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Brasília - A falta de perspectiva da população do Entorno do Distrito Federal e o pouco investimento na área de inteligência
policial são fatores que contribuem para aumentar os
índices locais de criminalidade. A avaliação é
da socióloga Lourdes Bandeira, uma das responsáveis
pela organização do livro A Segurança Pública
no DF – Práticas Institucionais e Dilemas Culturais,
coletânea de 12 artigos de pesquisadores da Universidade de
Brasília (UnB) lançado no início do mês.
De acordo com a
socióloga, a presença da Força Nacional de
Segurança no Entorno do DF irá coibir a violência,
o que não vai garantir a resolução de antigos
problemas da população que habita o Entorno. A
professora concedeu uma entrevista à Agência Brasil
para falar sobre o livro e sobre a violência no Distrito
Federal. Ela afirma que o tema é complexo e cobra uma
reestruturação das práticas de combate à
criminalidade por meio do investimento na área de inteligência
e capacitação policial.
Agência
Brasil: Qual a sua avaliação sobre a operação
desenvolvida no Entorno do Distrito Federal, para coibir a
criminalidade, e que conta com a atuação da Força
Nacional de Segurança? Quais são as suas
expectativas?
Lourdes Bandeira: A expectativa é
que a instalação dessa força coíba a
violência, mas, na verdade, essa é uma questão
imediata, porque a questão mais grave é anterior. É
uma questão estrutural porque o aumento dos homicídios
no DF e no Entorno tem a ver, sobretudo, com uma forma de ocupação
extremamente desordenada do espaço. Essa ocupação
está ligada à condição de infra-estrutura
e ao desordenamento dessa população, que há duas
décadas foi atraída para o DF com a promessa de que
teria condições de moradia e de trabalho, mas que na
verdade não teve nada. Houve uma política
de natureza populista pelos governos locais do DF, que atraiu a atual
população do Entorno. Quando essa população
chega é obrigada a viver nos assentamentos e não resta
nenhuma possibilidade de engajamento social. Não é
incluída no mercado de trabalho, não tem qualificação
nem a menor condição de acesso à escola. Para
essa população resta uma possibilidade: a
criminalidade. E é isso o que tem acontecido.
ABr: No livro
vocês apontam um paradoxo vivido no Distrito Federal que tem o
quarto maior investimento do país na área de segurança
e, mesmo assim, ainda enfrenta problemas com relação a
eficácia das ações de combate à
violência. Como você avalia essa questão?
Bandeira:
Em Brasília, há muito investimento para a área
de segurança pública. No entanto, a questão é
a seguinte: como e onde são investidos esses recursos? Uma das
questões centrais aponta para o destino desses recursos que
não são dirigidos, necessariamente, à
qualificação, formação, acompanhamento e
controle das atividades policiais.
Os policiais são
formados pela academia, que não é um curso muito
expressivo, levando-se em consideração que há
uma criminalidade que se desenvolve, que tem um progresso muito maior
do que a força policial, e também os novos tipos de
crime, os novos tipos de delitos. A polícia, em geral, ainda
não tem uma inteligência extremamente desenvolvida para
se antecipar.
ABr: Afinal,
onde falta investir?
Bandeira: Esse
investimento na inteligência, na capacitação e
nos recursos mais elaborados, não é feito. Os recursos
são destinados a equipamentos e materiais, que são
importantes, mas que não são os únicos. Só
ter mais viatura e mais armas não vai resolver, porque a
polícia, evidentemente, tem uma dimensão repressiva,
mas essa repressão tem que estar agregada a uma série
de outros elementos. Se não houver
uma ação mais inteligente, uma gestão dinâmica
mais moderna, certamente, a criminalidade vai continuar aumentando e,
consequentemente, o volume de recursos cada vez mais abundante não
vai resolver o problema.
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