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Brasília - O Ministério da
Justiça publicou hoje no Diário Oficial a portaria
demarcatória de 18 mil hectares de terras dos índios
tupinikim e guarani do município de Aracruz (ES). A luta pela
posse dessas terras remonta ao fim dos anos 70, pouco mais de uma década
depois da chegada da empresa multinacional Aracruz Celulose à
região.
Em 1983, depois de
vários conflitos com a empresa, os índios passaram a
ocupar 4,5 mil hectares, reconhecidos por decreto presidencial. Em
1995, um relatório antropológico encomendado pela
Fundação Nacional do Índio declarou que as
terras tradicionais indígenas corresponderiam a 18 mil
hectares.
Esse documento é assinado por antropólogos
com reconhecimento da Associação Brasileira de
Antropologia (leia texto sobre os Tupinikim assinado pelo coordenador do grupo que fez o relatório). Já as contestações da Aracruz não
são assumidas por nenhum profissional com reconhecimento
público. A empresa se nega a revelar os autores do estudo,
apenas apresenta documentos que comprovariam suas posições
em seu site na internet.
O embate retórico
entre a empresa e os índios tem repercussões jurídicas,
como explica o indigenista Fábio Vilas, que acompanha o
conflito desde 1978. Por isso, desde 1983, explica ele, a empresa
afirma que está progressivamente “cedendo” terras para os
índios, os quais, por sua vez, negam que se trate de uma
concessão, já que as terras seriam suas por direito,
desde sempre. “O que eles querem é a reparação
do erro de 1998”, diz Vilas, que hoje trabalha junto aos índios
pela ONG Fase (Federação de Órgãos para
Assistência Social e Educacional).
Em 1997, o então
ministro da Justiça, Íris Resende, reconheceu a
veracidade do relatório dos 18 mil hectares, porém
autorizou a demarcação de apenas 2,5 mil hectares. Os
índios de Aracruz protestaram contra a decisão e, logo
em seguida, foi firmado um acordo segundo o qual, em troca de
continuar ocupando os 11 mil hectares restantes, a Aracruz apoiaria
as comunidades indígenas com repasses em dinheiro destinados a
projetos de desenvolvimento local. Segundo Vilas, o acordo foi
realizado sob pressão, o que é negado pela empresa.
Entre 1998 e 2004, a
empresa repassou pouco mais de R$ 1 milhão anuais às
associações indígenas. Declarando-se
insatisfeitos com os resultados do acordo, segundo Vilas, devido às
imposições da empresa de que os repasses fossem feitos
unicamente a associações que reunissem todos os índios
(e não para projetos de grupos menores dentro das sete
aldeias), os índios romperam com a Aracruz em 2004 e, desde
então, passaram a realizar protestos contra a empresa,
ocupando a fábrica, o porto e plantações de
eucalipto estabelecidas nas áreas reivindicadas. Os índios ainda fizeram campanha contra a empresa na Europa, junto a
compradores da celulose da Aracruz.
Segundo Vilas, os índios se
apoiaram também em decisão do Ministério Público
Federal, que considerou inconstitucional a decisão de Íris
Resende: se uma terra é reconhecida como indígena,
torna-se inegociável, portanto o acordo com a Aracruz seria
irregular.
No início deste
ano, novos relatórios antropológicos, realizados em
2006, tinham sido devolvidos pelo então ministro da Justiça,
Marcio Thomaz Bastos, à Funai, para que a fundação buscasse um acordo entre as partes. Em julho, a fundação, agora sob a direção de Marcio Meira, devolveu o documento ao ministério sem alterações. Hoje, a portaria demarcatória
foi publicada no Diário Oficial da União. Agora, a terra deverá receber marcos físicos e, posteriormente, será homologada pelo presidente da República.
A Aracruz também enfrenta conflitos com comunidades quilombolas do norte do Espírito Santo.
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