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Brasília - Os veículos de
comunicação são
espaços públicos
em que o jornalismo
trabalha para
a construção coletiva
da verdade com
base nas diferentes
visões de mundo.Se o jornalismo conseguir
refletir as diversas verdades, dos diversos grupos sociais ou indivíduos
envolvidos em uma questão, estará dando oportunidade para que a diversidade de
opiniões e de interesses apareça e o debate, democraticamente, aconteça.
A pergunta
do título desta coluna
foi formulada pelo leitor
Paulo R. Back, de Guaratuba, no Paraná. Ele é agricultor familiar
e leu a matéria “Portarias
garantem acesso a financiamentos do
Pronaf”, publicada em 6 de agosto pela Agência Brasil. No dia
15 de agosto ele
foi ao Banco do Brasil de sua cidade em busca dos recursos para o plantio da safra. Só que, lá chegando, recebeu a informação
de que o banco ainda
não tinha
os recursos liberados pelo
governo para esse tipo de empréstimo.
Indignado, ele escreveu à Ouvidoria perguntando por que a Agência Brasil divulga uma coisa
em uma matéria
e quando ele
vai ao banco a realidade
é totalmente diferente
do que estava escrito.
Para responder à pergunta do leitor,
precisamos recuperar os fatos
veiculados pela Agência desde o lançamento
do Plano Safra
da Agricultura Familiar
2007/2008.
Na matéria
“Plano Safra
da Agricultura Familiar
tem R$ 2 bilhões a mais
de orçamento”, a reportagem dizia: “Em uma cerimônia
lotada, em que
agricultores ficaram em pé no salão do Palácio do Planalto, ocorreu hoje
(27 de junho) o lançamento...”.
Durante a cerimônia,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou o plano
como uma importante
conquista dos trabalhadores.
“É uma conquista exuberante
pela forma que vocês
organizaram, pela forma
que vocês
conquistaram, não com
subordinação, mas
com autonomia.”
A matéria
informava ainda: “O governo
vai disponibilizar R$ 12 bilhões, orçamento
que ultrapassa em
R$ 2 bilhões o anterior.
O plano prevê redução em taxas de juros, ampliação
dos limites de financiamento e dos limites de renda
para enquadramento de agricultores
familiares no Programa
Nacional de Fortalecimento
da Agricultura Familiar
(Pronaf)”.
No dia
seguinte ao lançamento
do plano, os veículos
da Radiobrás entrevistaram o ministro do Desenvolvimento
Agrário, Guilherme Cassel, que garantiu a disponibilidade
do montante. “O dinheiro
está disponível a partir
de segunda-feira em
toda a rede
bancária pública,
BNB [Banco do Nordeste],
Basa [Banco da Amazônia], Banco do Brasil, nas cooperativas
e nos sistemas
cooperativos que trabalham conosco.”
Outra matéria, no mesmo dia 28 de
junho, dava detalhes
da entrevista do ministro,
na qual ele
afirmou: “Não é difícil ter acesso aos recursos do Pronaf. O agricultor
pode chegar ao Banco
do Brasil, Basa ou BNB, que lá têm
todas as informações. Ou nos seus sindicatos,
suas federações
e suas cooperativas.
Nós distribuímos informações
para todos esses setores e
é fácil. O Pronaf é um
sistema de financiamento absolutamente desburocratizado, de fácil acesso”.
Começava assim a construção de uma verdade na versão jornalística da Agência Brasil, com
base no ponto
de vista das autoridades.
Outro ponto de vista chegaria a esta Ouvidoria uma semana depois. Em 6 de julho o
pescador Ovídio Marinho
escreveu dizendo que, depois de tomar conhecimento do lançamento
do plano pelos
veículos da Radiobrás, tinha ido a uma agência
do Banco do Nordeste
na Paraíba atrás de um
financiamento do Pronaf-pesca de R$ 8 mil
com a finalidade
de adquirir covos
(gaiolas) para
pescar lagosta.
No banco, nada
de recursos, informou o gerente.
Esse pescador continuou a
cada semana enviando novas mensagens contando sua peregrinação e como ia sendo
encaminhado de um órgão público para outro, cada um com uma alegação diferente
para que o financiamento não se concretizasse.
A Ouvidoria repassou essas mensagens para a Agência, que aprofundou a apuração enquanto
noticiava outra peregrinação
– a do ministro do Desenvolvimento
Agrário, percorrendo os Estados do sul, lançando o Plano Safra.
Em matéria
publicada em 19 de julho,
a Agência
tratava das primeiras complicações na liberação
dos recursos do Pronaf – a falta de consenso
entre governo
e agricultores sobre
a renegociação das dívidas contraídas nos anos anteriores, que
poderiam chegar a R$ 13 bilhões.
Nos dias
seguintes a Agência noticiava as
primeiras manifestações dos movimentos sociais
protestando contra a demora e as dificuldades
nessas renegociações.
A apuração motivada pelas mensagens do pescador
levou a Agência
a publicar quatro
matérias entre
4 e 6 de agosto dando conta
de dificuldades adicionais
na liberação dos recursos,
com depoimentos
de outros pescadores
e de entidades sindicais ligadas aos agricultores
familiares de outras regiões do país.
Assim, mais
pontos de vista
foram se agregando à construção coletiva
da verdade.
A reportagem ouviu o presidente do Sindicato
dos Trabalhadores Rurais
de Padre Bernardo (GO), a 120 quilômetros
de Brasília, Antônio Odimar Rodrigues, que
afirmou haver problemas
semelhantes na região
na busca de financiamento para
as safras. “Muita
gente aqui
tem ido ao Banco
do Brasil e eles mandam voltar
nas próximas semanas.”
Em uma dessas matérias,
“Demora na definição
de recursos atrasa
concessão de financiamentos do Pronaf”,
a Agência Brasil informou: “A demora nas negociações entre
o Ministério do Desenvolvimento
Agrário – que
coordena o Pronaf – e a equipe econômica
atrasou a concessão de novos financiamentos: somente
na última quinta-feira
(2) foi assinada a portaria de equalização para o Plano Safra de Agricultura Familiar
2007/2008, instrumento que garante os recursos
para que os bancos ofereçam juros
mais baixos
a quem toma
empréstimos pelo
programa.”
Nessa matéria
o próprio diretor
do Departamento de Financiamento e Proteção à Produção Rural do Ministério
do Desenvolvimento Agrário,
João Luiz Guadagnin, reconhece que o atraso na edição
das portarias de equalização
provocou a demora na concessão dos empréstimos
pelos agentes
financeiros. “Entre o anúncio da liberação
dos recursos pelo
governo e a chegada
desse dinheiro aos bancos
há um certo
intervalo, mas
neste ano o tempo
foi mais longo
por causa das
negociações em torno
das portarias.”
Mas, pela mensagem do agricultor
Paulo R. Back, decorridos dois meses do lançamento do plano,
parece que ainda
há outros entraves
para que o dinheiro chegue às agências
bancárias e semeie a safra de 2007.
A Agência Brasil se comprometeu a continuar
apurando os fatos para
que o que
for escrito corresponda à realidade.
Até a próxima semana.
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