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Brasília - A Ouvidoria recebeu uma mensagem do leitor
Sérgio Joaquim Júnior onde ele levanta uma questão: trata-se
da maneira parcial
como a mídia
trata as tragédias
que nos
chegam aos olhos e daquelas que são subliminares.
Ele diz: “O que
aconteceu no aeroporto em São Paulo é óbvio
e não deixa
dúvidas. Mas
há algo mais
pavoroso que
passa despercebido
no que tange à mortandade
provocada pelo assalto
aos cofres públicos
cometido por nossos
políticos em
todas as instâncias; dinheiro
que deveria ser
direcionado às áreas de saúde, como também à segurança e, até, à educação,
promovendo bem-estar a toda a nação”.
Não cabe a essa Ouvidoria tratar da dificuldade
de a mídia, de maneira
geral, “abordar
essas tragédias que
não nos
chegam aos olhos e que,
portanto, não
apresentam cenas de mortandade
explícita”, como
sugere o leitor.
Para fugir do óbvio é necessário um trabalho profundo de investigação,
apuração e pesquisa. É necessário
cruzar informações,
checá-las à luz de fatos
não tão
óbvios quanto
reportar um acidente com um jato de 80 toneladas se chocando a 175 quilômetros
por hora
contra um
prédio, explodindo e fazendo 200 vítimas. É preciso
acompanhar os processos
históricos em
curso e a execução
de políticas públicas com base em critérios que meçam eficácia,
eficiência e transparência,
e contrapor tudo
isso com
as receitas, as despesas
e os investimentos ao longo de anos, conforme a responsabilidade
de cada ator
envolvido na execução, regulação e
fiscalização das políticas públicas.
Mas não é, ou não deveria ser, justamente esse o trabalho do jornalismo para que cumprisse sua
função social
de debater as grandes
questões nacionais?
No entanto, como
sugere Sérgio Joaquim, a atração pelo mórbido explícito parece ser o caminho mais comum, mais fácil, para obter
uma notícia, para
impactar magicamente a vida do cidadão,
sem maiores
explicações sobre
o contexto em
que esses
fatos se apresentam na realidade.
Explicar por
que tais
fatos aconteceram e que
fatores os determinaram é muito mais
complicado.
A Agência Brasil em
sua cobertura
sobre corrupção e desvio de dinheiro
público tem conseguido publicar uma média
de cinco matérias
por dia.
Foram 298 notícias nos
últimos 60 dias.
Mas em
que medida
essas matérias têm contribuído para melhorar a percepção do cidadão
com relação
à corrupção? Em
que medida
conseguem explicar suas
causas e suas
formas e por
que elas
ocorrem? Em que
medida
informam sobre a “mortandade provocada pelo assalto aos cofres
públicos cometido por nossos políticos em
todas as instâncias”, como diz o leitor?
Uma coisa é a corrupção,
o fato em
si – fulano
desviou tantos milhões
de tais obras.
Outra coisa é
desvendar os mecanismos
que permitiram ao fulano
desviar sem que ninguém
percebesse ou, se percebesse, fizesse vista grossa,
acobertasse o desvio.
Na cobertura do recente
escândalo da construtora Gautama, investigada pela operação Navalha, a Agência conseguiu desvendar
satisfatoriamente como funcionaram os esquemas de desvio de recursos
orçamentários, fraudes em licitações, tráfico de influência e
locupletação.
Dentre as centenas
de notícias, uma, que
atende em parte
à demanda do leitor,
me chamou a atenção
por tratar
de um acervo
com estudos
sobre as causas
e os efeitos da corrupção.
Foi publicada no dia 17 de abril deste ano.
Sob o título
“Biblioteca virtual
reúne documentos e pesquisas
sobre corrupção
no Brasil e no mundo”, é fornecido o endereço eletrônico
da Biblioteca Virtual contra
Corrupção (BVC) , mantida pela
Controladoria-Geral da União, em parceria com o Escritório das Nações Unidas
contra Drogas e Crime (UNODC). A biblioteca virtual tem o objetivo de divulgar
pesquisas e informações sobre corrupção, bem como disponibilizar dados sobre
auditoria, fiscalização e ouvidoria.
“Até hoje nós não tínhamos no Brasil um
banco de dados
que concentrasse essa quantidade
de informações sobre
estudos desenvolvidos
em nosso
país sobre
corrupção e assuntos
ligados à corrupção”, afirmou a secretária
de Prevenção de Corrupção
e Informações Estratégicas da CGU,
Virgínia Cestari, na matéria publicada em 17 de abril.
Segundo ela, a biblioteca foi lançada com um
acervo de cerca de 500 documentos entre artigos, teses e estudos científicos
relacionados à corrupção, incluindo textos de organismos internacionais. Esse
acervo deverá ser atualizado diariamente. Todo o conteúdo é de domínio público
ou obteve prévia autorização dos proprietários dos direitos autorais.
Em um dos estudos disponibilizados na biblioteca
virtual sob o
título “Corrupção: custos econômicos
e propostas de combate”,
elaborado pelo
UNODC, o cidadão encontra uma análise
detalhada das razões e das formas de corrupção e como elas
influenciam o desenvolvimento do país, inclusive quanto à eficácia
das políticas públicas relativas à educação e à saúde.
Nele, os pesquisadores trabalham com os índices
de percepção da corrupção,
ou seja, o grau
de consciência e o conhecimento
que o povo
de uma nação tem dos esquemas e dos meandros
da corrupção. É aí
que entra a mídia
fazendo o papel de dotar
o cidadão da informação
necessária para
que ele
descubra, investigue, denuncie e fiscalize os mecanismos
de corrupção, corruptores e corruptos.
O documento mapeia
esses mecanismos,
os classifica e fornece dicas importantes para que a percepção
da corrupção se propague como
uma vacina por
toda a sociedade.
Ele se constitui em
um roteiro
para os jornalistas
montarem pautas consistentes e acompanharem
o processo histórico
da corrupção, explicando os fatos
cotidianos por
meio de suas
causas estruturais, culturais e políticas.
Uma das conclusões
apontadas está diretamente relacionada aos
índices de percepção
da corrupção e sua
correlação com
os índices de desenvolvimento
comparado entre nações.
O estudo demonstra claramente
que, quanto
mais consciência
o cidadão tem a respeito
dos fatores que
levam à corrupção, menores
são os danos
causados por esses
fatores à qualidade
de vida do cidadão
e à eficácia da ação
do Estado. Ou
seja, cidadãos mais
conscientes diminuem o espaço de manobra
para os corruptos
praticarem seu esporte
predileto: desviar
recursos públicos.
Assim, tragédias subliminares poderão ser evitadas,
em grande parte, se o jornalismo cumprir seu papel de investigar, apurar,
pesquisar e informar sobre os caminhos da corrupção e suas causas, pois a
transparência é o melhor antídoto contra elas.
Cumprindo seu papel, a Agência Brasil em particular, poderá ajudar a mensurar a mortandade
decorrente dessas tragédias subliminares, mortandade que, para ser calculada,
passa necessariamente pela identificação do montante de recursos desviados e de
como eles poderiam ser aplicados salvando vidas, promovendo a segurança,
gerando emprego e renda e educando nossas crianças.
Até a próxima semana.
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