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Marcello Casal JR/ABr
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Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) - Desiree Bravo, vice-presidente do Conselho Municipal (órgão legislativo), passou mal durante greve de fome contra a proposta constitucional do presidente Evo Morales e foi levada para o hospital
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Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) - Cada vez que uma pessoa é retirada de uma maca
por sucumbir à falta de comida, logo se forma um aglomerado de pessoas para dar apoio moral e gritar em nome da autonomia do departamento (estado) boliviano de Santa Cruz e
contra o presidente do país, Evo Morales.
A greve de fome na capital do estado, Santa Cruz de la
Sierra, reúne pessoas de diferentes etnias e classes sociais, que se apóiam mutuamente, empunhando a mesma bandeira.
Depois de passar mal, Desiree
Bravo, vice-presidente do Conselho Municipal (espécie de
Câmara de Vereadores, mas com menos autonomia), desistiu ontem (14) do jejum.
Ao vê-la
entrar na tenda médica, um grupo de senhoras correu para o
local gritando em coro o nome de Desiree. Elas não fazem jejum, mas carregam cartazes de um lado e para outro e passam de barraca em
barraca para pedir que as pessoas agüentem mais um pouco.
A greve
termina hoje (15), quando Santa Cruz vai declarar autonomia em
relação ao governo da Bolívia. "Estamos todos unidos", diz Fernando
Moreno, há sete dias sem comer.
Unidos podem estar, mas não necessariamente
pelo mesmo motivo e nem com a mesma fé. Um grevista que pediu
para não ser identificado contou à Agência Brasil
que só está acampado ali por ordem do patrão.
Ele disse ser funcionário de uma indústria
têxtil que tem interesse na autonomia para controlar a renda
gerada pelo estado – Santa Cruz fica no oriente, região mais
rica do país.
O manifestante - em greve de fome
desde o início da mobilização, 3 de dezembro
- conta que não recebe nada por isso, só o salário
normal, como se estivesse trabalhando. Mas diz que, dessa forma,
garante a manutenção do emprego, pois já está
ficando velho para o trabalho - tem 56 anos de idade.
Segundo ele, dois fiscais
da empresa circulam pelo local para garantir que ninguém
vai desistir, já que há vários empregados
da fábrica jejuando como ele.
Moreno, o militante que está há sete dias em comer, não vê na campanha
pela autonomia um jogo de interesses de empresários de Santa
Cruz, por considerar que eles não precisam de dinheiro.
Ele resiste à falta de comida com soro sabor de fruta, pastilhas com vitaminas e líquidos. Não
sabe quantos quilos perdeu, mas acha que a barriga está menor,
mais parecida com o tempo em que ele representou a Bolívia em um
concurso mundial de modelos, em 1997.
O grevista que não quis fornecer o nome tem uma dieta diferente: água,
café, cigarro e folhas de coca misturadas com bicarbonato
para aliviar o sabor amargo.
Segundo ele, as folhas tiram a fome e o sono. Ele conta que consegue dormir seis, sete horas por noite, depois de
assistir ao noticiário – as barracas têm TV, baralho e,
as mais "luxuosas", ventiladores e
cafeteiras elétricas de última geração.
Na hora do noticiário, ninguém tira
os olhos da tela. Ontem (14), a televisão mostrava cenas de um
desentendimento ocorrido em La Paz.
A apresentadora enfatizava o fato "incomum" de manifestantes
que não são do Movimento ao Socialismo (MAS, partido de
Evo Morales) terem saído às ruas, em La Paz. Ressaltou também a luta deles pela "democracia", como um
contraponto à reforma constitucional proposta pelo presidente.
Em seguida, um longo bloco de notícias na mesma emissora
apresentou indicadores sociais da Comissão Econômica
para a América Latina e o Caribe (Cepal), apontando a Bolívia
como uma "ilha" cercada por países que crescem mais.
A previsão decrescimento do Produto Interno Bruto (PIB, a som das riquezas de um país) boliviano
neste ano é de 3,8%.
Em entrevista à Agência Brasil, o
constituinte Ruben Dario Cuellar, chefe da bancada nacional do Poder
Democrático Social (Podemos, principal partido de oposição),
disse que Evo tem mais culpa que antigos dirigentes pela falta
de desenvolvimento do país porque atualmente estão em alta os preços
de produtos que a Bolívia produz, como gás e
agronegócio.
"No melhor momento econômico da
Bolívia, em que os preços dos seus principais produtos
duplicaram, triplicaram, quadriplicaram, temos um governo que não
faz nada para aproveitar isso: não gera fontes de emprego, não
gera maior produção", disse Cuellar.
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