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Brasília - O
tráfico de órgãos humanos na Amazônia é
"crença indígena". Assim classificou Mauro
Spósito, coordenador de Operações Especiais de Fronteiras da Polícia
Federal, sobre denúncias de que índios da região de
Tabatinga e Atalaia do Norte seriam vítimas de crimes para a retirada de órgãos,
tais como seqüestro seguido de morte e registro de corpos como de
indigentes.
O delegado lembrou
que a cirurgia para retirada e transplante de órgãos é
sofisticada (envolve técnica cirúrgica, equipamento, e medicamentos) e tem que
ser feita rapidamente, o que é difícil no meio da selva amazônica.
Para Mauro Spósito, seria mais plausível imaginar que os criminosos
levariam as pessoas para fazer a retirada de órgãos.
"O crime
organizado visa lucro. Ao invés de pegar o indiozinho arrancar a cabeça e ter
que tratar os órgãos dele naquele meio de mato, pega o indiozinho inteirinho e
leva embora e transplanta lá fora", disse em audiência pública
realizada nesta quinta-feira (24) na Câmara dos Deputados. Ele falou aos
parlamentares da Comissão da Amazônia, Integração
Nacional e Desenvolvimento
Regional e da Comissão de Segurança Pública e
Combate ao Crime Organizado.
Mauro Spósito
esclareceu que não existe "nenhuma evidência fática"
que o crime ocorra. Desde
agosto do ano passado, a Polícia Federal em Tabatinga tem inquérito
para investigar as denúncias de tráfico de órgãos na
região.
Segundo o coordenador
da Polícia Federal, até agora não foi possível "identificar nada
do que não se trate de um mito". Mauro Spósito especula que os índios
brasileiros importaram da etnia dos Chiapas o mito do "corta-cabeças"
para referir-se a temores de dominação e violência de
outros povos.
De acordo com Camila Carlone Gaspar, da Coordenação
do Sistema Nacional de Transplante do Ministério da Saúde, também convidada
para a audiência pública na Câmara dos Deputados,
não existe tráfico
de órgãos na Amazônia (e em nenhuma região
do Brasil).
"Acreditamos ser
praticamente impossível [a retirada de órgãos
humanos], porque não tem
essa infra-estrutura lá", ponderou a técnica. "A
capital Manaus tem
infra-estrutura, mas Tabatinga e a região da fronteira com a Colômbia e com a
Bolívia não têm", acrescentou.
Para a técnica
do Ministério da Saúde, os casos identificados no
Brasil de retirada de órgãos
são de "turismo de transplante", quando um doador vende o rim, por
exemplo, viaja para outro país onde faz a cirurgia.
Segundo Camila Gaspar,
em Israel e no Irã, o Estado compra órgãos para viabilizar
transplantes. Na África do Sul, a venda de órgão
para transplante é
legal. A técnica informa que a Organização
Mundial da Saúde quer
estabelecer regras internacionais para transplante e assim evitar o comércio.
Em outubro de 2004, a
Polícia Federal prendeu 11 pessoas envolvidas com o tráfico de
órgãos em Recife, na chamada Operação
Bisturi. Também naquele final de ano, a
CPI do Tráfico de Órgãos concluiu relatório
em que pedia o
indiciamento de nove pessoas.
Segundo a investigação
dos parlamentares, o comércio com órgãos do
corpo humano era feito
principalmente nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. Conforme o
relatório, o principal destino era a Europa e a África do Sul.
O comércio de
órgãos é crime. As pessoas que vendem um rim,
por exemplo, podem pegar até
oito anos de prisão. Os aliciadores podem pegar até 13 anos de cadeia.
Sem associar com a questão do
suposto tráfico, Camila Gaspar admitiu, no entanto, que nos estados da região
Norte há mais
dificuldade que em outras unidades da Federação para a realização
de transplantes legais.
Nem todos os estados da região têm
recursos e pessoal médico disponível para os
procedimentos de transplante. Segundo a técnica, o Pará
é o estado com maior capacidade para realizar o procedimento.
A rede pública de saúde do estado dispõe de
banco de olhos, realiza transplante de córneas, rins e
coração. O estado se prepara para fazer transplante de
fígado. No Amazonas, os
transplantes ainda estão restritos a rins e córneas. O contrato de trabalho
com os médicos que atuam nas Unidades de Terapia Intensiva não
inclui a realização de diagnóstico de morte
cerebral, o que permitiria a
captação de mais órgãos.
Em Rondônia, a
rede pública realiza transplante de córnea e o Acre já faz transplante de
rins.
Conforme a lista de
espera do Ministério da Saúde, em toda a Amazônia Legal, há
demanda por mais de 4.700 transplantes: 2.243 rins e 2.274 córneas e cinco
corações (dados de dezembro de 2006).
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