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Brasília - O governo deve
investir mais em prevenção ou no tratamento de uma doença? Em se tratando de
saúde pública, aparentemente essa pergunta tem uma resposta óbvia: em prevenção. E o
jornalismo? Ele deve conseguir prever o que poderá acontecer ou simplesmente deve
se restringir em reportar o que aconteceu?
A Agência Brasil vem noticiando há 30 dias a ocorrência
de um aumento
de casos de dengue
considerados, segundo o ministro da Saúde,
José Gomes Temporão, uma epidemia, conforme
a matéria: "Politicamente",
país vive epidemia de dengue, afirma ministro da Saúde, publicada em 17 de
outubro. O emprego do termo “politicamente” não foi explicado no texto.
Mais um complicador adicionou-se à esse
quadro sanitário.
Um novo tipo de vírus entrará
no país nos
próximos meses: o tipo
4. A Agência
tratou do assunto em
duas matérias: Chegada
de dengue tipo 4 no Brasil é questão de tempo, diz ministro e Dengue
tipo 4 não é motivo de alarde, diz epidemiologista, publicadas em 22 de
outubro.
Protestando contra
informações e opiniões
constantes nessas duas matérias, o leitor
Rômulo Sabóia,
que se identificou como
médico infectologista, mestre em Medicina
Tropical, disse que a epidemia de dengue tipo 4
será explosiva, com
alta letalidade
em todo
o Brasil, e que ela
é perfeitamente previsível e evitável.
Como justificativa
de sua posição,
o médico argumenta:
“A introdução do vírus
da dengue tipo
4 é inevitável, ocorrerá em breve e será
seguida de uma epidemia
explosiva de dengue
com alta
letalidade por
dengue hemorrágica.
Isso acontece sempre
que um
novo tipo de vírus da dengue
é introduzido numa região ou país.
Aconteceu no Brasil com a introdução do vírus
tipo 2 em
1990, e se repetiu quando chegou o vírus tipo 3 em 2000. À medida
que o novo vírus se dissemina pelo país, ocorrem exacerbações
das epidemias anuais
e aumento das mortes.
Isso também
vai ocorrer com
o vírus tipo
4 quando chegar”.
O leitor
continua o raciocínio: “Isso é motivo
de alarde, sim,
porque muitas pessoas
vão morrer
desnecessariamente - 99% das mortes por dengue hemorrágico se devem a falha
médica na condução
do caso. Essas mortes
poderiam perfeitamente ser
evitadas, com a capacitação
da classe médica
no manejo clínico
da dengue clássica
e hemorrágica. Como
o número de mortes
vai aumentar com
a introdução no novo
vírus, as ações
de controle e de capacitação
dos profissionais de saúde devem ser
intensificadas antes que aconteça, o que
é totalmente previsível”.
Esta Ouvidoria repassou a mensagem do leitor
para a redação
da Agência Brasil, uma vez
que as fontes
ouvidas nas duas matérias citadas
consideravam que a futura
epidemia “não
deve ser motivo
de alarde”, e sim
apenas “um
complicador a mais”.
Embora o ministro
da Saúde tenha afirmado na matéria que a dengue tipo 4 iria
chegar, a reportagem não
perguntou a ele o que
está sendo feito, além
das campanhas publicitárias, para prevenir a doença
existente e a que se anuncia. Há algum plano para intensificar as “ações de controle
e de capacitação dos profissionais de saúde”,
como sugere o leitor?
Foram publicadas ao todo 15 matérias
sobre o assunto
desde 15 de outubro.
Na matéria Governo
lança campanha de prevenção à dengue e ministro pede apoio da população, publicada
em 16 outubro, a dificuldade em trabalhar com números, já citada em colunas
anteriores, reaparece quando a reportagem fala em 121 mil mortes este ano
decorrentes da epidemia.
Alertada pela Ouvidoria, a redação corrigiu o erro.
Mas faltam explicações para as 121 mortes. Elas devem ser debitadas à política
de prevenção à doença ou à sua ausência? Porque os diagnósticos continuam sendo
precários, conforme consta na notícia: Pesquisa
no Centro-Oeste monitora impacto do agrotóxico no meio ambiente e na saúde,
publicada em 3 de novembro? Por que as matérias não explicam quais as causas
políticas dessas mortes?
