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Brasília - Luis Castillo é
conselheiro econômico da Embaixada da Argentina no Brasil. Nesta
entrevista à Agência Brasil, ele comenta sobre quais fatores
motivaram a recuperação econômica do país após a
crise de 2001.
Também fala dos desafios para os
próximos anos e das providências que vêm sendo tomadas para superar outra crise que afetou o país em 2007: a
falta de energia.
Agência Brasil: Depois de seis anos, a
Argentina tem se recuperado da grave crise econômica que
afetou o país ao final de 2001. Quais são os princiapis
fatores que explicam essa retomada? Luis Castillo: Há mais ou menos quatro anos o país superou essa crise. Nesse período, a Argentina tem crescido quase 9% ao ano e se vê reflexos
em todos os setores da economia, principalmente nas manufaturas,
setor automotor, bens de consumo duráveis, químicos,
papel, bens de capital e siderurgia. São setores que
ressurgiram depois da crise de 2001.
O programa
econômico argentino se baseia basicamente em três pés.
O primeiro é o câmbio
real competitivo, ou seja, que
não está incluído na inflação.
Isso deu um grande impulso ao setor exportador. Há o que se
chama de setor substitutivo de importações, todos os que eu citei antes, que está sendo feito na
Argentina. Porque sai muito caro importar, então, a
demanda e a oferta desses bens aumentou muito.
O segundo pé da
recuperação é o que se chama de prudência
fiscal. A argentina tem um superávit fiscal de um pouco mais
de 4% do PIB [Produto Interno Bruto, a soma de todas as riquezas produzidas em um país]. A Argentina, ao contrário do Brasil, depois
da negociação da dívida, tem gasto muito menos no
pagamento de juros. Então, praticamente, o superávit
fiscal se mantém. Isso tem sido uma constante nesses anos, e
tudo indica que vai ser nos anos que vêm.
O terceiro
pé é o que podemos denominar de políticas de
receitas, que têm a ver com os preços e os salários. São feitas as negociações coletivas com
o sindicato para fixar salários. Os preços, o
governo tem a política de acordar com os setores para ver
quais serão os aumentos de preços, basicamente dos
bens mais importantes: as tarifas de transporte que
estão subsidiadas e os alimentos. Se acorda com os setores e,
por outro lado, o governo subsidia explicitamente o transporte e os alimentos para que o preço ao
consumidor não suba. Isso tem mantido mais ou menos o
esquema, há de se considerar que viemos de uma recessão
grande.
Também teve, como para o Brasil, um contexto
internacional muito favorável, os preços de
commodities e matérias-primas que a Argentina sempre
vendeu foram altos pela demanda da China e da Índia. Se passa a mesma coisa no Brasil. Assim, a Argentina tem
superávit comercial em conta corrente e está
exportando mais ou menos uns US$ 46 bilhões.
Temos uma
reserva em torno de US$ 40 bilhões. Isso fez com que o país praticamente não sentisse a crise internacional,
como a recente no mercado de hipotecas dos Estados Unidos. Isso nos impulsionou, nos últimos
quatro anos, e esperamos que continue nos impulsando.
ABr: Quais são as
desafios da economia argentina? Castillo: Existe o desafio de que esse crescimento seja
sustentável no tempo. Isso
tem basicamente três pés. Que haja m crescimento
sustentável das exportações, em que a
política de câmbio competitivo é fundamental.
Uma coisa que continua sendo um desafio importante é aumentar
o investimento. O investimento, na Argentina, está mais ou
menos em 20% do PIB e é importante aumentar. Um pouco da nossa
política, por meio do Ministério das Relações
Exteriores, e também nas viagens da candidata Cristina [de
Kirchner, candidata a Presidência nas eleições que ocorrem no dia 28 de outubro] vão
nesse sentido: mostrar que a Argentina está fazendo as
coisas bem e tentar entusiasmar os investidores para que esse 20%
passe a ser 25%, porque isso é importante. Que não
sejam só investimentos em capital físico, mas também
humano. Nesse sentido, a Argentina está tratando também
de adequar a oferta de educação à demanda das
empresas. Às vezes há um desemprego que não se
pode eliminar porque o que a empresa precisa não é o
que o trabalhador sabe fazer. Então, aí tem que ser
feito um trabalho que é realmente no sistema de ensino
público, tratar de
readequar as capacitações da mão-de-obra.
