A diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Denise Abreu defendeu hoje (16) a transferência de setores de carga dos aeroportos Guarulhos e Congonhas para o de Viracopos, em Campinas.

"Pessoalmente, sou favorável à manutenção da carga no estado de São Paulo. Acho que tecnicamente é extremamente danoso para todo o mercado que se transfira carga de São Paulo para outro estado".

Ela prestou depoimento hoje (16) à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Apagão Aéreo no Senado Federal. Na reunião também foi ouvido o ex-presidente da Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aeroportuária (Infraero), brigadeiro José Carlos Pereira.

Denise foi convocada pela CPI para esclarecer a denúncia feita pelo brigadeiro de que ela pressionou a Anac para liberar a transferência do setor de cargas de Congonhas e Viracopos para o aeroporto de Ribeirão Preto, também em São Paulo.

"Dentro do estado de São Paulo existem outras alternativas que não Ribeirão Preto", afirmou, acrescentando que não é contra a instalação de um terminal de cargas em Guarulhos, embora considere Viracopos a melhor alternativa.

"Não sou contra Ribeirão Preto, só entendo que, realizadas as obras em Viracopos (eu sei que existe um projeto), não há necessidade de se transferir parcela da carga para Ribeirão".

Segundo a diretora, ainda que o aeroporto de Ribeirão Preto também passasse por obras, a parcela de cargas transferida para o terminal seria "ínfima".

"Queria deixar bem claro que essa parcela da carga seria ínfima em Ribeirão Preto. Ribeirão Preto, ainda que um dia tenha todo esse tamanho de pista, não tem a estrutura que existe no aeroporto de Viracopos, que tem a sua vocação para carga".

Sentado ao lado de Denise, o ex-presidente da Infraero disse que o aeroporto de Ribeirão Preto não tem "a menor condição de receber carga".

"O aeroporto está dentro do anel viário da cidade, não consigo acreditar que a população de Ribeirão Preto vai permitir que, dentro do anel viário da cidade, venha ter um Congonhas, porque aquilo vai ser Congonhas sem a Washington Luís [nome da avenida em que fica o aeroporto]".

O relator da CPI, senador Demóstenes Torres (DEM-GO), pediu que fosse reproduzida a gravação de uma entrevista na qual Denise afirmava que o plano diretor das obras a serem feitas em Ribeirão Preto - elaborado pelo Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo (Daesp) - havia sido "aprovado rapidamente".

Antes de o áudio ser apresentado, no entanto, a diretora havia dito que o plano não havia sido aprovado, apenas dois itens dele.

Para comprovar a versão apresentada hoje, Denise apresentou a ata de reunião da Anac realizada no dia 5 de junho de 2007. Mas não esclareceu as razões de sua contradição.

Os senadores também pediram informações sobre a internacionalização do aeroporto de Ribeirão Preto. De acordo com a diretora, foi uma decisão tomada pelo Comando da Aeronáutica, por meio de portaria do dia 30 de dezembro de 2002.

Segundo ela, a medida foi um "ato burocrático", que autorizou o Daesp a fazer o plano diretor do aeroporto. Pereira, por sua vezes, disse que o aeroporto é do governo estadual, mas o setor de cargas foi privatizado e está sob administração do empresário Carlos Ernesto Campos.

O brigadeiro disse, ainda, que o aeroporto nunca recebeu um vôo internacional.

Para a senadora Ideli Salvatti (PT-SC), o processo de internacionalização foi "esdrúxulo", por se tratar de um aeroporto estadual. Ela disse não ter informações de que haja casos semelhantes no país e defendeu a "nulidade imediata" da medida.

"Por não ter, não quer dizer que não cabe [internacionalização]", retrucou o senador Sérgio Guerra (PSDB-PE). O relator da CPI, Demóstenes Torres (DEM-GO), disse que o assunto é "gravíssimo" e merece ser investigado. "Mas sem que haja politização".