



|
Brasília - No ano passado, a atuação
mais incisiva do Grupo Especial de Fiscalização Móvel
foi no setor sucroalcooleiro (de açúcar e álcool),
que teve crescimento destacado. O órgão, do Ministério
do Trabalho e Emprego (MTE), é responsável pelo combate
ao trabalho escravo.
“Resolvemos fazer uma atuação
diferenciada no setor, o que acabou resultando na libertação
de um grande número de trabalhadores em usinas”, diz o
coordenador do grupo especial, Marcelo Campos.
O relator
especial da Organização das Nações Unidas
(ONU) para segurança alimentar divulgou
documento associando a condição dos trabalhadores
da indústria canavieira no Brasil à escravidão.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do
Brasil (CNA) afirma que as mortes nessas lavouras são fatos
isolados e que os grandes grupos do setor têm consciência
de que precisam garantir os benefícios sociais.
Um caso central em 2007 foi o dos
trabalhadores encontrados em uma fazenda do grupo Pará
Pastoril Agrícola S. A. (Pagrisa), no município de
Ulianópolis, no Pará. Lá, o Grupo Móvel
libertou 1.108 pessoas.
De acordo com relatório
do ministério, a fiscalização encontrou
alojamentos superlotados, esgoto a céu aberto, banheiros sem
descarga, bebedouros que não funcionavam e indícios de
que os empregados não utilizavam equipamentos de proteção
durante o corte de cana-de-açúcar. Constatou também
a exposição de trabalhadores a jornadas de 14 horas e
transporte inadequado, com ônibus sem cadeiras.
A
empresa declarou que considera “inverídicas” as
informações sobre a utilização de
trabalho escravo. Afirmou que todos seus trabalhadores têm
carteira de trabalho assinada e com as anotações
exigidas na legislação, e negou que descontasse do
contracheque dos empregados qualquer valor referente a compra em
mercearias locais e serviços de alimentação.
As duas versões também foram alvo de polêmica
entre uma comissão do Senado e o MTE. O caso foi parar na
Justiça a partir de denúncia do Ministério
Público Federal (leia
aqui matérias a respeito do caso).
Para o
cientista político Leonardo Sakamoto, membro da Comissão
Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo
(Conatrae), o principal desafio do governo neste ano é
observar as áreas de expansão agropecuária.
“Cana, soja e pecuária são atividades em que
se encontra trabalho escravo, como se encontrou no ano passado.
Quanto maior o preço, maior o interesse em plantar e, quanto
maior o interesse em plantar, maior o interesse em abrir novas áreas,
e o trabalho escravo está principalmente nesse momento.”
Na opinião de Sakamoto, para
combater esse crime no Brasil, é preciso intensificar a
atuação em três áreas: combate à
impunidade, fazendo com que os julgamentos resultem não só
em multas, mas também na prisão dos responsáveis;
prevenção, garantindo alternativas econômicas
para regiões que são os maiores focos de migração
do trabalho escravo; e transformação da prática
em mau negócio.
“A ganância faz com que
trabalhadores rurais sejam explorados por fazendeiros que querem
lucros altos”, afirma o cientista. Uma boa iniciativa, segundo ele,
foi a criação de um cadastro de empregadores flagrados
explorando trabalhadores na condição análoga à
de escravo. É a chamada “lista suja”, que serve de alerta
a indústrias, varejo e exportadores para a aplicação
de restrição aos produtos. Os empregadores listados
também não podem obter empréstimos em bancos
oficiais do governo.
|
|