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Brasília - O leitor Luis
Otávio escreveu para a Ouvidoria questionando a imparcialidade e a isenção
da cobertura que
os veículos da Radiobrás fizeram sobre o plebiscito popular
realizado entre os dias 1 e 7 de setembro por movimentos
e organizações da sociedade
civil. O motivo
foi a revisão da privatização da
Compania Vale do Rio Doce (CVRD).
A Agência
Brasil vem cobrindo a campanha “A Vale é Nossa” desde 2006, por
ocasião do “Grito
dos Excluídos”, realizado paralelamente às
comemorações oficiais do 7 de Setembro. Na ocasião
destacou as manifestações organizadas por entidades
representativas da sociedade civil
como a Central
Única dos Trabalhadores
(CUT), o Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra
(MST), o Movimento dos Atingidos por Barragens
(MAB) e a Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB), entre outras.
Na cobertura
deste ano o ponto
alto foi a consulta popular
que levou o nome
de “Plebiscito da Vale”.
Foram publicadas 28 matérias desde 7 de setembro
de 2006, quando foi lançada a idéia
da campanha, até
o dia 8 de setembro.
As matérias
não deixam clara a diferença
entre o plebiscito
oficial, previsto
no Capítulo IV, artigo
14, da Constituição Federal,
e o realizado por iniciativa
da sociedade civil.
No entanto, o fato
de não ser um evento oficial, convocado pelos
poderes estabelecidos do Estado brasileiro, não torna a cobertura sobre
o assunto menos
importante, uma vez
que se trata
de um movimento
de massa organizado por
entidades representativas da sociedade civil. Segundo seus organizadores, o plebiscito
tem, entre outras funções,
a de conscientizar a população
e pressionar o governo.
A Ouvidoria entende que
a Agência Brasil ao trazer
o assunto para
debate em suas páginas eletrônicas está cumprindo com
sua missão,
que é: “Noticiar
fatos, eventos
e processos ocorridos no espaço público político (governo,
Estado e cidadania),
com foco
nos interesses
do cidadão, consolidando-se como um jornal online público
de alta credibilidade”.
E com seus
objetivos, entre
eles: “Acompanhar
os processos e os grandes
debates da cidadania
nacional, promovendo-os e estimulando-os
em nossa
cobertura”.
Leia aqui a íntegra
do Plano Editorial da Agência Brasil.
Justificada a validade de cobrir o assunto e o porquê
da presença dessa pauta,
a Ouvidoria analisou a maneira como a Agência fez a cobertura.
Na recuperação do processo
histórico em
que se procedeu a referida estatização
da companhia faltou relembrar
os fatos e o contexto
em que
se deu a operação de privatização e que estão sendo questionados judicialmente
em 107 ações,
conforme é citado na matéria Dez anos depois, 107 ações judiciais questionam
privatização da Vale do Rio Doce, publicada em 2 de setembro de 2007.
A responsabilidade do Estado
no episódio é lembrada pelo economista e professor do Departamento de Economia
da Universidade de Brasília (UnB) Vander Mendes, ouvido pela reportagem na
matéria Economista defende investigação sobre fraudes na
privatização da Vale, sem reestatização, publicada em 18 de agosto.
Em resposta à Ouvidoria, os
editores da Agência Brasil
informaram que fizeram várias tentativas para ouvir o ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso e o então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES), Luiz Carlos Mendonça de Barros. Ambos não responderam
às tentativas. A Agência errou ao não informar isso nas matérias.
Para os leitores
entenderem os objetivos do plebiscito foram ouvidas 31 fontes
da sociedade civil,
entre elas
juristas, economistas
e advogados que
apontaram aspectos positivos
e negativos da privatização e se
posicionaram a favor ou
contra o plebiscito
popular. Como
exemplo dos aspectos
negativos, está o preço
que a CVRD paga
por um
de seus principais
insumos – a energia
elétrica. Na matéria
Subsídio indireto em energia garante competitividade da
Vale, diz campanha, publicada
em 5 de setembro, não fica claro como funciona esse subsídio, apesar de apontar
que se trata de um custo de produção privado, pago a menor pela companhia e
bancado por toda a sociedade brasileira.
Outra questão que aparece em forma de denúncia pelos organizadores
do plebiscito e que
não foi devidamente
esclarecida na matéria
Venda a preço menor que o patrimônio justifica anular
privatização, para advogado, publicada em 2 de setembro, é a exposta pelo
ex-funcionário da CVRD, o advogado Eloá Cruz. Segundo ele, a lei que criou a
Vale do Rio Doce determina que a companhia distribua 15% dos dividendos aos
acionistas e empregue 10% para formar um Fundo de Desenvolvimento Regional nos
13 estados em que atua. Para o advogado, a companhia não estaria repassando o
dinheiro a esse fundo, e o Tribunal de Contas da União (TCU) teria calculado
que a empresa deve a ele R$ 26,7 bilhões. Essa informação merecia uma apuração
mais aprofundada por parte da Agência.
Segundo o leitor, em nome do direito à informação, a Agência Brasil deveria
escrever sobre os prejuízos que a campanha “A Vale é Nossa” pode acarretar ao
país, pois na opinião dele a comunidade internacional vai pensar que o Brasil
não é um país sério e isso vai comprometer os investimentos de estrangeiros.
Ao que parece,
o leitor não
sabe que os investidores
estrangeiros têm conhecimento
das ações que
a CVRD responde na Justiça, pois ela é obrigada divulgar essa informação no relatório
anual que
apresenta à Bolsa de Valores de Nova
York, onde suas
ações são
negociadas. Ao trazer o assunto
às suas páginas,
a Agência Brasil está dando a oportunidade, talvez
tardia, de que
o público brasileiro
também conheça o assunto.
A cobertura da
Agência,
dá a posição do Partido
dos Trabalhadores (PT), apoiando a realização do plebiscito,
e do Partido da Causa
Operária (PCO), contrário
à consulta, mas não
informa qual é a posição
dos demais partidos
políticos. Será porque
eles não
têm uma posição sobre
o assunto ou
porque não
foram procurados pela reportagem?
Quanto à posição do governo, nas matérias
da Agência
ela se restringe ao pronunciamento
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pois os atuais administradores
do BNDES e do Ministério das Minas e Energia
não quiseram se pronunciar.
Tampouco a direção
da CVRD quis falar sobre
a privatização embora ela também tenha
sido procurada pela reportagem.
Assim, apesar do silêncio voluntário
de fontes importantes
que poderiam esclarecer
os fatos para
o cidadão, o assunto
ganhou espaço de destaque
nas páginas da Agência Brasil, que
preservou o direito à informação tratando com
seriedade a questão.
Contrariando o leitor Luis Otávio, que afirma: “quem
diria, houve um tempo
que a Radiobrás era séria”.
Até a próxima semana.
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