|
Brasília - O envio de tropas brasileiras ao Haiti não
constitui uma missão humanitária, mas sim uma força
de ocupação. A avaliação é do
conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Aderson Bussinger
Carvalho, que elaborou um relatório sobre a situação
do país.
"O Haiti não precisa de força
de ocupação militar. O que o Haiti precisa é de
saúde, educação", disse o conselheiro em
entrevista hoje (4) à Agência Brasil. Carvalho integrou, em nome da OAB, uma missão
organizada pela Coordenação Nacional de Lutas
(Conlutas) e que visitou o Haiti no final de junho.
A comissão reuniu representantes de
sindicatos e de organizações da sociedade civil que
defendem a saída das tropas latino-americanas que compõem
a força de paz das Nações Unidas no Haiti.
Segundo o advogado, o relatório elaborado por ele sobre o
assunto será entregue na quinta-feira (6) ao Conselho Federal
da OAB.
"Nesse relatório eu trago uma
conclusão de que não se trata de uma missão
humanitária. O que eu vi foi uma missão tipicamente de
intervenção militar. Eu classifico a situação
do Haiti como uma ocupação militar e, portanto, é
muito diferente do que se divulga aqui de que seria uma missão
de caráter social", disse Carvalho. "Eu não
vi se construir nenhuma escola, nenhum hospital, não vi nada
disso. Eu vi 85% do contingente da missão, do orçamento
dela, dedicado a atividades militares", completou.
O advogado afirmou que, no documento, trará
denúncias de abusos de direitos humanos cometidos por tropas
militares que compõem a missão da Organização
das Nações Unidas (ONU). "Recebi denúncias
de agressões praticadas em conjunto pela polícia
nacional do Haiti com a retaguarda das forças de ocupação
da ONU, sobretudo do Exército brasileiro", afirmou.
Na avaliação do conselheiro, o
Brasil está no país por interesse em ocupar o Conselho
de Segurança da ONU. "Aproveita-se do carinho que o haitiano tem pelo Brasil – o haitiano realmente gosta do Brasil, do futebol brasileiro, do
brasileiro – e se procura transformar isso numa legitimidade para
uma nova intervenção militar". Ele diz que é
usado um "padrão repressivo" na atuação
das tropas brasileiras no Haiti. "Na minha opinião, há
um estado de permanente coação e de tensão
causado pela presença das forças militares".
No relatório, Bussinger pede que as
denúncias sejam encaminhadas, no Brasil, ao Ministério
da Justiça e ao Ministério Público Militar para apuração. Ele sugere também a retirada das tropas
brasileiras da missão no Haiti. "A Constituição
Brasileira adota o princípio da não-intervenção
por respeito a autodeterminação dos povos. Então
eu só posso conceber uma ajuda se o Brasil estivesse enviando
médicos, professores, assistentes sociais, alimentos,
remédios", disse.
O conselheiro pede ainda que sejam notificadas as
empresas que exploram mão-de-obra no Haiti. "Eu estive lá
em empresas, na fronteira com a República Dominicana, que
pagam US$ 2 por dia, de salário, e exploram trabalhadores na
base de dez horas por dia, meia hora de almoço",
ressaltou.
Aderson Bussinger
Carvalho é filiado ao Partido Socialista
dos Trabalhadores Unificado (PSTU), que tem uma campanha
contra a presença das tropas no país. Mas ele disse que
participou da missão como representante da Ordem dos Advogados
do Brasil. "O PSTU tem o seu relatório, as suas
conclusões, as suas posições sobre o Haiti. Eu
tenho, enquanto representante da OAB, as minhas".
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, respondeu
às críticas do conselheiro da OAB, dizendo se
tratar de "absoluto desconhecimento" da situação
do Haiti, além de "voluntarismo típico" da
necessidade de se fazer oposição.
Em entrevista à Rádio
Nacional, o professor Eugênio Diniz, integrante do Instituto Internacional de Estudos
Estratégicos, avaliou que uma
retirada da Missão das Nações
Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) neste momento causaria um colapso. "A
situação ainda é muito frágil",
disse. Na avaliação dele, a polícia nacional
haitiana não tem condições de manter a segurança
do país sem o apoio da Minustah.
O Brasil está há três anos e
dois meses na liderança das tropas militares que compõem
a Minustah. Indagado ontem (3) sobre uma possível estratégia
de saída do Haiti, o ministro Nelson Jobim disse
que a resposta cabe à ONU.
|