Para o ministro
essas mortes são
“inadmissíveis”, conforme
declarações que
constam na matéria Estados
se unem para combater a dengue. Ele explica:
“Ou faltou a urgência em procurar o profissional de saúde ou falhou o
diagnóstico”. Mortes por causas não naturais são sempre inadmissíveis, o que
faltou foi a Agência explicar por que
elas não devem ser admitidas. O que falhou? A comunicação do Estado, que não
informou ao cidadão que ele corria risco de morte ou competência dos médicos em
diagnosticar a doença? A dengue não é uma causa natural de morte – ela é
previsível e evitável.
Continuando, a matéria informa que
o ministério está enviando a “todos os 300 mil
médicos brasileiros
CD-ROMs com
informações sobre
a doença”, e uma campanha
publicitária foi lançada
convocando a todos para
se unirem no combate à dengue.
Talvez essas medidas
evitem outras mortes no futuro, mas as
do passado continuarão sem explicação.
No caso
da epidemia que
poderá ser causada pelo vírus tipo 4, o
próprio leitor
informa que o processo
histórico da dengue
no país registra
dados sobre
o impacto da entrada
anterior de outros
tipos de vírus
da dengue e da mortandade
que causam devido
à falta de preparo
dos médicos em
diagnosticar a doença. Não seria o caso
de a Agência
apurar esses números e montar um gráfico
informativo (infográfico) confirmando ou
não a correlação?
No jornalismo,
bem como na saúde pública,
os fatos não
acontecem magicamente, do dia para a noite.
Analisando os processos históricos é possível
prever quais serão as possíveis
ocorrências futuras, ainda mais
nesse caso em
que o próprio
ministro da Saúde
já afirmou: “É só
uma questão de tempo”.
Outra informação que seria importante
para os leitores
da Agência
entenderem como ocorre uma epidemia diz respeito
à distribuição geográfica
da ocorrência do vírus.
Essa informação associada
à outra que
trata de como
a doença vem sendo combatida mundo
afora poderia
ter sido fornecida pela
Agência
se ela tivesse feito
a cobertura do seminário
internacional ocorrido em outubro em Belo Horizonte. Na matéria
Belo Horizonte sedia seminário internacional sobre
prevenção e controle da dengue, publicada no dia 15 daquele
mês, a ocorrência do evento é apenas anunciada.
Dentre as 15 matérias
publicadas, duas tratam de ações preventivas
do governo, que
pretende começar a produzir
uma vacina daqui a quatro
anos. Uma matéria
informa sobre a página
eletrônica do ministério
da Saúde, colocada no ar no dia 17 de
outubro, na qual
aqueles que
têm acesso à internet podem obter mais informações sobre
sintomas e formas
de prevenção e tratamento.
A matéria: Dúvidas sobre dengue podem ser esclarecidas pela internet,
publicada em 18 de outubro, diz que os professores podem baixar cartilhas para
trabalhar o assunto com seus alunos.
A redação
da Agência Brasil, estimulada pela mensagem
do leitor, vai aprofundar
a apuração, ouvir outras fontes
especializadas no assunto e proporcionar ao leitor
informações para
que ele
entenda a real dimensão
do problema e o que
está sendo feito para
solucioná-lo. A dengue está presente entre os brasileiros há décadas
e, pelo visto,
continuará, podendo inclusive se agravar.
Não dá mais
para, reativamente,
esperar que
se declarem estados epidêmicos para simplesmente transformá-los
em
notícia. Ela
demanda um
acompanhamento ativo, permanente e planejado por
parte do jornalismo
de uma empresa pública
de comunicação. O Estado
é apenas um
dos protagonistas, a sociedade
civil e o cidadão
também têm suas
responsabilidades e direitos
a serem discutidos, por isso precisam ser mais ouvidos.
Até a próxima semana.
Participe do 3º ENCONTRO REGIONAL DE OUVIDORIAS PÚBLICAS - REGIÃO NORTE - "A Construção da Ouvidoria Pública no Brasil", que se realizará nos dias 22 e 23 de novembro de 2007, em Belém. Este encontro visa manter permanente diálogo e troca de experiências entre as ouvidorias, instituídas como instrumento para a consolidação e otimização da prestação dos serviços públicos no país, e igualmente será um espaço para divulgar o tema como participação popular. Maiores informações e incrições no endereço: http://www.cgu.gov.br/Eventos
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