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São Paulo - Um ato contra a violência em frente à prefeitura, no centro da capital, lembrou na noite de hoje (18) as 493 mortes ocorridas em todo o estado em maio de 2006. Para marcar o protesto, cerca de 100 jovens colocaram 493 pares de sapatos e velas acesas ao redor do prédio, representando cada um dos mortos entre os dias 12 e 20 de maio do ano passado, na primeira onda de ataques ocorrida na capital e atribuída a uma organização criminosa que atuaria nos presídios do estado.
O ato público foi organizado pela Comunidade Cidadã, uma organização não-governamental que reúne jovens de bairros como Jardim Ângela, Cidade Ademar e Grajaú, na zona Sul. De acordo com Flávio Munhoz, coordenador da ONG, o ato também teve o objetivo de protestar contra a redução da maioridade penal e de solicitar à prefeitura e ao governo do estado políticas sociais destinadas aos jovens das periferias. “A gente julga que a redução da violência se faz com políticas sociais”, afirmou, após citar como uma das reivindicações a utilização dos Centros Educacionais Unificados (CEU) para o ensino técnico profissionalizante, no período noturno.
Segundo Ariel de Castro Alves, coordenador do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), o ato público de hoje pretendeu discutir, principalmente, a questão da impunidade: “Nós queremos que todos os casos sejam identificados, apurados e acompanhados pela Polícia Civil de São Paulo. Infelizmente, até agora, não tem ocorrido o mínimo esforço para que esses casos sejam devidamente elucidados”.
Alves ressaltou que 19 dos 493 casos sob investigação já foram arquivados por falta de provas, principalmente porque as testemunhas dos crimes não prestam depoimento à polícia, temendo represálias. “As famílias estão com medo, e também as vítimas sobreviventes e as testemunhas. E essa é uma grande dificuldade até nas próprias investigações dos casos”, disse. O medo de represálias, acrescentou, também fez com que as famílias dos mortos não comparecessem ao ato público de hoje.
A única familiar presente ao protesto foi Francilene Gomes Fernandes, moradora de Itaquera, na zona Leste. O irmão dela, Paulo Alexandre Gomes, de 23 anos, está desaparecido desde o dia 16 de maio do ano passado. “Ele saiu de casa às 21 horas, dizendo que ia para a casa da namorada. Por volta das 23 horas, ele ainda foi visto com uns amigos, em uma rua próxima da nossa casa”, contou. Acusado de roubo, ele "estava sob liberdade condicional” e ela acredita que Paulo Alexandre seja uma das vítimas dos ataques: “Penso que ele foi executado. E acho importante que as pessoas saibam que o que aconteceu foi muito grave. Foram quase 500 mortes, muitas delas de jovens, e na maioria dos casos, os suspeitos tinham passagem pela polícia. Se a gente não tem a pena de morte legalmente no país, na periferia ela acontece”.
Francilene Fernandes disse ainda que "naqueles dias de ataque havia muitas viaturas policiais nas imediações da nossa casa e os policiais contaram que procuravam jovens com passagem pela polícia e tatuados, e que se os achassem iriam matá-los".
Em setembro do ano passado, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) divulgou relatório apontando que 475 dos 493 mortos (96,3% dos casos) eram do sexo masculino e apenas 18, do feminino. A maioria era jovem, com idade entre 21 e 31 anos.
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