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Brasília - Uma “grande
reportagem”, como o próprio
nome diz, indica uma cobertura de fôlego,
uma proposta de exaurir
um assunto
importante em
um determinado
momento. Como
a pretensão é fazer uma cobertura completa,
trazendo diversos
pontos de vista
e mostrando as possíveis divergências de visão,
de concepção e de interesses
sobre o tema,
o risco de não
corresponder à dimensão
do desafio também
é grande.
A redação
da Agência Brasil aceitou esse
desafio ao pautar
o especial “Usinas
do Rio Madeira:
problema ou
solução?” Já
no subtítulo do especial
está definida a maneira
como é abordado o assunto:
“A
construção das hidrelétricas reabre o debate sobre os impactos socioambientais
do desenvolvimento”, ou seja, as matérias deveriam reunir informações para
o leitor avaliar a construção das hidrelétricas no Rio Madeira sob o ponto de
vista do modelo de desenvolvimento adotado pelo governo, indicando também seus
possíveis equívocos ou inconsistências segundo os opositores ao projeto. Dentre esses, há que se destacar, além de
ambientalistas, os ribeirinhos, cidadãos que moram às margens do rio e dele
sobrevivem.
Nas quatro
matérias listadas na página eletrônica
de abertura do especial
são apresentadas opiniões
dos principais protagonistas
da polêmica: governo
federal, ministério
público, ambientalistas
e governo do estado
de Rondônia. No especial é oferecido ao leitor, além
dos textos, um
passeio por
vídeos, áudios,
fotos e infográficos. Nele, os recursos da internet, como portadora da convergência
das demais mídias,
são explorados de maneira
a tornar a navegação
amigável mesmo
para os mais leigos, tecnologicamente falando.
Disponibilizar a informação em diferentes mídias e também
reuni-las em um
único lugar
(internet)
faz parte do projeto
multimídia da Radiobrás. Quem ganha com ele é o cidadão,
que tem acesso
à informação pela
mídia que
lhe convém.
Provavelmente, foi esse passeio
integrado pelas diversas mídias reunidas
nas páginas da Agência que a leitora Elaine Teixeira dos Santos
fez, antes de escrever
para a Ouvidoria dizendo: “Não
pude deixar de admirar
esta superapresentação, um presente completo para quem aprecia temas ambientais e excelente
fonte de informação.
Muito obrigada
pelo respeito
ao visitante do site
Agência Brasil.” Essa também foi a constatação do júri do Prêmio Caixa de Jornalismo Social, que escolheu a grande reportagem como uma das cinco finalistas na categoria webjornalismo. No ano passado, esse prêmio foi vencido pela Agência Brasil com um trabalho de minha autoria.
Desde a década de
70, o governo brasileiro
constrói barragens em
nossos rios
em nome
do “desenvolvimento” sem avaliar completamente os impactos
sociais, econômicos
e ambientais que elas
causam. O custo dessas obras ainda não foi devidamente
calculado, principalmente o custo do impacto causado nos ecossistemas
atingidos e sua correspondente
repercussão na qualidade de vida das pessoas
removidas das margens dos rios represados.
Por outro lado, a ausência
dessas barragens, ou
melhor, da energia
que elas
produzem, pode comprometer a sustentabilidade energética da economia
da nação e do modo
de vida de milhões
de brasileiros. Essa é uma equação que nunca fecha. As
matérias sobre
esse debate,
mostrando como e por
que são
tomadas decisões
sobre a política
energética, dão oportunidade
ao cidadão de formar
uma opinião sobre
o assunto e interferir
nessas decisões. Decisões
que, se tomadas
de forma democrática,
contribuem para a formação
de uma consciência cidadã sobre os rumos
do desenvolvimento.
Ao trazer
assunto tão
complexo para
debate, a Agência dá oportunidade para que os brasileiros
reflitam inclusive sobre
seus hábitos
de consumo nas grandes
cidades. Se uma lâmpada
é esquecida acesa em São Paulo, uma usina
hidrelétrica está funcionando em
algum lugar
do país para
alimentá-la. Esse funcionamento
não é inócuo.
Se ele traz benefícios
aos moradores das metrópoles, ele também
provoca danos e desequilíbrios ao meio ambiente em algum outro ponto.
As 71 matérias
publicadas entre 4 de junho e 13 de setembro sobre o tema
abordam diferentes contradições
que refletem inclusive
interesses internacionais
em torno
do projeto, como
é o caso da Bolívia, que tem razões tanto para se beneficiar quanto para ser prejudicada, dependendo
da maneira como
for conduzida a construção das barragens.
