria sido cooptado pela quadrilha para fornecer mediante pagamento informações privilegiadas sobre operações de repressão aos jogos ilegais | Por
ser funcionário público, tem prazo de 15 dias para
apresentar defesa por escrito antes de prestar depoimento |
| Ernesto da Luz Pinto Dória | Juiz
do Tribunal Regional do Trabalho de Campinas (SP) | Teria recebido propina de policiais da organização criminosa para influenciar decisões judiciais | Foi solto após conseguir habeas corpus do STJ. Responderá às acusações no STF |
| Evandro da Fonseca | Advogado e lobista | Teria aliciado
servidores públicos por meio do pagamento de propina para obter facilidades
em inquéritos | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| Francisco Martins da Silva | Agente administrativo da Polícia Federal de Niterói | Teria sido cooptado pela quadrilha para fornecer mediante pagamento informações privilegiadas sobre operações de repressão aos jogos ilegais | Por
ser funcionário público, tem prazo de 15 dias para
apresentar defesa por escrito antes de prestar depoimento |
| Jaime Garcia Dias | Advogado e lobista | Teria aliciado servidores públicos por meio do pagamento de propina para obter facilidades em inquéritos | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| João Oliveira de Farias | Sócio da Scorpion Lan House | Atuaria como operador da organização criminosa para pagar propinas. Teria tentado sacar às pressas R$ 1,250 milhão | Preso no Rio de Janeiro |
| João Sérgio Leal Pereira | Procurador Regional da República | Teria recebido proprina em troca de decisões judicais favoráveis à organização criminosa | Foi solto após ter a prisão temporária revogada pelo STF. Responderá às acusações no STF |
| José Eduardo Carreira Alvim | Desembargador do Tribunal Regional Federal da 2ª Região | Teria recebido, entre outras propinas, R$ 1 milhão para liberar 900 máquinas apreendidas, de propriedade de José Renato e Belmiro Ferreira | Foi solto após ter a prisão temporária revogada pelo STF. Responderá às acusações no STF |
| José Luiz da Costa Rebello | Gerente da casa de bingo Icaraí | Operaria
as decisões dos chefes da organização e também se beneficiaria do esquema. Gerente de bingo onde foram apreendidas máquinas que teriam sido recuperadas por decisões judiciais compradas | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| José Renato Granado Ferreira | Vice-presidente da Associação dos Administradores de Bingos e Similares do Estado do Rio de Janeiro (Aberj) e sócio da Betec Games | Operaria as decisões dos chefes da organização e também se beneficiaria do esquema. Teria pago propina ao desembargador Carreira Alvin para liberar máquinas apreendidas | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| José Ricardo de Figueira Regueira | Desembargador do Tribunal Regional Federal da 2ª Região | Também teria recebido proprina em troca de decisões judicais favoráveis à organização criminosa | Foi solto após ter a prisão temporária revogada pelo STF. Responderá às acusações no STF |
| Julio Guimarães Sobreira | Sobrinho do Capitão Guimarães, secretário-geral da Aberj, e sócio oculto do Barra Bingo | Operaria as decisões dos chefes da organização e também se beneficiaria do esquema. | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| Laurentino Freire dos Santos | Dono da casa de bingo Icaraí | Operaria
as decisões dos chefes da organização e também se beneficiaria do esquema. Dono de bingo onde foram apreendidas máquinas que teriam sido recuperadas por decisões judiciais compradas | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| Licinio Soares Bastos | Dono da casa de bingo Icaraí | Operaria as decisões dos chefes da organização e também se beneficiaria do esquema. Dono de bingo onde foram apreendidas máquinas que teriam sido recuperadas por decisões judiciais compradas | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| Luiz Paulo Dias de Mattos | Delegado aposentado da Polícia Federal | Teria sido cooptado pela quadrilha para fornecer mediante pagamento informações privilegiadas sobre operações de repressão aos jogos ilegais | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| Marcelo Kalil | Filho
de Antônio Kalil, o Turcão, e dono da empresa Abraplay | Estaria ocupando o espaço de seu pai, como um dos líderes da organização. Teria pago propina de R$ 150 mil para o desembargador Carreira Alvim para liberar máquinas da empresa Abraplay | Teve prisão cautelar decretada, mas está foragido |
| Marcos Antônio dos Santos Bretas | Policial civil | Teria repassado informações privilegiados à organização criminosa e sido responsável pelo pagamento de propinas a policiais e servidores públicos cooptados | Por
ser funcionário público, tem prazo de 15 dias para
apresentar defesa por escrito antes de prestar depoimento |
| Nagib Teixeira Sauid | Sócio da casa Barra Bingo | Atuaria como operador da organização criminosa para pagar propinas. Teria tentado sacar às pressas R$ 500 mil | Preso no Rio de Janeiro |
| Paulo Medina | Ministro
do Superior Tribunal de Justiça (STF) | Teria recebido proprina em troca de decisões judicais favoráveis à organização criminosa | Seu pedido de prisão foi negado pelo STF, que preside parte do inquérito. Está de licença ao STJ por motivos médicos |
| Paulo Roberto Ferreira Lino | Presidente da Associação dos Administradores de Bingos e Similares do Estado do Rio de Janeiro (Aberj) | Operaria as decisões dos chefes da organização e também se beneficiaria do esquema. | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| Sérgio Luzio Marques de Araújo | Advogado | Teria intermediado o pagamento de propina para o desembargador Carreira Alvim liberar máquinas de caça-níqueis. E também ao agente Francisco Martins em troca de informações sobre operações policiais | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| Silvério Néri Cabral Junior | Advogado e genro do desembargador federal Carreira Alvim | Teria intermediado o pagamento de propina ao desembargador | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |
| Susie Pinheiro Dias de Mattos | Delegada da Polícia Federal | Teria sido cooptado pela quadrilha para fornecer mediante pagamento informações privilegiadas sobre operações de repressão aos jogos ilegais | Por ser funcionária pública, tem prazo de 15 dias para apresentar defesa por escrito antes de prestar depoimento (artigo 514 do Código de Processo Penal) |
| Virgilio de Oliveira Medina | Lobista,
advogado e irmão do ministro Paulo Medina, do Superior
Tribunal de Justiça (STJ) | Teria intermediado
o pagamento de propina de R$ 600 mil ao seu irmão, ministro do STJ, para obter decisão favorável à organização criminosa | Preso pela Polícia Federal. Convocado para depoimento na 6ª Vara Federal do Rio |