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Brasília - Na semana
passada, o leitor
José Ivo, que se identificou como contador,
pediu licença para
manifestar sua
indignação ao ser
quase obrigado
a ler o que
chamou de “profecias” de uma fonte ouvida pela Agência
Brasil na cobertura sobre o programa
do governo federal
intitulado Supersimples.
Segundo ele, quanto mais se joga um assunto na mídia,
mais se convence o público
de que o programa
“é bom, ou
é ótimo, e assim
sempre será”, mas
adverte que isso
não passa
de propaganda do governo.
Ele recomenda fazer uma pesquisa por amostragem com
ex-optantes do Simples, e avaliar
profundamente o que
acontecerá com aqueles
que aderirem ao Supersimples. Para o contador na grande maioria
das microempresas não
haverá redução de impostos, como consta nas matérias,
muito menos
nos índices
citados: 20%, 50% e 80%. Ele conclui
dizendo: “Só vamos esperar
para avaliar um pouco mais à frente o
quanto vai aumentar
a arrecadação do governo, aí ficará mais fácil medir”.
A partir
da observação do leitor, a Ouvidoria
analisou 34 matérias publicadas na Agência entre 22 de novembro
de 2006, data em
que foi aprovado
o Supersimples pelo Congresso
Nacional, até
31 de julho, data
limite para as empresas aderirem ao programa,
depois prorrogada para
15 de agosto.
O enfoque da cobertura procura
destacar as “vantagens” do programa – palavra
utilizada 14 vezes nas matérias analisadas –, em
termos de “facilitar
a abertura e o dia-a-dia
das empresas, ampliar
o mercado, facilitar
o acesso ao crédito,
a tecnologias e a se associarem para comprar e vender
em conjunto”.
No entanto as matérias não explicam como,
ou por meio de que
medidas concretas, o governo espera proporcionar essas “vantagens”.
Para termos uma
comparação com outro
segmento de empresas,
podemos relacionar as medidas anunciadas para as micro e pequenas a
uma medida hipotética
do governo, por
exemplo, isentando ou
dobrando o imposto de renda da indústria
automobilística. Sem dúvida, uma medida
dessas causaria um rebuliço
no mercado de automóveis
e a Agência Brasil provavelmente correria para ouvir as montadoras sobre o impacto das medidas no preço
final dos veículos,
no nível de emprego
da indústria ou
nos índices
de crescimento da economia.
Talvez o impacto do programa
do governo seja o equivalente a isso para quem mantém seu pequeno negócio, só
que na cobertura da Agência sobre o
Supersimples, nenhum pequeno empresário foi ouvido para saber como ficará sua
empresa ou o preço dos produtos ou serviços que fornece após a implantação do novo
sistema tributário.
Apesar do assunto ser exatamente esse – o sistema
tributário brasileiro,
as matérias não
o discutem, não o enfocam. Ele só foi
lembrado quando a reportagem entrevistou,
no dia 29 de julho,
a diretora de estudos técnicos do Sindicato
Nacional dos Auditores
Fiscais da Receita
Federal (Unafisco), Clair Hickmann. Segundo ela, “o
sistema é paliativo
e pode diminuir um
pouco a carga tributária,
mas não
soluciona todos os problemas
do sistema tributário
brasileiro”. E a discussão,
na cobertura da Agência Brasil, termina aí.
Muito mais do resumir a cobrança de
oito impostos
em um
só, essa medida
muda a base
de arrecadação e tributação do governo e atinge cada
tipo de empresa
de maneira diferente.
Para chegar a isso são necessários inúmeros cálculos
que podem levar
a distorções, injustiças
ou até
ao aperfeiçoamento da legislação tributária. As informações
sobre como
o governo chegou a isso
são vitais
para que os
contribuintes tirem suas próprias conclusões, mas
elas não
estão contempladas na cobertura da Agência.
Um bom momento para a Agência discutir isso seria quando o secretário
executivo do Comitê
Gestor do Simples Nacional,
Silas Santiago, disse que 913.151 empresas, o equivalente a 87% das solicitações de opção, têm pendências
com a Receita
Federal. Faltou à reportagem perguntar ao secretário
por que
um percentual
tão elevado
de empresas está inadimplente.
Será que elas
são más pagadoras do fisco porque
querem ou porque
o sistema tributário
tem problemas? Em
vez disso as matérias
da Agência
destacam a “oportunidade excepcional”
de as empresas devedoras solucionarem suas pendências
parcelando seus débitos
em até
120 vezes.
