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Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
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Buenos Aires (Argentina) - O embaixador do Brasil na Argentina, Mauro Vieira, fala à Agência Brasil
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Buenos Aires (Argentina) - O embaixador do Brasil na Argentina, Mauro Vieira, acha que, embora tenha
dado sinais
de uma política externa mais internacionalista durante a campanha
eleitoral, a
presidente eleita da Argentina, Cristina Kirchner, não deve virar as
costas para
o Mercosul nem para o Brasil. Vieira afirma que já está
negociando uma nova visita dela ao país, antes da posse, marcada para 10
de dezembro – Cristina esteve em Brasília
no último dia 3.
Sobre as relações entre os dois países, o
embaixador destaca
o "volume enorme" do comércio bilateral e a "importância" dos
investimentos brasileiros no país vizinho. Reconhece que a opinião
pública argentina
reclama quando empresas locais são adquiridas por capital brasileiro,
mas
frisa que o governo não tem nenhuma restrição, lembrando que Cristina
disse que
o
empresariado nacional é bem-vindo. Leia a entrevista concedida à Agência Brasil em Buenos Aires.
Agência Brasil: O vice-presidente José Alencar disse que
espera um fortalecimento das relações políticas e comerciais com a Argentina,
ressaltando que Cristina Kirchner disse que o primeiro país visitado será o
Brasil. Qual a expectativa do governo brasileiro para o mandato da presidente
eleita? Mauro Vieira: A relação entre Brasil e Argentina durante os
governos Kirchner e Lula foi excelente e tenho certeza que isso vai continuar,
ainda mais por ser um governo de continuidade. E porque acho que ela está
convencida da importação da relação bilateral e da integração. Quando esteve
com o presidente Lula [pouco antes de ser eleita], ela disse que seu desejo era
manter esse nível e se possível melhorar.
ABr: O senhor fala em continuidade, mas muitos apontaram, às
vésperas das eleições, que Cristina dava sinais de aproximação maior com os
países do Norte, de uma política externa mais internacionalista. Como o governo
brasileiro vê isso? Vieira: Eu, pessoalmente, não vejo assim, e acho que o governo
também não. Não acho que vá priorizar os países do Norte ou o G-7. Acho que ela
vai priorizar a integração, e ela disse isso ao presidente Lula quando esteve
no Brasil. A América do Sul é importante. Mas é evidente que a Argentina, como o
Brasil, tem relações com todos os países, tem interesses em todos os pontos:
com a Europa, a Espanha em particular, com Estados Unidos, que ninguém pode
deixar de ter relações, com o Oriente, Japão, China...
ABr: O cineasta Fernando Solanas, que foi candidato à
presidência da Argentina, disse que o Mercosul caminha num ritmo muito lento
porque as resistências são muito fortes e que a integração regional não é
prioritária para o presidente Kirchner, embora ele diga o contrário. Como o senhor vê
isso? Vieira: A posição oficial do governo não é essa, pelo
contrário. Eles dão uma ênfase muito grande ao fortalecimento do Mercosul,
priorizam mais o Mercosul do que a União Sul-Americana de Nações (Unasul).
ABr: Mas essa ênfase se transformou em ação nos últimos
anos? Vieira: Acho que sim, tanto que um dos instrumentos da
recuperação econômica [da Argentina] é a construção de um superávit comercial
sólido. E eles têm feito, é uma forma de financiamento interno. Isso, através
do Mercosul, é indispensável. Nenhum dos membros pode prescindir do bloco para
o comércio. Hoje, o comércio entre Brasil e Argentina é de um volume enorme. No
ano passado, foi de US$ 20 bilhões. Acho que esse ano vai ultrapassar US$ 22
bilhões. Um crescimento de 10% em um ano é muitíssimo.
ABr: Como está a balança comercial? Vieira: No último ano, o Brasil teve US$ 3,5 bilhões,
aproximadamente, de superávit. Neste ano, de janeiro a julho, houve US$ 13,5
bilhões. Acho que, com segurança, dá para projetar US$ 22 bilhões. E continua
um superávit para o Brasil, com pequena redução.