O terceiro pé é que é preciso um
forte investimento em tecnologia para que a economia seja mais
competitiva. Porque temos que nos preparar para quando as condições
da economia internacional não forem tão boas e
os preços dos produtos primários e commodities que nós
vendemos baixem. Ninguém diz que isso vai acontecer num futuro
próximo, mas em algum momento isso pode acontecer, e temos que responder de uma outra forma. Inclusive, temos
que ter um grande volume de investimentos e tecnologia
para que tenhamos produtos que possam ser vendidos e que não
sejam necessariamente commodities.
ABr: Que alternativas a
Argentina está buscando para enfrentar a crise energética? Castillo: O que acontece é
um desajuste entre a oferta e a demanda de energia na Argentina e a
política tem sido atacar em duas frentes. No caso da demanda,
de contê-la, tanto a residencial como a das
empresas. As empresas têm sido
estimuladas a usar e produzir energia própria e as famílias,
a não consumirem em determinados horários.
O mais
importante é a oferta. Para expandir a oferta, temos medidas de
curto e de longo prazo. Em curto prazo, basicamente comprar energia,
eletricidade do Brasil, gás da Bolívia e também
gasóleo, que também estamos estimulando as empresas a comprar, e a Argentina comprou algumas vezes gasóleo da
Venezuela. Isso seria a curto prazo, para solucionar já.
No
longo prazo, Argentina está formulando um acordo de produção
de gás natual com a Bolívia por 20 anos. Também
estão sendo construídas centrais térmicas, se
chamam de ciclo combinado. As empresas são estimuladas a fazer investimentos em exploração, porque
não houve muita nos últimos anos, então as
reservas são pequenas. A Argentina quer que as
empresas invistam em exploração, para aumentar as
reservas de gás e petróleo, que o negócio não
seja tanto a distribuição do que já foi
encontrado, a extração e a distribuição,
mas a exploração. Porque o país tem
terrenos que poderiam ser ricos em pretróleo e gás.
Estão sendo feitos investimentos, não tenho números
de memória, mas isso é um pouco do programa de combate.
Para a demanda e para a oferta, e a oferta de curto e longo prazo.
ABr: Dentro das relações
econômicas internacionais da Argentina, qual a importância
do mercado sul-americano? Castillo: Tenho alguns números interessantes de destacar. Em 2006, 17% de tudo o que
a Argetnina exportou foi para o Brasil, 3% para o México, 2%
para o Uruguai, 6% para a Comunidade Andina de Nações e 9% para o
Chile. Claramente, para a Argentina, os mercados da América são
importantes e muito mais para as manufaturas industriais. A Argetnina
pode vender commodities para a China e a Índia, mas
se queremos vender produtos com maior valor agregado, claramente a
Argentina vai vender para o Brasil, Chile, Comunidade
Andina de Nações, Urugaui, México, etc.
Automóveis, nós vendemos para o Brasil e para o México.
É muito importante, não somente em termos de volume,
mas em termos de qualidade. Não é a mesma coisa vender
soja e autmóveis. E os automóveis nós vendemos
aqui, não na China. Nesse sentido, o esquema de relacionamento externo da Argentina vai sempre priorizar o aporte no
mercado sul-americano, a possibilidade de ter
uma associação com todos os países da América
do Sul. Há um acordo entre o Mercosul e a Comunidade Andina, e
a Argetnina tem acordos de comércio com o Chile e com a
Bolívia, que são países associados ao Mercosul.
De maneira que a Argentina vende onde pode, mas bens com maior valor
agregado, mais importantes, são vendidos basicamente na América
do Sul. A relação com os vizinhos para nós é
fundamental, culturalmente e também pelos negócios.
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