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Lisboa (Portugal) - Nesta
segunda parte da entrevista concedida à Agência
Brasil, o embaixador da União Européia no Brasil,
João Pacheco, diz que Mercosul e Europa precisam melhorar suas
ofertas para que se chegue ao acordo bilateral e que isso só
será possível “quando tivermos a tal clareza da
Rodada Doha”. Clareza que continua inexistente após mais uma
reunião em que países desenvolvidos e em
desenvolvimento não chegaram a acordo, recentemente, em
Potsdam (Alemanha). O assunto será debatido na Cúpula
Brasil-União Européia, amanhã (4), em Lisboa.
Agência
Brasil: Um dos objetivos de
Portugal à frente da União Européia é
fazer com que a Europa olhe
mais para a América Latina por intermédio do
Brasil. Essa região foi esquecida pela UE nos últimos
anos? Como seria esse novo olhar? João Pacheco:
Temos muito boas relações. De dois em dois anos, há
uma reunião de cúpula entre chefes de Estado da América
Latina, Caribe e Europa – a última foi em Viena e no próximo
ano teremos em Lima. Mas acho que o primeiro-ministro português
tem razão quando diz que uma parceria estratégica com o
Brasil vai contribuir para que haja um maior enfoque da Europa nas
relações com esta parte do mundo. O Brasil sendo o país
mais importante da América do Sul, e eu diria também da
América Latina, tudo quanto seja estreitar relações
vai se traduzir numa maior atenção para a América
Latina na Europa e nós esperamos, também, uma maior
atenção do Brasil e da América Latina à
Europa.
ABr: O
Brasil também seria um interlocutor na região para
questões comerciais? A proposta de parceria estratégica
menciona a disposição de retomada das negociações
com o Mercosul. Também cita intenção da UE de
fechar acordos comerciais com América Central e Comunidade
Andina. Pacheco: A
parceria estratégica com o Brasil para nós é
algo muito importante, mas não se dará em detrimento da
nossa relação com o Mercosul. Somos a favor da
integração regional e tudo quanto seja negociação
comercial, como redução de tarifas, deve ser feito
entre os dois blocos, Mercosul e o UE. A relação
privilegiada com o Brasil pode ajudar um melhor entendimento com o
maior parceiro do Mercosul e facilitar a conclusão desse
acordo UE-Mercosul, que seria, aliás, o maior acordo de
associação de livre-comércio do mundo.
ABr: Com
a estagnação da Rodada Doha, o acordo passa a ser
prioridade da União Européia? Pacheco: O
assunto vai ser discutido na Cúpula. Vai ser feita a avaliação
das negociações da Rodada Doha e a repercussão
que isso tem nas negociações com o Mercosul. Sempre
dissemos que precisamos de clareza na Rodada. Agora temos que
verificar qual a situação da Rodada e retirar as
conclusões em relação ao que podemos fazer com o
Mercosul. Estou esperançado que ainda seja possível
fazer mais um esforço para fechar a Rodada Doha, mas é
difícil. Temos que reconhecer que depois do fracasso da
reunião de Potsdam, se tornou mais difícil. Mas a
Rodada Doha é muito importante, pois é uma rodada
multilateral em que se pode tratar uma série de assuntos que
não podemos tratar a nível bilateral. Um exemplo são
os subsídios agrícolas. Podem ser reduzidos e
disciplinados na Rodada, mas não em uma negociação
entre dois blocos.
ABr:
Na avaliação da UE, o que falta para que as negociações
com o Mercosul avancem? Pacheco: O passo
que precisa ser dado é melhorar a ambição, as
ofertas de cada um dos lados. Estivemos perto de um acordo em 2004.
Não fechou porque do lado do Mercosul havia a avaliação
de que a oferta da União Européia em agricultura não
era suficiente. E, do nosso, houve a percepção de ter
havido um recuo na oferta industrial da parte do Mercosul. Portanto,
para fechar a negociação é preciso que ambas as
partes melhorem suas ofertas e isso só será possível
quando tivermos a tal clareza da Rodada Doha, em que vamos ter que
todos fazer concessões na área industrial e agrícola.
ABr: Então
o acordo Mercosul-UE continua condicionado aos resultados das
negociações na OMC? Pacheco: Exato.
Mas vamos agora avaliar o que podemos fazer, o que é realista
esperar da Rodada Doha.
ABr: Voltando
à proposta de parceria estratégica, o documento sugere,
em vários momentos, que o Brasil seja intermediário de
um diálogo com países do G 77, do G 20, de língua
portuguesa e latino-americanos. Um dos principais objetivos dessa
parceria é utilizar o Brasil como um interlocutor entre os
países desenvolvidos e os demais? Pacheco: Acho
que é mais do que isso. Parceria estratégica quer dizer
que é uma parceria entre países que têm uma
influência de caráter estratégico sobre sua
região e o mundo e podem contribuir para um mundo multipolar e
para a estabilidade mundial. Por isso é que não temos
parcerias estratégicas com todos os países, temos boas
relações com a maior parte dos países do mundo.
A relação entre Brasil e EU não é uma
relação só Norte-Sul, nós não
vemos o Brasil como uma porta para falarmos com o Sul porque temos
parcerias estratégicas com a China, a Índia e com a
África do Sul. Nós queremos uma parceria estratégica
pelo peso que o Brasil tem na sua região e no mundo, não
necessariamente como um interlocutor por ser um país em
desenvolvimento.
ABr: De
toda forma, essa interlocução é parte importante
da parceria na medida em que o Brasil transita bem dos dois lados... Pacheco: Claro,
a capacidade de diálogo do Brasil no G 20, no grupo de países
em desenvolvimento, será sempre muito útil.
Leia também a primeira parte da entrevista.
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