Quanto aos números
de empresas atingidas pela medida, as
matérias são
contraditórias. A Agência
publicou em 25 de junho
uma matéria na qual
o presidente da Confederação
Nacional dos Municípios
(CNM), Paulo Ziulkoski, afirma que até aquela data
apenas 4,5 milhões
dessas empresas haviam optado pelo novo sistema
de arrecadação dentre as 13,2 milhões cadastradas pela
Receita Federal
do Brasil. Já a matéria
publicada em 31 de julho
dizia que o governo
comemorava que até
aquela data, 2,8 milhões
de empresas haviam aderido ao Simples Nacional.
O número, segundo
o secretário Silas Santiago, foi uma
"surpresa agradável
para o governo".
Outra matéria,
publicada no dia 2 de julho, informava que,
segundo a Receita
Federal, o novo
regime vai resultar em menos burocracia e reduzir a carga tributária
para 2,5 milhões
de micro e pequenas
empresas.
Quanto à possível
redução dos impostos, as matérias reproduzem diversas vezes
que, de acordo
com o Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a maioria
das micro e pequenas
empresas pagará menos
impostos e que
a redução média será de 20% para
quem já
opta pelo Simples
Federal, podendo chegar
a 50% dependendo do estado em que a empresa estiver instalada e, para
aquelas que agora
poderão optar pelo
Supersimples, a redução poderá ser de até 80%. Tudo isso sem apresentar um único cálculo ou estudos de caso que pudessem
levar a essa conclusão.
Provavelmente é isso que o leitor
chamou de “profecias”.
Quando uma matéria ou cobertura
contêm opiniões pessoais
das fontes, que
exprimem julgamentos de valor ou opiniões sem embasamento em argumentos objetivos
e consistentes, portanto sem favorecer o entendimento do porquê
se chegou a determinado julgamento
ou opinião,
elas podem ser
consideradas tendenciosas. Essas matérias
podem ter a intenção
de induzir a opinião
do público a uma determinada
conclusão. O Manual de Jornalismo da
Radiobrás, na página 56, diz que ser honesto com o público é reconhecer que ele tem direito à informação
mais completa
possível, sem
ocultar nenhum
interesse e sem
buscar o convencimento
do cidadão, dotando-lhe das informações necessárias para
que ele
forme livremente sua
opinião.
Outra característica que pode tornar uma matéria ou cobertura tendenciosa
é a inclusão de adjetivos
e advérbios dispensáveis,
que nada
acrescentam à informação.
No caso
da cobertura do Supersimples, esse procedimento chegou a atingir
os títulos das matérias.
Na matéria “Mais de 1,3 milhão de
empresas já fazem parte do Simples Nacional”, publicada em 3 de julho, o
emprego do advérbio “já” e da expressão “mais de” deixa isso claro. Por que o
título não falou das empresas que “já” rejeitaram, que “ainda” não decidiram ou
que seriam “menos de 1,4 milhão”?
Analisando a cobertura a
partir do enfoque, das abordagens e escolha das fontes, a Agência Brasil publicou 24 matérias com
opiniões favoráveis à medida do governo, cinco com opiniões isentas e uma com
opinião contrária, além de quatro notas que não continham opiniões.
Somente ao meio-dia
de 31 de julho, data
em que
vencia o prazo inicial
de adesão (ou
rejeição?) ao Supersimples, a Agência publicou uma matéria
chamada “Entenda as mudanças para os pequenos empresários com
o Supersimples”. Mas, ao contrário do que
diz o título, o texto
não facilita o entendimento, apenas relata, em um quadro comparativo, o que muda no regime tributário das
micro e pequenas
empresas, na versão
do governo. Pressupõe-se que um
“entenda” deva ter uma função didática e como tal deveria conter
exemplos práticos
e explicações que pudessem ajudar a compreender as mudanças
e a tomar a difícil
decisão de aderir
ou rejeitar o
programa.
Segundo a matéria publicada
em 31 de julho
às 17h20, “Adesão ao Simples Nacional
surpreende governo, diz secretário do Comitê
Gestor do Sistema”, até
esse dia,
2,8 milhões de empresas
haviam aderido ao Simples Nacional. Talvez,
muitas delas, sem informações suficientes para entender por
que o fizeram.
Até a próxima semana.
Na coluna da semana passada cometi uma imprecisão.
O leitor
Gildenor Araújo escreveu para a Ouvidoria protestando. Segundo ele “como
Ouvidor o Senhor deveria em seus textos ser o mais próximo da verdade dos fatos
comentados. No texto sobre tragédias sublimares o Senhor passou duas
informações não corretas: a 1ª foi a tonelagem do avião da TAM que todos
sabemos pesava 62,5T na hora do acidente; e a 2ª quanto ao número de mortos no
mesmo avião que não foi 200 e sim 199 (uma vida vale muito).”
O leitor tem razão, fica aqui nosso reparo e o pedido
de desculpas, afinal a precisão é um dos preceitos fundamentais que devemos
preservar no jornalismo.
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