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Brasília - O assunto de que vamos tratar
esta semana foi inspirado na mensagem do leitor Vilson Vieira Júnior,
na qual ele afirma: “A reportagem ‘Mudança no padrão de consumo
é meio de combate a aquecimento global, diz pesquisador’, publicada
pela Agência Brasil no dia 4 de maio de 2007 às 6h, não tratou
de forma relevante a questão referente às mudanças no padrão de
consumo da sociedade, tendo em vista que o assunto foi objeto de título
da matéria aqui citada. A reportagem limitou-se a discutir o que outras
matérias correspondentes discutiram, como o uso de fontes de energia
renováveis, o que o Brasil tem feito nesse quesito e sua posição
no mundo, além das metas a serem perseguidas na diminuição da emissão
de gases poluentes na atmosfera, entre outros itens. Entretanto, a matéria
deixou a desejar no que propunha seu título: revelar o que disse o
pesquisador a respeito de mudanças no padrão de consumo da sociedade.”
Esta Ouvidoria analisou a matéria
em questão e mais 11 similares publicadas entre 4 e 6 de maio. Essas
12 matérias constituíram a cobertura da Agência Brasil sobre
o lançamento do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças
Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da Organização das Nações
Unidas (ONU), no dia 4 de maio, em Bangcoc, na Tailândia. O pesquisador
entrevistado foi Roberto Schaeffer – um dos três brasileiros que participaram
do terceiro grupo de trabalho responsável pela formulação do relatório.
Encaminhei a mensagem do leitor
para a Agência Brasil acompanhada de um parecer da Ouvidoria
no qual argumentava que o leitor tinha razão, uma vez que o pesquisador
falou que as medidas vão da adoção de práticas de eficiência energética
(assunto tratado na matéria) até mudanças no padrão individual de
consumo (assunto não tratado na matéria), apesar de o título citar
esse assunto.
A redação da Agência
respondeu: “O título da matéria era abrangente e se propunha a avaliar
o padrão de consumo energético. Ou seja, nele inserido o debate da
forma individual e do perfil da matriz energética. A matéria é superficial,
mas não há erro. A Agência mudou o título para ficar mais
claro: ‘Brasil já usa combustíveis menos poluentes que outros países,
diz pesquisador’. Sobre isso, inclusive, fizemos outras matérias
no mesmo dia e em ocasiões anteriores.”
Tínhamos então a confirmação
de que o título da matéria tinha sido equivocado ao afirmar uma coisa
e a matéria tratar de outra. Outra possibilidade era que o pesquisador
estivesse se referindo a aspectos que, embora constassem do relatório,
não tivessem sido contemplados na matéria em questão, mas sim em
outras matérias publicadas no mesmo dia, conforme informava a redação.
E, realmente, na matéria “Uso eficiente de energia deve se estender
da indústria às casas, aponta relatório da ONU”,
publicada no mesmo dia, às 18h50, a questão referente às mudanças
no padrão de consumo da sociedade, reivindicada pelo leitor, era abordada.
Concluímos então que tivemos problemas com o título de duas matérias,
e não de uma só.
Coincidentemente, o Ouvidor
do jornal El Colombiano, Víctor León Zuluaga Salazar, em sua
coluna semanal publicada em 7 de maio, tratava do mesmo assunto –
a edição dos títulos das matérias daquele jornal do país vizinho.
Lendo sua coluna, chamou-me a atenção a imagem usada para definir
a função do título da notícia: uma janela para o assunto. Segundo ele, o título deve induzir e seduzir o leitor para que detenha
sua visão e entre por essa janela para observar o que está passando
ao seu redor. Ele afirma ainda que colocar o título numa matéria é
uma arte.
No título da primeira matéria
citada, a janela representada pelo título atraiu o leitor para o assunto.
A janela foi aberta e o leitor não encontrou o que esperava. Decepção
é o sentimento que define a sensação do leitor nessas ocasiões.
Ele provavelmente se sente traído, enganado. Já o título da segunda
matéria referida, na qual o leitor encontraria o assunto que procurava,
não apresentou uma janela tão atraente como a primeira, além do fato
de essa janela só ter sido exposta ao público mais de 12 horas depois
da primeira, embora a entrevista com o referido pesquisador tivesse
sido feita no dia anterior.
Desvendado o mistério, poderíamos
encerrar esta coluna por aqui e recomendar ao leitor que fizesse a leitura
de todas as 12 matérias para saber sobre as medidas de mitigação
dos efeitos da tecnologia sobre o aquecimento global. Mas, já que estávamos
analisando a cobertura, resolvemos dar uma olhada no relatório do IPCC
para avaliar as informações disponibilizadas pela Agência Brasil.
Constatamos que, embora a cobertura
da Agência enfatizasse a questão da matriz energética e as
possíveis soluções para a redução dos gases emitidos em função
da substituição dos combustíveis utilizados, esse era apenas um dos
principais fatores apontados no relatório para redução dos poluentes.
