|
Brasília - Ao comentar pesquisa
da ONG Human Rights Watch, segundo a qual a maior parte das violações
de direitos humanos no Brasil fica impune, o presidente da Associação
dos Magistrados Brasileiros (AMB), Mozart Valadares, afirmou que a Justiça e os demais poderes do
aparelho estatal não têm conseguido dar repostas adequadas à
sociedade nessas questões.
“Não temos o menor desconforto de
reconhecer nossos erros, mas não admitiremos que seja
atribuído a um único poder desse país as mazelas
que vivenciamos”, disse Valadares em entrevista à Agência
Brasil. “Todos [os poderes] devem estar conscientes que
têm parcela de culpa e responsabilidade, e dar sua
contribuição”.
Segundo o presidente da AMB, as razões que
estimulam a sensação de impunidade envolvem
deficiências do aparato policial, defensorias públicas
em número reduzido, leis ineficazes e condições
de trabalho inadequadas para o Ministério Público e a
magistratura.
Na visão da AMB, caberia ao Legislativo
fazer reformas infraconstitucionais que garantissem ao Poder
Judiciário melhores condições de punir os
criminosos. A mudança do Código de Processo Penal é
apontada como primordial: “É arcaico [o código
atual] e só contribui para retardar andamento das ações
judiciais. A legislação prima pelo excesso de
formalismo e de recursos ao cidadão até que ele venha a
ser julgado”.
Valadares também alegou existirem “setores
da sociedade brasileira que não se interessam em ter
Judiciário mais forte, transparente e eficaz”. Entre os que
se beneficiariam da morosidade judicial, o presidente da AMB citou
“grandes devedores, latifundiários e um parte da elite"
que detêm prestígio político e poder econômico.
Os crimes contra os direitos humanos persistem,
segundo o magistrado, também porque “o governo se mostrou
incompetente” ao não dar a devida atenção à
questão no tempo adequado.
A emenda constitucional aprovada em 2004 que
permite as transferências para a Justiça Federal do
julgamento de crimes contra os direitos humanos é considerada
desnecessária pela AMB. “Deslocar a competência, como
se isso fosse resolver o problema, é ilusão”, afirmou
Valadares.
O presidente da AMB argumentou que a justiça
brasileira passa por um processo de mudança. Lembrou, por
exemplo, ações recentes do Supremo Tribunal Federal
(STF) e da Procuradoria Geral da República: “Pessoas que
exerceram cargos relevantes na República, que eram poderosas,
estão respondendo a processos penais no Supremo. Até
algum tempo atrás, ninguém imaginaria que isso pudesse
acontecer”.
|