Ao encerrar ontem (18) sua visita de quatro dias à
Amazônia, o ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos, Roberto
Mangabeira Unger, destacou a importância de transformar em ações
concretas as intenções esboçadas em seu projeto de desenvolvimento
econômico sustentável para a região.
Acompanhado por uma comitiva de secretários
ministeriais, cientistas e representantes de órgãos do governo, além do
ministro da Cultura, Gilberto Gil, que participou dos dois últimos dias
da viagem, Mangabeira recolheu todo tipo de reivindicações e queixas
locais, mas não explicou em nenhum momento como poderão ser
incorporadas às propostas que já trazia no início da viagem.
Segundo o ministro, há um esforço por parte do
governo para transformar a Amazônia em prioridade nacional. O ministro garante que não irá
descartar ações anteriores, como as prescritas no Plano Amazônia
Sustentável (PAS).
“O país começa a acordar para a centralidade da
Amazônia na definição do futuro nacional. Começa a compreender que a
região não é retaguarda, mas sim vanguarda, um laboratório onde
precisamos e podemos construir políticas públicas e instituições que,
adaptadas, terão relevância para todo o país.”
Na entrevista que concedeu à Agência Brasil durante o
retorno a Brasília, Mangabeira negou a autoria de algumas propostas polêmicas como a construção de
um aqueduto para transportar água da Amazônia para o semi-árido
brasileiro e a extensão do modelo de organização do setor
produtivo com isenções fiscais adotado na Zona Franca de Manaus.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista.
Agência Brasil: A população da região amazônica conheceu o ministro
Mangabeira e o Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE) da Presidência da
República. Eles podem contar com o desenvolvimento do trabalho iniciado
com sua visita à região?
Roberto Mangabeira Unger: Ao assumir a tarefa de ajudar a propor e
debater um novo modelo de desenvolvimento nacional, um modelo baseado
na ampliação de oportunidades econômicas e educativas, me convenci de
que esse trabalho só avançará se for traduzido em iniciativas
concretas. Medidas que antecipem o rumo que o país busca. Nenhuma
dessas iniciativas é mais importante que aquelas a respeito da
Amazônia, um espaço privilegiado em que o país pode revelar a si
mesmo. Converti-me a esta causa e, agora, quero ajudar a converter meus
concidadãos, já que esta é uma causa que pode esclarecer, comover e
transformar o Brasil.
ABr: E quais serão os próximos passos deste trabalho?
Mangabeira: Temos de dar prosseguimento a este
trabalho de três maneiras. Em primeiro lugar, preciso relatar ao
presidente Luiz Inácio Lula da Silva e aos demais ministros o que ouvi
e fiz até agora para, assim, receber orientação sobre o que fazer. Em
segundo lugar, precisamos chegar a um entendimento com todos os
governadores e organizações sociais da Amazônia. Em terceiro lugar,
precisamos identificar algumas ações concretas que exemplifiquem e
antecipem esta iniciativa.
ABr: E que ações seriam estas?
Mangabeira: As grandes diretrizes desta proposta já
estão esboçadas. Já tenho uma visão de quais possam ser, mas preciso
discuti-las com a equipe de governo e com os governadores. Já avancei
muito ao divulgar um texto [o documento Projeto Amazônia – Esboço de
Uma Proposta, texto de 17 páginas escrito pelo próprio ministro e
distribuído a algumas autoridades e parte da imprensa] para provocar e
organizar a discussão, mas que ainda não representa a posição oficial
do governo. Não seria correto descrever essas ações sem antes tê-las
acertado com o presidente e com os governadores.
ABr: A viagem ao Amazonas e Pará acabou
ganhando um amplo destaque por conta da controvérsia em torno de uma
suposta declaração sobre a construção de um aqueduto para transportar
água da região para o semi-árido nordestino. Qual foi sua real
proposta?
Mangabeira: Eu não fiz essa proposta de construir um
aqueduto. Agora, as falsas controvérsias precisam ser aproveitadas como
oportunidades de esclarecimento. Além do que, é preciso distinguir o
periférico do central. No projeto, a questão central é o zoneamento
econômico ecológico da Amazônia baseado na solução das questões
fundiárias e na definição de estratégias econômicas distintas para as
diferentes partes da região.
