| |
25 de Julho de 2007 - 07h51 -
Última modificação
em 9 de Agosto de 2007 - 23h46
Entrevista 1 - Para jornalista, jovens e velhos vivem conflito latente no Xingu
Pedro Biondi
Repórter da Agência Brasil
|
|
|
Pedro Biondi/ABr
| |
Aldeia Ipatse (Parque Indígena do Xingu) - O jornalista Washington Novaes participa, como convidado, da inauguração do Centro de Documentação Kuikuro
|
Brasília - O jornalista Washington
Novaes destaca a circulação de dinheiro nas comunidades
como o grande fator de perturbação no cotidiano do
Parque Indígena do Xingu e diz que existe um conflito
enunciado, ainda sem desfecho, entre as novas e as antigas
gerações.
Novaes retratou o Xingu numa série
de 11 documentários, gravada em 1984. Voltou à região
em 2005 para documentar as mudanças nos grupos de cinco povos
que havia visitado – Kuikuro, Kayapó (no caso, os Metuktire), Panará (antes
conhecidos como Kren-Akrore), Waurá e Yawalapiti.
No último fim de semana, os Kuikuro da Aldeia Ipatse e fizeram
uma festa para, entre outros motivos, celebrar o lançamento de
seu novo vídeo, com estréia na TV marcada para domingo
(29).
Em entrevista à Agência Brasil, o
jornalista aponta as razões pelas quais diz que os índios
mudaram sua maneira de encarar o mundo. Confira o primeiro trecho da entrevista. E leia também, em seguida, a segunda e terceira parte.
Agência
Brasil: O que mudou no Xingu nessas duas décadas? Washington
Novaes: Eles ainda têm aquele tempo que escorre mais
devagar, mas com muitas transformações. Praticamente
todas as casas, em várias aldeias, têm antena
parabólica, então, quando têm combustível
para o gerador, eles vêem Jornal Nacional, novela, jogos
de futebol... Os jovens gostam muito de dançar forró,
jogar futebol. Agora, talvez a transformação mais funda
seja que antigamente não havia dinheiro nas aldeias, não
tinha monetarização na cultura. E, a partir desse
desejo de ter as nossas tecnologias, de ter televisão, de ter
DVD, de ter gravador, de ter câmara de filmagem, trator, barco
com motor, foi preciso que passassem a produzir dinheiro. Seja pelas
associações de cada aldeia fazendo apresentações
de suas danças e cantos fora, seja recebendo de direitos de
imagem em filmagens... Também há, em várias
aldeias, muitos velhos recebendo aposentadoria. E um salário
mínimo é uma renda grande nesses lugares.
Outras pessoas tentam
com a produção de artesanato. Os velhos dizem que os
jovens não querem mais viver do modo tradicional, querem
comprar tudo. Querem ter roupa, tênis, óculos escuros. E
aí querem passar o tempo inteiro fazendo artesanato, e não
vão se dedicar às atividades tradicionais, como
cultivar as roças para produzir comida. Outro ângulo,
muito mais complicado, é que os jovens não querem
aprender os cantos, as danças, que estão todos
relacionados ao mundo dos espíritos.
ABr: A presença
dos espíritos era uma das origens dessa imagem que o senhor
usou, “terra mágica”, não? Novaes: Sim. No
mundo dos índios a questão do espiritual é
decisiva, esse lado é profundamente ligado ao cotidiano,
porque tudo tem um espírito que é dono. Se o culto aos
espíritos não acontece a vida social começa a
perder sentido. Além disso, os jovens não querem ser
pajés, que é um caminho cheio de sacrifícios e
de perigos, um longo processo. Os Waurá, que em 1984 tinham 13
pajés, hoje têm três; os Kuikuro tinham mais de
dez e hoje têm cinco. Os Yawalapiti só têm Sapaim,
que está com mais de 70 anos. Já há discussão
entre os Waurá sobre um curso para isso. Mas no caminho
tradicional o pajé não escolhe, é escolhido.
Pode ser por meio de uma picada de cobra, de um rodamoinho que entra
na casa, ou de uma doença, ou nascer enrolado no cordão
umbilical.
