|
Brasília - Na Coluna
do Ouvidor de 15 de junho
de 2007, intitulada “Por trás dos números
há seres humanos”,
tratei da demanda da leitora Carolina
Bonando sobre a divergência
entre o preço
de mercado que
ela pagou pela
primeira dose
da vacina contra
o vírus HPV e a portaria
da Agência Nacional
de Vigilância Sanitária
(Anvisa) que estabelecia um preço máximo para o medicamento.
Naquela coluna
formulei uma série de questões, com base no depoimento
da leitora, que as matérias
da Agência não
respondiam, como: a empresa pode estabelecer
o preço que
quiser para o medicamento?
Ou será que
o processo [na
Justiça] já
tramitou e por isso
o laboratório iniciou sua comercialização
pelo preço de
R$ 590, pago pela
leitora? Com base
nas declarações dela ainda podemos perguntar: para que serviu a decisão da Anvisa sobre
o preço da vacina
se o mercado não
a respeita?
Também levantei outras questões
depois da análise
das 12 matérias produzidas pela Agência até
aquela data: é uma epidemia?
O que representa o fato
de a doença atingir 12 milhões de brasileiros
neste momento? Como
a doença chegou a esse
número de infectados? Como a sociedade pode participar desse debate, em que se
discute se o governo deve ou não disponibilizar gratuitamente
uma vacina? E as outras formas do vírus
HPV contra as quais
a vacina não
imuniza? O que está sendo feito para combatê-las?
Após a publicação da referida coluna,
foi a vez de a Associação
Brasileira de Imunizações
se manifestar alertando para
incorreções tanto
de informação na tabela
da Anvisa, quanto de interpretação da portaria
por parte
da Agência Brasil, reproduzidas também nesta Coluna.
A partir
daí, o jornalismo aprofundou a apuração sobre o assunto.
O resultado das apurações foi publicado em três matérias no dia
9 de julho. Nessas matérias,
a Anvisa, procurada pela reportagem, não só corrigiu
a informação sobre
o valor da vacina
contra o vírus
HPV, acrescido do devido imposto de circulação
de mercadorias como
também admitiu que
sobre esse
valor, pode ainda
incidir os serviços
prestados pelas clínicas particulares de imunização.
A Agência Brasil fez um
levantamento em
11 clínicas particulares
de vacinação em sete
estados do país
e divulgou o resultado da pesquisa orientando o consumidor
sobre os preços
máximos e mínimos
encontrados e recomendando que o usuário pesquise antes de comprar
o medicamento.
Outra informação importante
para o cidadão que consta nessas matérias são
os contatos para que o consumidor que se sinta lesado denunciar o fato à
Ouvidoria da Anvisa.
A política
pública, ou
melhor, a sua
ausência, também
foi debatida pelas fontes ouvidas nas matérias. Assim,
o leitor pode saber
que, segundo
a Câmara de Regulação do Mercado
de Medicamentos (CMED), não há prazo para a distribuição gratuita do medicamento
nas redes públicas de saúde, mas que o assunto
está na pauta de discussões
entre o Ministério
da Saúde, a Anvisa e a bancada feminina
do Congresso Nacional.
As parlamentares já
formularam um projeto
de lei que
obrigará a distribuição do medicamento nos
postos do Sistema
Único de Saúde
(SUS), se aprovado.
O fato é que o depoimento da
leitora, acrescido dos esclarecimentos de uma entidade da sociedade civil,
conduziu o jornalismo a buscar as informações necessárias para orientar o
cidadão em seu processo de tomada de decisões. O foco no cidadão significou
tratá-lo também como protagonista da história.
Nessa parceria,
todos saem ganhando, o debate
público enriquece, a qualidade da informação
melhora e a comunicação
completa seu ciclo, fazendo do receptor
emissor de informação
sobre sua
realidade cotidiana.
Mas a história não acabou. O
processo histórico em curso ainda tem muita coisa para ser decidida e cabe a Agência continuar aprofundando a
apuração.
O governo
vai assumir a responsabilidade
pela distribuição
do medicamento gratuitamente
nos postos
dos SUS, imunizando a população que corre o risco
de se contaminar? Como
andam as pesquisas das vacinas para combater
os outros tipos
de vírus HPV? Como
fica a questão das patentes
sobre esses
medicamentos? A imunização
continuará sendo um privilégio
daqueles que podem pagar
mil e tantos
reais por
ela? Quais
são os custos
sociais e econômicos
para as famílias,
para a sociedade e para o governo em manter milhões de brasileiros
contaminados?
Esperamos que a leitora Carolina Bonando tenha conseguido tomar a segunda dose e que
tenha recursos financeiros para tomar a terceira.
Até a próxima semana.
|