O
acompanhamento constante por agentes de saúde e políticas
como distribuição de cestas básicas e realização de "sopões" nas aldeias proporcionaram
a diminuição dos casos de mortalidade
infantil e de desnutrição entre os índios do
Mato Grosso do Sul, em sua maioria guarani. De acordo com a Fundação Nacional
de Saúde (Funasa), o índice de mortalidade
infantil era de 140 por mil crianças nascidas vivas em 2000 e caiu para 38 no ano
passado.
Nesta semana, foi criada uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar questões relacionadas à saúde indígena no Brasil, após mais de seis meses de negociação.
O
coordenador técnico de saúde da Funasa no Distrito
Sanitário Especial Indígena no Mato Grosso do Sul,
Zelik Trajber, diz que, além da queda no índice, mudou o perfil das causas de óbito.
“Nos primeiros anos, as mortes aconteciam mais por diarréia,
desnutrição, desidratação, pneumonia.
Hoje, as primeiras causas são más formações
congênitas, prematuridade extrema e as patologias decorrentes
disso”, afirma.
Entre
2004 e 2005, foi registrado o maior pico de mortes de crianças
por desnutrição dos últimos anos em Dourados (MS). Na
época, cerca de 50
crianças indígenas morreram na terra indígena. Trajber
explica que problemas de gestão foram determinantes para o
agravamento do quadro. “Houve uma mudança de coordenação
em 2003 e, com isso, perdeu-se o enfoque das condutas e da
organização dos serviços. Também tivemos
muitos problemas de apoio, como a distribuição de
cestas básicas, e a equipe ainda era muito pequena”, afirma.
Para
reverter o problema, foi estabelecida uma padronização
no acompanhamento das crianças desnutridas: semanalmente ou
diariamente, de acordo com o quadro. “Também conseguimos
distribuição universal de cestas básicas e
suplementação de vitaminas”, diz Trajber.
Com essas
ações, os índices de mortalidade caíram,
mas ainda existem mortes de crianças indígenas por
desnutrição na área de Dourados. Segundo Trajber,
neste ano foram registradas três mortes de crianças que
eram desnutridas. “Mas a causa de óbito diretamente não
foi em decorrência da desnutrição”, afirma.
Segundo
ele, em 2002, 15% das crianças menores de 5 anos eram
classificadas como desnutridas, seja severa ou moderadamente. Atualmente,
o índice é de 7%. “Hoje casos de crianças que
vão a óbito diretamente por desnutrição
são muito difíceis, mas há situações
que acompanham a desnutrição e que acabam sendo a causa
determinante”, afirma.
A queda
nos casos de morte se deve ao acompanhamento constante das crianças
pelos agentes de saúde, que são índios da
própria comunidade. “Hoje a gente acompanha mensalmente
todas as crianças menores de 5 anos. Se a desnutrição
é moderada, ela é pesada pelo menos uma vez por semana.
Quando é classificada como desnutrida severa, tem que ser
acompanhada diariamente pelo agente de saúde”, explica.
Em
novembro, foram registrados 18 casos de crianças com
desnutrição severa e 136 com desnutrição moderada na terra indígena de
Dourados – 334 estavam em situação de risco nutricional,
1.624 foram classificadas como normais e 27 como obesas.
Trajber
também comemora o avanço na imunização
das crianças indígenas. Segundo ele, hoje a cobertura
média vacinal é acima de 95% em todas as vacinas. A
Funasa também organiza "sopões" nas aldeias, conforme a
necessidade nutricional de cada grupo.
Também
há a distribuição de cestas básicas para
as famílias indígenas. Mas, segundo Trajber, é
preciso pensar na auto-sustentabilidade dos índios da região.
“No meu modo de ver, a cesta básica é emergencial,
mas necessária. No momento, é impossível falar
em suspender. Mas é o momento de parar para pensar em
programas estruturantes. Tem mil formas de pensar na
auto-sustentabilidade. O que não pode é viver na
dependência de cesta básica, que além de ser
degradante, humilhante, não tem resultado prático
satisfatório, acaba inclusive com a auto-estima”, avalia.
Segundo
Trajber, a Funasa está montando uma equipe de saúde
mental para cuidar dos casos de dependência de álcool e
drogas, pensando especialmente na prevenção. Outra meta
é chegar ao fim de 2007 com todas as casas atendidas com
abastecimento direto de rede de saneamento básico. Hoje, ainda
falta atingir cerca de 100 casas indígenas na região.
De acordo
com a Funasa, neste ano foram registrados 51 casos de mortes de
crianças indígenas por desnutrição em
todo o país.