ABr: Antes da
projeção na Aldeia Ipatse, o senhor disse que os índios
alteraram para sempre sua maneira de ver o mundo. Como foi isso? Novaes: A nossa
cultura, em geral, enxerga-os de uma forma muito limitada. E não
olha as culturas indígenas pelo que elas têm de mais
importante. Por exemplo: a organização social e
política. Entre os índios que vivem ainda na força
de sua tradição, o chefe não manda em ninguém.
Ele é a pessoa que conhece a história, conhece a
cultura, as tradições, e transmite isso para seu povo
em cada situação. É o grande mediador de
conflitos, o que fala melhor, e, por isso tudo, o que mais sofre. E
não dá ordens porque não há delegação
de poder, e sem delegação de poder não pode
haver repressão, e sem isso não pode haver repressão
de um grupo por outro grupo, ou de um indivíduo por outro.
Isso aponta na direção das utopias, uma sociedade que
não precisa ter poder. E proporciona uma vivência para
nós quase inimagináveis: alguém nascer e morrer
sem receber uma ordem sequer.
ABr: Se formos
comparar... Novaes: Nossa
cultura tenta promover a democracia da maioria e raramente consegue,
enquanto eles têm no dia-a-dia a democracia do consenso. O
índio, na força de sua cultura, é um ser
absolutamente auto-suficiente. Sabe fazer tudo de que precisa para
viver – plantar, caçar, pescar, sabe fazer sua casa, fazer
seu instrumento, fazer seus objetos de adorno, sua rede, sua esteira,
sua canoa. Nasce e morre sem depender de ninguém para nada. Me
impressionou ver crianças que não apanham por nada, ver
o carinho para com elas, a liberdade e a alegria delas. E, por fim, a
informação é aberta. O que um sabe todos podem
saber. Ninguém se apropria da informação para
transformar em poder. Conviver com isso, ver que é concreto,
mudou minha visão: eu sei que outras coisas são
possíveis. É preciso que a nossa sociedade aprenda a
ver essas coisas.
ABr: E as duas
outras características – a ausência de informação
restrita e a autonomia? Mantêm-se? Novaes: Eles [os
xinguanos] estão no ápice de um conflito entre os
mais velhos e os mais novos que é já enunciado, mas não
tem ainda desfecho. Os velhos vêem com enorme temor o que está
acontecendo e sabem que a cultura não vai sobreviver se os
jovens não tomarem outro caminho. Isso ainda não se
traduz em mudanças práticas, por exemplo, na
organização social. Os chefes são instituídos
pelo caminho tradicional. Em quase todas essa culturas, são
escolhidos pela hereditariedade. E isso não é questão
de privilégio: um chefe precisa ser educado desde muito
pequeno, precisa de convívio permanente com o pai. Quando
acontece alguma perturbação nesse caminho, é
complicado. Quando os Villas-Boas [indigenistas que fizeram
contato com vários povos] se aproximaram dos Kuikuro,
nenhum Kuikuro falava português. Eles conheciam o Nahu, de pai
nahukwá e mãe kuikuro. Quando morreu o pai do Tabata e
do Afukaká, que ainda eram meninos, os Villas-Boas nomearam,
entre aspas, o Nahu chefe. Isso gerou conflitos quando Tabata e
Afukaká foram chegando à idade adulta, porque eles eram
herdeiros tradicionais. Isso seguiu até que o Nahu morreu. O
filho dele, Jakalo, que é kuikuro, é cacique hoje.
ABr: E quanto à auto-suficiência? Novaes: Logo,
logo, vai começar a ter [implicações
concretas]. Não se sabe até quando os velhos vão
aceitar a postura dos jovens. Eles vão perdendo a autonomia e
interrompem um conhecimento, uma habilidade. É o momento em
que o conflito se explicita, e vamos ver em que direção
ele se desdobra. Uma esperança deles é que a
documentação em vídeo leve os jovens a querer
saber dos mitos, das lendas, dos formatos tradicionais.
|
|
|
LEIA MAIS SOBRE OS ASSUNTOS
|
|