ABr: Mas em seu texto, o senhor trata da
indisponibilidade de água em um local enquanto na Amazônia o recurso
“potencialmente aproveitável” estaria sobrando. E embora coloque que
seriam necessárias novas maneiras de conceber e de construir aquedutos
para transportar o líquido de onde tem para onde falta, defende que é
necessário olhar para além das tecnologias já existentes.
Mangabeira: Ao discutirmos a questão da água, que
ocupa um lugar subsidiário no texto que divulguei, eu disse que temos
de resolver o paradoxo de que na região que concentra 20% de toda a
água doce do planeta, falta água confiável para os habitantes. Temos de
resolver esse problema com tecnologias já disponíveis. Só depois, em
uma outra etapa, usar tecnologia ainda a desenvolver para que a
Amazônia possa participar da solução dos problemas da água no
semi-árido brasileiro.
ABr: Então o senhor não afastaria a hipótese de construção de um aqueduto?
Mangabeira: Não é eficiente transportar água de uma
região para a outra com as tecnologias hoje existentes. Teríamos de
desenvolver outras tecnologias. Volto a insistir, vamos distinguir o
que é central do que é secundário. Porque conversar sobre isso se há um
tema muito mais importante, que é a tecnologia florestal? Um dos
grandes temas discutidos é a organização prática do uso controlado e
sustentado da floresta. Precisamos desenvolver uma tecnologia
apropriada para nossas florestas e dar forma jurídica para a gestão
comunitária das florestas. Só assim teremos alternativas ao controle
estatal das florestas de um lado, e a entrega às grandes empresas de
outro.
ABr: E qual a proposta neste sentido?
Mangabeira: Na Amazônia já desmatada nós temos a
oportunidade de não repetir os erros de nossa formação histórica, a
chance de organizar um modelo econômico diferente do modelo instaurado
nas Regiões Sul e Sudeste no século 20. Um modelo que associe o Estado
aos pequenos produtores e que vincule diretamente às vanguardas e às
retaguardas do setor produtivo.
ABr: E para as áreas ainda preservadas?
Mangabeira: Na Amazônia florestada, devemos dar
seqüência prática ao manejo controlado e sustentável da floresta. A
grande diretriz e a ambição que inspirou esse projeto foi o compromisso
de combinar a intenção produtiva com a preservacionista, promovendo a
inclusão social. Ninguém faz isso sem reconstruir as instituições.
ABr: Para as áreas já desmatadas, o senhor defende um modelo igual
ao da Zona Franca de Manaus?
Mangabeira: Esta foi outra falsa controvérsia. A Zona
Franca é uma resposta singular a uma circunstância singular. Nada
indica que faça sentido repetir sua fórmula em outras partes da
Amazônia. Há aí, porém, um outro tema, este sim relevante. Não só para
a Amazônia como para todo o país. A Zona Franca é um experimento
admirável. Não é apenas um conjunto de montadoras, ela abrange
empreendimentos avançados.
ABr: Mas houve críticas no sentido de que ela não serviria aos pequenos produtores locais?
Mangabeira: A questão aí é como empreendimentos
avançados podem produzir máquinas e bens que empreendimentos mais
atrasados possam assimilar. Ou seja, estabelecer um vínculo entre a
vanguarda e a retaguarda produtiva. Na região, precisaríamos
estabelecer esse vínculo de maneira a qualificar o manejo controlado e
sustentado da floresta, com a qualificação tecnológica e organizacional
das empresas urbanas. Sobretudo das pequenas empresas, para que elas
aproveitem produtos da própria floresta na produção de soluções e
máquinas da própria indústria florestal. Aí sim, teríamos uma revolução
simultaneamente produtiva, ambiental e social na Amazônia.
ABr: E como tornar isso possível?
Mangabeira: Temos a consciência de que a causa da
Amazônia não avançará como pleito regional, mas somente como um projeto
nacional.