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10 de Dezembro de 2007 - 18h21 - Última modificação em 10 de Dezembro de 2007 - 18h22


Medo de ir contra a polícia impediu denúncia sobre jovem presa, afirmam moradores

Irene Lôbo
Enviada especial

 
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Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
Abaetetuba (PA) - Paredes da cela, já demolida, onde uma adolescente ficou presa por quase um mês com 20 homens. Menina completa 16 anos hoje, Dia Internacional dos Direitos Humanos
Abaetetuba (PA) - Paredes da cela, já demolida, onde uma adolescente ficou presa por quase um mês com 20 homens. Menina completa 16 anos hoje, Dia Internacional dos Direitos Humanos
Abaetetuba (Pará) - Durante 24 dias, uma adolescente que completa hoje (10) 16 anos permaneceu presa com cerca de 20 homens em uma delegacia de Abaetetuba (PA), a 100 quilômetros de Belém. No dia 19 novembro, ela foi solta após uma denúncia feita no Conselho Tutelar da cidade, que passou a atuar no caso.

O local onde a jovem e os presos provisórios ficavam foi demolido. Era formado por alguns cubículos e um corredor que o separava em dois lados. As paredes não tinham tinta alguma - apenas fotografias de mulheres peladas. O chão era de cimento puro. A cela, úmida e fétida, tinha janelas voltadas para a rua, de onde se viam bares e biclicletas indo e voltando.

As grades da carceragem eram vistas por moradores, que em geral se negam à falar sobre o assunto. Quem aceita dar entrevista, sem revelar a identidade, conta que a situação da adolescente era conhecida por muita gente. Principalmente por quem ia à cadeia visitar parentes e amigos presos.

O taxista Marco Antônio da Costa foi algumas vezes ao local visitar um colega de profissão que estava preso. Segundo ele, a adolescente pediu ajuda várias vezes.

"Ela até perguntou se a gente podia dar um apoio para ela lá fora, mas só que a gente não podia fazer nada”, afirma o taxista. “Aqui em Abaetetuba a gente não pode ir contra a polícia. A gente trabalha o dia todo de táxi e não pode jogar contra eles, tem que trabalhar defendendo a polícia, os bandidos, para poder sobreviver.”

Um preso, conhecido como “Aranha”, assim que foi liberado da prisão num mutirão realizado pela delegacia, foi buscar a certidão de nascimento da jovem e mostrá-la ao Conselho Tutelar, pedindo providências. Deu certo.

“Foi o único que demonstrou um mínimo de responsabilidade e de respeito aos direitos humanos. Ele primeiro foi à escola em que ela dizia que estudava, pegou a certidão de nascimento da menina, e foi ao Conselho Tutelar, que foi ao Ministério Público”, lembra a presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seccional Pará, Ângela Sales.

De algumas autoridades, ela ouviu frases do tipo: “Mas doutora, fazer um escândalo por isso, a pequena não vivia roubando? Eles [os pobres] estão acostumados”. Para a presidente da OAB do Pará, casos como esse não têm um único culpado. Juízes, promotores, policiais civis, delegados, escrivães e agentes penitenciários, todos, têm sua parcela de culpa.

“Em hipótese nenhuma, nesse momento, nenhuma autoridade correicional desses órgãos pode isentar de responsabilidade o seu agente, ninguém. Assim também como ninguém vai crucificar os seus agentes”, afirma Ângela Sales.

“A minha opinião mesmo é que essa conivência, essa omissão, essa falta de ação, essa acomodação, lamentavelmente é própria da cultura de todos nós, a cultura de que pobre não tem direito e que pobre, drogado, criança que vive na rua, como já não têm dignidade humana, tanto faz.”


 


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