Nancy Ramos não é nenhuma
especialista em política, mas discorre com fluência
sobre o problema da inflação e a impossibilidade de
consumir alimentos básicos que não costumavam faltar
nos lares argentinos, como batata, tomate e abóbora, cujos
preços dispararam recentemente, provocando boicotes dos
consumidores.
“A batata está nas
nuvens”, diz a moça de 23 anos, que ganha a vida
arrumando quartos de um decadente hotel quatro estrelas de Buenos
Aires e não tem dinheiro para jogar fora. “Se está
caro, não compro. Ou então vou nas feiras, onde fazem
promoções. Quem compra dez quilos, paga mais barato.
Mas aí você fica obrigado a comprar 10 quilos.”
Nancy acha a situação
vergonhosa. “Há uma inflação desde o final
de 2006. De 1,10 pesos o quilo, a batata chegou a 7 pesos (cerca de R$ 4). Uma
vergonha. Como o tomate, que estava a 2 pesos e chegou a 18 (cerca de R$ 11)", conta. "E em
Palermo, chegaram a cobrar em dólares. Há uma inflação
enorme nesse governo, que é o único que se pode
criticar, porque em termos de direitos humanos, justiça,
democracia e Constituição, se respeitou tudo.”
Para
comer batata frita, ela conta que a opção mais viável
é apelar para redes de fast food que não aumentam o
preço. “Para comer batata frita, tem que
ir no McDonald´s, é o único lugar que está
barato. Eles têm uma política de congelamento, compram
uma certa quantidade de batata por ano e congelam. Ali não se
vê inflação.O menu continua custando 12 pesos, o
mais barato. A pessoa pode comer toda a batata que quiser.”
Sergio Sandoval,
gerente de uma loja do McDonald´s na região central de
Buenos Aires, confirma que a compra é feita uma vez por ano,
sempre junto ao mesmo fornecedor, e por isso a empresa não
enfrenta problema com os preços. No entanto, ele não
percebe aumento significativo de clientes atrás de
batata frita depois que os preços dispararam.
Nas proximidades
do McDonald´s, fica o restaurante El Palacio de la Papa Frita,
especializado não só em batata frita, como o nome
revela, mas também em outras modalidades de preparo. O
estabelecimento não tem o poder de barganha do concorrente
norte-americano, mas garante que manteve o cardápio intacto,
mesmo pagando quase o dobro por um saco de batatas.
Para o gerente
Gustavo Miraldiacono, os preços sobem porque a Argentina
exporta demais. "Não teve problema de tempo, de má
colheita, nada. O problema é que exporta muito, então
não sobra batata para o mercado interno. Imagina que estão
dizendo que vão importar do Brasil, sendo que aqui é a
terra das batatas. Tem muita batata no Brasil?”, pergunta.
Para exemplificar
sua revolta, o gerente vai até a cozinha, volta com um tomate
grande e brilhoso e o compara com aqueles da época em que o
preço do tomate também disparou, recentemente. “Antes
eram tão pequenos, porque colhiam tão cedo para poder
exportar que não dava tempo de crescer.”
Esse dilema entre exportar e controlar
o preço internamente ocorre também com outros produtos.
Pouco tempo atrás, a Argentina anunciou que suspenderia a
exportação de trigo com esse objetivo, o que elevou o preço do pão no Brasil.
Quando o governo não toma essa
providência, a população se encarrega de
pressionar, boicotando. Assim caiu o preço do tomate e, pelo
que a Agência Brasil apurou, já começou a cair o
da batata. Falta a abóbora.
“Temos dito,
fazendo piada, que para o Natal vamos boicotar a Cidra, o pan dulce (tipo de panetone) e o torrone”,
brinca a jovem Nancy Ramos.