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Brasília - Enquanto bate seguidos
recordes de produtividade, a cultura da cana-de-açúcar
no Brasil ainda não conseguiu se desvincular de denúncias, mesmo que inconstantes, de exploração da mão-de-obra
em condições precárias, com alta carga de
trabalho, baixos salários, alimentação ruim,
alojamentos e equipamentos inadequados para os trabalhadores.
A lei prevê
jornada semanal de 44 horas de trabalho, mas segundo a Confederação
Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), muitos
bóias-frias seguem trabalhando até 12 horas por dia. O
salário de um bom cortador chegaria a R$ 600,00 e haveria
excesso também no desempenho exigido. “Em 1992, um cortador
cortava de 3 a 6 toneladas por dia. Hoje esses mesmos são
obrigados a cortar pelo menos 10 toneladas, senão ficam sem
emprego. Se respeitassem a lei, o trabalhador cortaria cana por mais
tempo e viveria com dignidade”, afirmou o secretário de
Assalariados Rurais da Contag, Antônio Lucas Filho.
A entidade calcula a
existência de pelo menos 800 mil cortadores de cana no Brasil e avalia que a modernidade realçada pelo setor não se
sustenta nas relações de trabalho.
Os danos para a imagem
do mercado produtivo do Brasil no exterior são reconhecidos em
entrevista à Agência Brasil pelo presidente do Conselho do
Agronegócio da Federação da Indústrias do
Estado de São Paulo (Fiesp) e membro da Comissão
Interamericana de Etanol, Roberto Rodrigues. Ele ressalva entretanto,
que as práticas criticadas são isoladas.
“Infelizmente
minorias insignificantes de empresários fazem coisas erradas à
margem da lei, produzindo uma imagem negativa para todo o setor, mas
a grande maioria trabalha dentro das normas legais. Qualquer notícia
negativa produz efeitos nefastos”, disse Rodrigues, ao alegar que instituições
e empresas que não têm interesse no progresso brasileiro usam
as denúncias para fazer campanha contra investimentos no
país.
A mecanização
do corte é uma tendência natural do setor. Há
inclusive decretos federais e estaduais determinando um prazo de seis
a 12 anos para isso. A Contag já encaminhou ao presidente
Luiz Inácio Lula da Silva um pedido para que o governo implemente um programa de
capacitação para direcionar os trabalhadores a outras
atividades no campo ou na cidade.
Roberto Rodrigues
lembra que a mecanização, por condições
topográficas, não poderá entrar em 100% da área
cultivada com cana. E tem uma sugestão para os 7% a 10% da
área que se enquadrariam neste caso. “ Seria interessante
projetos que estimulassem os agricultores dali a plantarem frutas ,
flores, orgânicos, árvores seringueiras. Isso reduziria
a concentração da cana, daria ao trabalhador uma
atividade mais nobre e agregaria valor à cadeia como um todo,
porque tanto o produtor quanto o trabalhador teriam melhor
remuneração”.
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