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Lisboa (Portugal) - A Europa pretende cooperar com o Brasil na
promoção da produção de biocombustíveis em países africanos. Esta é uma
das perspectivas que se abrem com a parceria estratégica entre as duas regiões, na avaliação do embaixador da União Européia no
Brasil, João Pacheco. As duas regiões também devem atuar juntas em
esferas multilaterais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente no que se refere a mudanças climáticas.
Nessa
entrevista exclusiva à Agência Brasil, ele enumera as áreas
prioritárias de cooperação para a União Européia. Define o Brasil como o país mais importante da América Latina e revela
que a parceria estratégica – cuja proposta será formalizada durante a
primeira Cúpula Brasil-UE, amanhã (4), em
Lisboa - é um desejo antigo dos europeus.
Agência Brasil: O Brasil era o único país dos chamados BRICs (mais Rússia, Índia e
China) que não tinha parceria estratégica com a União Européia. A
proposta partiu de Portugal. O que a UE pensa sobre a iniciativa e o
que espera dela? João Pacheco: A
proposta, efetivamente, vem da Comissão Européia, como qualquer
proposta no âmbito da União Européia. Mas Portugal sinalizou que teria
todo o interesse, durante a
sua presidência, de formalizar a parceria estratégica com o Brasil. Eu
diria que é uma joint-venture entre a UE e a presidência portuguesa.
Nós já vínhamos pensando neste assunto há um par de anos, mas agora
tivemos a oportunidade política para avançar. Era uma
anormalidade que dentro dos BRICs, o Brasil fosse o único que não tinha
essa parceria. O Brasil tem hoje um papel no mundo e na
região. Na região, é um fator de estabilidade, uma
referência. E no mundo, está tendo papel cada vez maior, portanto não
havia justificativa para deixar de fora o Brasil. É essa lacuna que vamos preencher agora.
ABr: O que os dois lados têm a ganhar? Pacheco: Vou
dar um exemplo: as mudanças climáticas. É um assunto urgente, de
impacto mundial. Queremos trabalhar com todos e também com o Brasil. Queremos
ver com o Brasil como podemos ter uma ação em nível mundial que empurre
os outros países para a redução da emissão de gases de efeito estufa
para resolver, dentro do possível, este grande problema. Outro exemplo
é uma parceria mais estreita a nível de energias renováveis,
biocombustíveis, todas as formas de energia. Hoje, um dos grandes
problemas do mundo é que a energia fóssil não vai durar para sempre e
temos que encontrar alternativas – biocombustíveis, hidrogênio, outras
fontes. Podemos trabalhar em conjunto. Outro exemplo: temos todo o interesse em colaborar com o Brasil em assuntos de
pesquisa e desenvolvimento na área de ciência e tecnologia. Temos um
grande programa na União Européia, com recursos muito significativos,
cerca de R$ 140 bilhões, e uma parte destes recursos é para cooperação
com outros países. Ora, entre os países de fora do G 8, o Brasil é
aquele que mais produz em termos de ciência e tecnologia. Julgo que
aqui também há interesse, para nós, de nos associarmos ao Brasil, e há
interesse do Brasil de aproveitar toda a dinâmica, todo o conhecimento
na área de ciência e tecnologia da Europa. São parcerias estratégicas.
Também podemos discutir questões de regulação, investimentos, questões
ligadas aos transportes marítimos e aéreos. Há uma agenda aberta à
nossa frente e agora temos que definir em conjunto aquilo que terá
interesse e botar para frente.
ABr: Um dos enfoques da parceria estratégica, mencionado na proposta da
Comissão Européia, é a parceria entre Brasil e UE em terceiros países.
Seria algo nos moldes do acordo fechado entre Brasil e EUA para
produção de biocombustíveis em países da América Central? Existe esse
interesse em relação à África, por exemplo? Pacheco: É
isso mesmo. É preciso ver como é que nós podemos cooperar sobretudo na
África. Um bom exemplo é a questão da promoção da produção de
biocombustíveis nesses países. Pensamos que o protocolo que a União
Européia está trabalhando com os países africanos de expressão
portuguesa cria um lugar muito bom para termos uma parceria a três com
o Brasil .
ABr: A proposta de parceria também destaca a perspectiva de coordenação de
posições nas Nações Unidas. Em quais temas a União Européia considera
importante tal coordenação com o Brasil? Pacheco: Um
assunto, claramente, é a questão das mudanças climáticas. Para nós isso
tem que ser tratado nas Nações Unidas. Nós e o Brasil, que assinamos o
protocolo de Quioto, temos uma grande preocupação, que é impedir que o
aquecimento do planeta se transforme num desastre de proporções
gigantescas que afeta sobretudo aqueles que têm menos recursos. Outro
assunto é trabalhar para a paz. O Brasil já tem uma presença muito
ativa no Haiti e queremos trabalhar
com o Brasil para contribuir com a paz no mundo. Outra área de
cooperação é na Comissão de Direitos Humanos. Nós temos os
mesmos objetivos, não há diferença nenhuma entre UE e Brasil. Por que não
coordenamos melhor nossas posições a nível das Nações Unidas em todas
as tomadas de decisão em defesa dos direitos humanos? Portanto,
pensamos que há espaço para uma cooperação mais estreita. ABr: Esperava-se
que o Brasil fosse convidado a aderir à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) na última reunião do
grupo, mas houve apenas uma sondagem. A partir da proposta de parceria
estratégica, o passo seguinte será o convite de adesão? Pacheco: Não é uma conseqüência obrigatória. A
parceria estratégica tem uma dinâmica própria. Agora, a presença do
Brasil na OCDE poderá fazer sentido porque o Brasil é um país que já
contribui bastante para a economia mundial, sobretudo na área das
commodities, mas não só. Isso tem mais a ver com a posição do Brasil no mundo do que com a parceria estratégica com a UE
porque a OCDE tem todos os países desenvolvidos e o México e a Coréia como membros. Leia também a segunda parte da entrevista. E as outras reportagens da Agência Brasil sobre a Cúpula Brasil-UE.
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