



|
Wilsom Dias/Abr
| |
Fernanda Espiridião e Rafael Henrique de Assis atuam no Pan por meio do programa Guia Cívico. Eles falam sobre a importância do projeto para inclusão social e enfrentamento do preconceito
|
Rio de Janeiro - Com
um sorriso no rosto e um bom dia a jovem Fernanda da Costa de 16 anos
distribui folhetos com informações sobre os Jogos Pan-Americanos para
quem passa pelo Calçadão de Copacabana. Ela é uma dos 125 jovens da
comunidade do Morro do Urubu que participam do programa Guia Cívico, do
Ministério da Justiça.
O
programa reúne cerca de 10 mil jovens entre 14 e 24 anos de
comunidades carentes do Rio, como Cidade de Deus, Complexo do Alemão,
Morro dos Macacos, Rocinha e Vidigal. Selecionados por líderes
comunitários, durante quatro meses eles tiveram aulas de ética,
cidadania, turismo e um idioma, inglês ou espanhol.
Os
guias ficam em pontos turísticos e em áreas próximas aos locais de
jogo, onde orientam sobre o deslocamento e acesso às competições. Conhecer
o outro lado da cidade foi uma das oportunidades que o curso trouxe,
segundo Fernanda da Costa. “As pessoas vivem num mundinho, elas não
tentam conhecer muita coisa. Agora, com esse curso do Guia Cívico,
estamos conhecendo [outro] lado do Rio de Janeiro”.
Esse outro lado é, por
exemplo, o Corcovado ou até mesmo o mar. “Tem gente que nunca foi ao
Corcovado, nunca foi ao Arpoador [praia localizada entre Copacabana e Ipanema], que só vê o mar pela televisão,
conheço muita gente no Urubu [em Piedade, subúrbio da Zona Norte], que nunca foi à praia”.
O
guia ao lado de Fernanda que também mora no Urubu, Rafael
Henrique de Assis, se apressa em explicar que não é apenas por falta de
recursos que essas pessoas moram no Rio e mesmo assim não conhecem o
mar. O que as impede, segundo ele, é o preconceito. “Algumas é mais
pelo preconceito no local onde ela vai. Ela chega na rua e as pessoas
já ficam olhando”.
O
trabalho é remunerado e durante seis meses os guias recebem uma bolsa
de R$ 175. A líder comunitária do Morro do Urubu, Sônia Regina
Gonçalves, diz que no começo os educadores deram uns “pitacos” para que
os jovens não cedessem aos apelos do consumismo. “O apelo é o mesmo
para o garoto da Zona Sul e da comunidade, mas temos que ter
parâmetros. Falamos muito de dinheiro, do que eu tenho, do que você vê,
do que você realmente precisa”, afirma.
Foi
Sônia Regina quem fez a seleção com os 283 jovens da comunidade
que se interessaram em participar do programa. Segundo ela apareceram
mais meninas do que meninos, a maioria estuda e uma minoria, cerca de
3%, trabalha. A seleção deu preferência a jovens desempregados que
tivessem estudando. O que contou para a escolha foi mesmo a vontade de
aprender, segundo Sônia Regina. “O perfil que buscamos neles é de quem
quer aprender, quer a mudança”.
Mas
e depois do Pan-Americano e Parapan-Americano, o que acontece com todos
esses jovens? Quem responde a pergunta é a coordenadora de programas
especiais da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), major
Claudete Lehmkuhl. “Estamos fazendo o que for possível para viabilizar
com as autoridades locais a possibilidade deles continuarem com esse
tipo de ação”.
A
líder Sônia Regina já faz planos para dar visibilidade ao potencial dos
jovens. “Queremos parcerias com empresas locais para tentar colocar
esses jovens no mercado de trabalho dizendo que essa é a nossa prata da
casa”.
|
|