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Brasília - A transferência de 3,8 milhões de hectares de terras da
União para o estado do Amapá significa quase uma "carta de alforria" [liberdade] para os
agricultores locais. A avaliação foi feita pelo presidente da Cooperativa dos Produtores Agrícolas do
Cerrado Amapaense, Gilberto Laurindo, em entrevista à Agência Brasil.
“Temos hoje as terras e não temos documentação, acesso ao
crédito, nem garantia de promover investimentos com recursos próprios. A
titulação das terras será um passo largo para o desenvolvimento do agronegócio do estado”, afirmou Laurindo.
Segundo o Instituto de Meio Ambiente e Ordenamento
Territorial do estado do Amapá (Imap), em 2007, o Banco da Amazônia destinou R$ 164 milhões do Fundo Constitucional do Norte (FNO) para investimentos em
agronegócio no estado, e apenas 8% foram devidamente aplicados. Por falta de produtores credenciados, o restante foi devolvido.
A agilização da regularização fundiária é pré-requisito para que os produtores
tenham acesso a crédito e viabilizem investimentos. Estima-se que 11 mil famílias serão beneficiadas e a prioridade dos projetos de desenvolvimento agrícola será dos
pequenos. “Vai começar por eles, através da difusão de tecnologia. Vamos
trabalhar para que eles sejam prestigiados”, disse Laurindo.
A própria geografia do estado, conforme o secretário
especial de Coordenação Política Institucional do Amapá, Alberto Góes, não permite predomínio de agricultura em alta escala. O estudo governamental
Amapá Produtivo, feito em 2004 e 2005, revelou que as áreas agricultáveis no estado não passam de 250 mil hectares.
"Isso indica que temos que trabalhar para produzir alimentos básicos, e não
culturas de exportação.” Góes lembrou ainda um condicionamento legal:
“Qualquer propriedade que o estado destinar acima de 500 hectares está sujeita
à aprovação pela Assembléia Legislativa”.
Gilberto Laurindo ressaltou que o Amapá enfrenta grande
dependência de outros estados para o
consumo de alimentos: “Produzimos menos
de 10% do que se consome e não exportamos nada”. Ele aponta a mandioca, o arroz, o
feijão e a cultura permamente do
açaí como produções que devem ser
incrementadas em áreas ocupadas há pelo menos um século sem o título de
domínio: “A esperança é darmos um passo seguro para oferecer aos netos dos
pioneiros a oportunidade de ter condição de vida um pouco melhor”.
De acordo com Laurindo, no Amapá, a convivência entre produtores, quilombolas e índios é
pacífica. “As áreas ocupadas pelos brancos não chegam a 25% do estado, e ninguém
sente necessidade de avançar a fronteira agrícola.”
O representante dos produtores não teme que a
burocracia estatal comprometa a regularização das posses: “Vamos tratar como
uma questão de vida ou morte do estado. Criou-se uma expectativa grande, e vamos
cobrar fortemente. É uma medida com 30 a 40 anos de atraso, e o atual governo já
demonstrou disposição em fazer”, disse ele.
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