Resumindo, podemos dizer que
o foco das recomendações do relatório está voltado para a implementação
de medidas, em diversos setores da economia, que possibilitem poupar
energia, solos, florestas e minérios por meio do seu uso mais racional.
Essa “poupança”, medida em bilhões de toneladas de gases poluentes
que deixarão de ser emitidos, pode variar bastante, e definirá a qualidade
da atmosfera de nosso planeta em 2030. Tudo dependerá das medidas adotadas
pelos governos, em termos de políticas públicas, e de medidas tomadas
pelas pessoas individualmente, em termos de hábitos de consumo e de
comportamento. Isso não fica claro nas matérias da Agência,
que também não mostram qual o possível impacto do relatório nas
políticas públicas do governo.
Segundo o relatório, poderemos
passar de uma emissão anual da ordem de 49 bilhões de toneladas de
gases poluentes em 2004 para até 85,7 bilhões de toneladas em 2030
se tudo continuar como está. No entanto, se forem tomadas as decisões
recomendadas pela equipe autora do relatório, esse incremento até
2030 poderá ser de apenas 9,6 bilhões de toneladas. O relatório aborda
ainda os custos dessas decisões e as medidas a serem tomadas envolvendo
aspectos científicos, tecnológicos, ambientais, econômicos e sociais
para esse “alívio” da mudança climática global. Cada fator é
analisado separadamente, bem como sua possível contribuição para
essa “poupança de qualidade da atmosfera terrestre”.
O setor mais promissor é o
da construção civil, com a possibilidade de reduzir de 5,3 a 6,7 de
gigatoneladas equivalentes de gás carbono por ano, contra uma possibilidade
de redução de 2,4 a 4,7 para o abastecimento de energia, de 1,6 a
2,5 para o transporte, e, com uma importância relativamente maior,
a redução da indústria com 2,5 a 5,5. O segundo setor mais importante,
sobretudo em termos do pico da sua contribuição potencial é a agricultura,
com a redução que pode variar de 2,3 a 6,4. Os outros setores analisados
são florestas, com redução de 1,3 a 4,2, e o de resíduos sólidos
(lixo e esgoto), com 0,4 a 1 gigatonelada de gases poluentes.
Tudo vai depender de quanto
as nações, os governos, as empresas e as pessoas estão dispostos
a gastar para fazer essa “poupança”. Em função disso, os cientistas
trabalham com três possíveis cenários. Esses cenários são mostrados
nas matérias, bem como os custos pagos pelas nações para implementar
as medidas necessárias e amenizar os efeitos nocivos nos próximos
anos. Mas, com relação à contribuição potencial de cada fator,
estimada para aliviar a mudança climática nos vários cenários projetados
no relatório, as matérias não explicam qual é a importância de
cada um.
Dentre as medidas que podem
ser tomadas está o uso racional de tecnologias e práticas existentes
e comercialmente disponíveis. O relatório aponta as seguintes soluções
na área de construção civil: iluminação eficiente e iluminação
por raios solares; aparelhos elétricos e de aquecimento e resfriamento
mais eficientes; melhorias nos fogões; melhor isolamento térmico;
arquitetura que incorpore elementos solares ativos e passivos de aquecimento
e resfriamento; fluidos alternativos para refrigeração e recuperação
e reciclagem de gases fluorados. Entre as recomendações tecnológicas
e práticas que deverão ser comercializadas até 2030, também na área
de construção civil, estão: desenho integrado dos prédios comerciais,
como detectores inteligentes, que permitam feedback e controle
de temperatura e luminosidade; e painéis solares elétricos integrados
nos edifícios.
Assim, o leitor que abriu as
janelas proporcionadas pelos títulos das matérias da Agência Brasil
viu assuntos que estavam mais próximos do interesse de alguns setores
da sociedade brasileira e mais distantes dos assuntos retratados no
relatório da ONU. Pelas janelas da Agência o leitor viu campos
plantados com vegetais biocombustíveis, usinas nucleares produzindo
energia elétrica e a floresta amazônica sendo preservada. Se o assunto
fosse visto por outras janelas, abertas com base na escala de prioridades
recomendadas no relatório do organismo da ONU, o leitor veria em primeiro
plano edifícios abastecidos com energia solar e controle de temperatura,
ventilação e iluminação totalmente automatizadas, a agricultura
orgânica em segundo plano, indústrias com controle de emissões em
terceiro e só nos demais planos, mais ao fundo, ele veria o que o leitor
da Agência viu nos primeiros planos. Enquanto as matérias se
preocuparam mais com a questão das possíveis formas de geração de
mais energia, as recomendações do relatório se preocupam mais em
como poupar e usar melhor a energia gerada. As informações disponibilizadas
pelas matérias da Agência são importantes mas foram insuficientes
para abranger toda a dimensão do relatório.
Até a próxima semana.
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