



|
Brasília - A política habitacional
do governo divide-se em mais de uma dezena de programas
que contemplam desde
saneamento básico
até urbanização de favelas,
passando inclusive pelos
programas de aquisição
de moradia. Estes
últimos, por
sua vez,
subdividem-se em inúmeros outros, de acordo
com a origem
dos recursos e o público
a que se destinam. Geralmente,
a cobertura da Agência Brasil sobre
o assunto não
consegue separar uma coisa
da outra, generalizando o anúncio de ações
e medidas do governo
sem dizer efetivamente a quem
se destinam e como o cidadão deve fazer para ter acesso a elas.
Indignado, o leitor William Eduardo escreveu para
a Ouvidoria protestando contra o que ele chamou
de “mentira pura”
sobre as notícias
que tratam dos recursos
de financiamento da casa própria para a população de baixa
renda. Ele
sugere que seja comparado o valor da mensalidade
de um financiamento ao valor do aluguel na
apuração que a imprensa
deveria fazer para saber se grande parte da população
tem condições de pagar
uma prestação do dito
financiamento habitacional para famílias de baixa renda.
Como já
é de praxe nesse tipo
de reclamação, a Ouvidoria fez uma análise
das 47 matérias publicadas na Agência Brasil entre
26 de março e 6 de agosto
sobre o assunto.
A mais recente,
especificamente sobre esse tipo de
financiamento, é datada de 11 de julho.
Apesar de a matéria
anunciar: “Famílias de baixa renda terão acesso
a mais R$ 600 milhões
do FGTS para compra
da casa própria”,
não há nela uma só
linha que
diga como as famílias
terão acesso ao dinheiro.
Mais parecido com
um relatório
técnico, o texto
diz que os recursos
“serão destinados à concessão de descontos
nos financiamentos de habitação popular”.
Descontos em
quê? Se a matéria
não fala
como as famílias
terão acesso ao financiamento como ela pode falar em descontos?
Ao dizer:
“O objetivo, segundo
o secretário executivo
do Conselho, Paulo Furtado, é igualar a velocidade de gasto dos chamados recursos
não-onerosos – que não
são devolvidos ao governo
– à liberação dos recursos
para empréstimos,
que serão
reintegrados ao Fundo com o pagamento das parcelas”, a Agência esquece que do outro lado da tela do
computador tem um
leitor que
eventualmente pode estar
precisando dos “recursos onerosos” para financiar sua casa própria.
O trecho:
“As medidas vão
melhorar a execução
orçamentária, para
que esses
R$ 600 milhões sejam suficientes até
o final do ano,
sem precisar
de mais nenhuma suplementação”, pode ser uma informação
interessante para um
auditor do Tribunal
de Contas da União
(TCU), mas não
para o cidadão.
A matéria “Famílias
com renda
de até cinco
mínimos são
maioria nos
financiamentos de imóveis da Caixa”, publicada em
24 de maio, dá a impressão
de que as famílias
de baixa renda
estão finalmente sendo atendidas pelos financiamentos da Caixa.
Isso é apenas
uma parte da verdade,
pois a matéria
não fala
que dos 96,3% que
ganham até cinco
salários mínimos,
beneficiados pelos financiamentos da Caixa Econômica Federal, 90,3% ganham até
três salários
mínimos. Portanto,
a “maioria” a que
se refere o título da matéria são apenas aqueles que ganham entre
três e cinco
salários, ou
seja, correspondem a menos de 6% do
déficit habitacional e constituem uma “minoria” frente
aos outros 90,3%, que
ganham até três
salários, a verdadeira “maioria”, que, provavelmente,
não tem salário
para pagar as prestações.
No dia 30 de março,
em minha
segunda Coluna
do Ouvidor, “Dá para
comprar casa
própria?”, tratei desse assunto. Dois dias depois, a Agência Brasil conseguiu apurar
com o Ministério
das Cidades e com
a Caixa Econômica
Federal que
havia oito linhas
de financiamento para a casa
própria, que
poderiam, potencialmente, contemplar
pessoas de baixa
renda. A matéria
intitulada “Famílias com renda
de até cinco
salários têm oito
caminhos para
melhorar habitação”,
publicada em 2 de abril,
foi um avanço
em relação
ao que se havia publicado até então.
Mas, apesar do avanço, nesses últimos cinco
meses a cobertura voltou a tratar do assunto prioritariamente
do ponto de vista
do governo. Dentre
outras 47 matérias publicadas no período, apenas 12
tratam da questão dos financiamentos para
média e baixa
renda.
Apesar de nenhuma conseguir desvendar os caminhos que o dinheiro percorre entre
Brasília e o cidadão, passando pelos inúmeros tipos
de intermediários, como:
agentes financeiros, construtoras, cooperativas, estados
e municípios, elas
conseguiram dar pistas
de onde se localizam os principais entraves
para que as políticas públicas se realizem na prática.
Uma
delas, “Municípios já
podem apresentar projetos
para ter acesso aos recursos
do PAC para moradia”,
publicada no mesmo dia
da Coluna do Ouvidor,
30 de março, dizia: “Apesar de os recursos
já estarem à disposição
nos cofres
do governo para
programas de moradia,
muitas prefeituras de pequeno e médio
porte enfrentam problemas
na hora de elaborar
o projeto: não
contam com recursos,
nem pessoal
capacitado para a formulação
das peças técnicas”.
Enquanto não
conseguir desvendar os mistérios da política
habitacional do governo,
a Agência Brasil provavelmente continuará
recebendo demandas do público para que o faça. Cidadãos
indignados como William Eduardo
continuarão a protestar com
afirmações como: “O que
vejo hoje são
veículos de informação
prestando serviço de desinformação”, ou
com declarações
como: “Ainda
acredito na liberdade de imprensa, mas liberdade de imprensa
não para mostrar o que quer, mas sim o que deve”.
E as reclamações
do leitor já produziram algum resultado. A Agência
Brasil se comprometeu a direcionar o foco de sua cobertura sobre o acesso
das populações de baixa renda às políticas habitacionais do governo.
Até a próxima semana.
|
|