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Brasília - O
desmatamento intenso, a urbanização desordenada de
áreas rurais e as conseqüentes mudanças climáticas
decorrentes de todo o processo colaboram para que doenças como a febre amarela se alastrem não só
no Brasil, mas também em um grande número de países em todo o mundo. A afirmação é do médico epidemiologista José Cássio de Moraes, da Santa Casa de São Paulo.
O último
relatório divulgado pela Organização Mundial da
Saúde (OMS) aponta crescimento não apenas do número
de casos de febre amarela como também do número de
países atingidos pela doença nos últimos 20
anos. “Toda
essa mudança do ecossistema, o aquecimento global, chuvas
intensas, calor, tudo isso é um facilitador de doenças
por vetores", disse o Moraes. Ele destacou a grande preocupação mundial com o que tais mudanças podem representar de aumento desse tipo de doença.
Segundo
Moraes, existe ainda outro agravante: a grande dificuldade de
controle da transmissão pelo mosquito Aedes aegypti: Além do fácil acúmulo de água em
recipientes, o combate ao mosquito transmissor com
inseticidas tem uma grande limitação – o produto
se espalha facilmente e é necessária a visita de
agentes de controle de casa em casa para um combate efetivo às
larvas. “Isso é praticamente inviável. Tem uma
dificuldade ecológica importante na transmissão de
doenças por vetores”.
O
epidemiologista lembrou que, no início do ano 2000, houve um
aumento de casos de febre amarela similar ao que se registra
atualmente no país – em viajantes que visitaram regiões
turísticas durante o período de férias,
sobretudo nos estados de Goiás e de Mato Grosso.
“Na
passagem do milênio, houve várias excursões a
locais considerados exotéricos, como a Chapada dos Veadeiros [em Goiás] e a Chapada dos Guimarães [em Mato Grosso]. Tivemos um aumento razoável de
casos de febre amarela em viajantes que foram para essas regiões
e não estavam vacinados.”
Segundo
ele, a invasão de terras para a criação de
trilhas ecológicas com fins comerciais, como é o caso
de regiões em Goiás e também em Minas Gerais,
provocam grandes alterações no ecossistema, que podem
levar o mosquito haemagogus a substituir o macaco pelo homem. “Os
macacos vivem nas copas das árvores. O ciclo se forma e se
mantém restrito ali. Na hora em que as árvores são
destruídas e surge a presença de um outro primata, o
ser humano, esse haemagogus vai substituir o macaco pelo
homem”.
Moraes
alerta que, se a expansão urbana em áreas rurais não
for ordenada e equilibrada, a mudança pode acarretar não
só o aumento de casos de febre amarela em escala mundial, como
também de outras doenças transmitidas por vetores, como
a leishmaniose e a malária. “Existe toda essa questão
de desequilíbrio e ocupação desordenada, que
traz este aumento de casos”.
Ele
acredita que o quadro de febre amarela no Brasil é de uma
epidemia localizada em população não-vacinada,
que mora em regiões rurais ou que entra em contato com a mata
onde podem ser encontrados macacos portadores do vírus da
doença.
De acordo com o epidemiologista,
a
situação endêmica ocorre quando existe um número bastante reduzido de casos.
Os surtos são registrados apenas em áreas restritas,
como uma comunidade ou uma escola. Já o alastramento de casos
é caracterizado como epidemia. “Qualquer caso que exceda
aquele padrão de poucos casos já se considera
epidemia”, afirmou Moraes.
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