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Brasília - A empresa Aracruz
Celulose não deve recorrer na Justiça contra a decisão
do governo de determinar a demarcação
de 18 mil hectares em Aracruz (ES) como terra dos índios
tupinikim e guarani, ao menos, “em princípio”. A
informação foi dada hoje pela assessoria de imprensa da
empresa.
Tal decisão pode
pôr fim a um conflito que se arrastava desde os anos 70 entre
os índios e a empresa. Há quase 40 anos, os 11 mil
hectares adicionados aos 7 mil ocupados pelos índios são
quase inteiramente cobertos por plantações de eucalipto
da Aracruz.
A empresa divulgou
hoje uma nota à imprensa em que afirma estar “em
entendimentos” com o Ministério da Justiça e a
Fundação Nacional do Índio para buscar uma
“solução definitiva” para o conflito. Segundo a
nota, dirigentes da empresa mantiveram reunião, nesse sentido,
com o ministro da Justiça, Tarso Genro, na última
terça-feira (28), por iniciativa dele.
A informação
é confirmada pela assessoria do ministério. Por
sugestão do próprio ministro, deverá ser
celebrado, com intermediação do Ministério
Público Federal do Espírito Santo, um acordo
(tecnicamente, um Termo de Ajustamento de Conduta - TAC) que definirá
de que forma será feita a demarcação da terra.
Entre as questões a serem definidas estão os prazos para que a empresa retire da região seus
equipamentos e mesmo o tratamento que será dado ao eucalipto
hoje plantado na área, que a Aracruz pede para ser considerado
uma “benfeitoria”, por seu valor de mercado – isso quer dizer
que ela poderá retirar as árvores ou ser indenizada por
elas.
A assessoria informou
ainda que a reunião de terça-feira abordou a
preocupação da empresa com o fim da “instabilidade
jurídica” na região, que afeta sua imagem no
exterior. Na visão da Aracruz, reiterada na nota de hoje, os
índios estiveram, ao longo dos últimos 30 anos, pedindo
progressivamente uma expansão de suas terras devido a fatores
como o crescimento populacional. A empresa alega ter “doado” 1,7
mil hectares para os índios em 1981, enfrentando, nos anos
seguintes, reivindicações crescentes que poriam em
ameaça a “segurança jurídica” necessária
a seus investimentos.
Essa versão é
contestada pelos líderes indígenas e por antropólogos
e indigenistas que acompanham a questão. Para eles, o acordo
inicial, celebrado durante a ditadura militar, foi imposto aos índios
e, após a redemocratização do país, eles
apenas repetiram, ao longo dos anos, uma mesma reivindicação
que não havia sido atendida até agora, apesar de haver
recebido a chancela de um relatório técnico nos anos
90.
“A nossa luta não
é pra ampliar. Nós estamos querendo fazer o que o
ministro [Íris Rezende, ministro da Justiça do governo
Fernando Henrique], em 1998, não fez, que é demarcar a
terra no total. Então, essas coisas que a Aracruz fala que são
recorrentes, não procede. Depois que for legitimado esses 18
mil hectares, está completa a retomada do nosso território,
isso não vai acontecer mais”, disse, em entrevista à
Agência Brasil, na semana passada, o coordenador do
conselho de caciques tupinikim e guarani, Vilson de Oliveira, o
Jaguaretê.
O conselho reúne os líderes das sete aldeias que se espalham pelas áreas de Caieiras Velhas e Pau-Brasil (agora unificadas com a demarcação, chegando a cerca de 14,2 mil hectares), além de Combóios (que é uma área indígena menor, agora com 3,8 mil hectares, separada das demais aldeias pela cidade de Aracruz e a fábrica de celulose). Segundo Jaguaretê, o estudo que foi feito sobre as terras
aponta que elas serão suficientes para que várias gerações possam
sobreviver ali. “Então, a gente não
pretende mais mexer com isso.” A Aracruz Celulose é uma megaempresa multinacional, líder mundial na produção de celulose branqueada de eucalipto, segundo os dados disponíveis em seu site na internet. O valor de mercado da empresa, em 2006, chegou a US$ 6,3 bilhões. Para alimentar suas fábricas, a companhia mantém 280 mil hectares de plantação de eucalipto, boa parte disso no Espírito Santo. Quilombolas do norte do estado também reivindicam parte dessas áreas.
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