ABr: O superávit brasileiro vem crescendo. Não é possível
que uma presidente eleita com votação tão expressiva (44,9%) e tanta
expectativa de trazer melhorias sociais para o povo argentino possa tentar
revertê-lo, como forma de incentivar a indústria nacional? Vieira: Sem dúvida. E o presidente Lula concorda com isso.
Ela já disse que para o Brasil, o bom é que a Argentina esteja forte,
industrializada. É péssimo para a gente ter um país vizinho, um sócio tão
importante numa situação de crise constante. Nós fizemos muitos gestos nesse
sentindo, cooperamos. Nenhum país quer ter só superávit, o comércio exterior
é uma avenida de duas mãos. Acho que a questão do comércio bilateral está muito
bem encaminhada através de uma comissão bilateral de monitoramento de comércio,
que funciona desde 2003. Mas o que vai ser muito importante nessa nova etapa
são os investimentos brasileiros, que são muito grandes e são no setor
produtivo, não especulativos, e vão promover aumento de exportações, como por
exemplo o Grupo Camargo Corrêa, que tem aqui a maior empresa de cimento da
Argentina, a Loma Negra.
ABr: Como o governo argentino tem visto as constantes
aquisições de empresas argentinas por grupos brasileiros? E a sociedade
argentina? Vieira: A imprensa até diz "ah, outra empresa que se vai".
Elas não vão, elas continuam aqui, foram apenas compradas. Algumas delas,
inclusive, já eram controladas por capital externo. Mas o governo sempre
recebeu muito bem os investimentos estrangeiros e brasileiros, em particular. A
presidente eleita, quando esteve no Brasil, com 14 ou 15 dos maiores
empresários brasileiros, disse que eram todos muito bem-vindos, que a Argentina
é um bom lugar para investir.
ABr: Por falar em exportações, como está a situação do
comércio de trigo? Houve uma época em que o governo argentino restringiu
a exportação para evitar aumento de preço no mercado interno, o que obrigou os
brasileiros a pagar um preço mais alto para comprar de outros países. Vieira: A situação está se normalizando. O Brasil é um
grande comprador de trigo da Argentina. Foi um tema que
teve de ser negociado porque começaram a surgir interesses conflitivos, mas estão
sendo negociados e estamos superando. Não é um problema grave, até porque se
faltar trigo da Argentina, podemos comprar de outros lugares. Mas nos
dirigimos, temos um esforço. Há um programa do governo federal chamado Programa de Substituição Competitiva das Importações, que é um esforço de
concentrar nos países do Mercosul a compra dos produtos que temos de importar.
ABr: Um analista político argentino, Ricardo Rouvier,
comentou recentemente que num governo Cristina Kirchner, a tendência da
Argentina seria se direcionar para a Europa, fazendo uma ponte através do
Brasil. E a Europa convidou recentemente o Brasil para uma parceria
estratégica. O senhor tem conhecimento de alguma iniciativa do gênero, com a
Argentina entrando nessa aproximação? Existe isso? Vieira: Existe. O Mercosul negocia em bloco, com a União
Européia, um acordo comercial. Essa questão de o Brasil ser sócio estratégico
da União Européia não é comercial, é de concentração política, de ciência,
tecnologia, educação etc. É um equívoco achar que o Brasil está se separando do
Mercosul. Então, o que eu queria dizer é que a associação estratégica do Brasil
com a União Européia não tem nada de comercial, e a Argentina não precisaria
disso [usar o Brasil como ponte] porque ela já exporta muita coisa para a
Europa. Ela se beneficiará, sim, de qualquer acordo feito em bloco através do
Mercosul.
ABr: Qual o primeiro item da pauta bilateral com o novo
governo argentino? Vieira: A relação é tão densa, profunda que são muitos...
ABr: Mas qual o principal? Vieira: A integração bilateral e dentro do Mercosul.
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