O país
vizinho protestou sobre
o fato de o estudo
de impacto ambiental não
ter levado em conta as possíveis conseqüências
para seu território. A resposta
do Itamaraty foi que a decisão compete ao Brasil e que
não haverá impacto
para a Bolívia. A cobertura
não contextualizou essa questão
em termos
das relações recentes
entre os dois
paises e rixas antigas sobre a ocupação
do Acre. Tampouco
procurou saber a posição
da organização dos paises da região participantes do Tratado
de Cooperação Amazônica
após a publicação do estudo
de impacto ambiental e dos protestos
da Bolívia. A organização havia sido ouvida em maio na matéria
Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira preocupa OTCA, diz
secretária-geral da organização. As disputas sobre a água
devem se tornar cada vez mais importantes nas relações entre os países da
região.
O debate
sobre o modelo
energético brasileiro aparece principalmente
em um
dos vídeos disponibilizados na página da Agência
Brasil. Nele, são analisadas por especialistas
as alternativas disponíveis,
seus custos
e seus benefícios.
Mas uma das alternativas
não foi lembrada pela
reportagem. Segundo o ambientalista Washington Novaes,
os Estados Unidos na década de 60 aumentaram em
40% a capacidade de geração
de energia sem
construir uma única
usina hidrelétrica
– apenas renovaram o equipamento das já
existentes, tornando-as mais eficazes, e melhoraram as linhas
de transmissão. A chamada
repotencialização das usinas existentes
foi tratada nas matérias
Especialista
recomenda negociação com ambientalistas para viabilizar hidrelétricas do Rio
Madeira e Projeto
de usinas no Madeira é alvo de outras críticas, além das ambientais,
publicadas em fevereiro de 2007. Mas seus endereços não foram anexados às
matérias do especial.
Outra polêmica importante refletida nas matérias é a questão da
disputa entre as empreiteiras interessadas na obra e os acordos e
parcerias entre elas e os fornecedores de equipamentos. Na matéria Quatro grupos empresariais estão interessados em usina no Rio Madeira,
publicada em 16 de junho, é citada a exclusão das estatais Furnas e
Eletrobrás da concorrência, mas três meses depois a matéria Estatais buscam parceiros para leilão da primeira usina do Rio Madeira,
publicada em 10 de setembro, afirma que elas estão no páreo. O que
mudou na posição do governo entre junho e setembro não é explicado. Na matéria Parceria com fornecedores gera divergência entre empresas interessadas em hidrelétricas,
publicada em 15 de julho, uma construtora aponta dificuldades para
participar da concorrência devido a problemas na definição dos custos
dos equipamentos. Uma concorrente, parceira da estatal Furnas, teria
“fechado” com fabricantes nacionais o fornecimento. A concorrente fez o
estudo de impacto ambiental (EIA) no qual se baseou a licença prévia
concedida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis (Ibama). Ambas as construtoras são ouvidas na
matéria sobre essa polêmica. Todavia, sobre esse assunto, faltou ouvir
o governo – que estabelece e deve fiscalizar as regras da licitação.
A questão
dos direitos da cidadania
permeia toda
a reportagem especial da Agência Brasil, que
trata tanto
dos interesses dos ribeirinhos
quanto dos trabalhadores
e da população de Rondônia, ouvidos nas matérias.
Especialistas manifestam suas opiniões e
as autoridades estaduais e federais defendem seus
respectivos pontos
de vista. As matérias
também apontam as perspectivas
para o futuro
econômico e ambiental da região, que
deverão estar sob
permanente monitoramento do Ministério Público,
de ambientalistas e da população em geral.
Ao todo foram ouvidas
103 fontes nas 71 matérias:
57 do governo e do Estado
e 46 da sociedade civil.
O Poder Legislativo
é o grande ausente,
com apenas
uma fonte: uma deputada
federal da região.
A cobertura
mostra que,
longe de se tratar
de um problema
simples, com
soluções superficiais,
o debate sobre
o futuro do modelo
energético brasileiro entrou para
ficar na agenda da cidadania, que
pode e deve participar cada
vez mais
das decisões. Informações
para isso não faltam no especial
Usinas do Rio Madeira: Problema ou solução?
Até a próxima semana.
A Ouvidoria-Geral da União convida a todos para participar do 3º ENCONTRO REGIONAL DE OUVIDORIAS PÚBLICAS - REGIÃO SUDESTE - "A construção da Ouvidoria Pública no Brasil", que se realizará nos dias 27 e 28 de setembro de 2007, em Vitória-ES. Este encontro visa manter permanente diálogo e troca de experiências entre as ouvidorias, instituídas como instrumento para a consolidação e otimização da prestação dos serviços públicos no país, e igualmente será um espaço para divulgar temas como a participação popular. Mais informações e inscrições no endereço: http://www.cgu.gov.br/Eventos/Ouvidoria_Sudeste/Index.asp
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