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4 de Fevereiro de 2008 - 18h53 - Última modificação em 4 de Fevereiro de 2008 - 18h53


Noite dos Tambores Silenciosos deve reunir 24 grupos de maracatu em Recife

Mariana Jungmann
Enviada especial

 
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Antônio Cruz/ABr
Olinda (PE) - Foliões de todas as idades participam do 18º Encontro Estadual de Maracatus
Olinda (PE) - Foliões de todas as idades participam do 18º Encontro Estadual de Maracatus
Recife - Esta noite acontecerá, no Recife Antigo, o tradicional espetáculo de maracatu Noite dos Tambores Silenciosos. No bairro histórico da capital pernambucana devem se reunir 24 grupos de maracatu nação para tocar juntos e cantar aos orixás do candomblé em frente à Igreja de Nossa Senhora do Terço.

À meia-noite as luzes se apagam e eles cessam os tambores por um minuto enquanto os grupos seguem guiados por tochas até a porta da igreja. Em seguida um babalorixá dá início à reza das mães-de-santo e os tambores voltam a tocar.

O maracatu se divide em dois tipos: o nação, ou baque virado, e o rural, ou baque solto. O primeiro surgiu no período de escravidão e tem mais de 300 anos. Segundo Mestre Afonso, que comanda a nação Leão Coroado, os escravos criaram a dança para disfarçar cultos e cantar suas dores. É o mais antigo grupo de maracatu, com 145 anos de história.

Os tambores de alfaia do baque virado ditam um ritmo forte e a dança remete a cultos religiosos. As loas, músicas tradicionais de folguedos, geralmente se referem aos orixás. Segundo Mestre Afonso, a principal diferença entre o maracatu de baque virado e o de baque solto é a orientação religiosa – o primeiro é ligado ao candomblé, o segundo à umbanda. "Você percebe pelas loas, que cantam para entidades de religiões diferentes, nos maracatus mais tradicionais", diz.

O maracatu rural surgiu bem mais tarde, nos canaviais da Zona da Mata pernambucana, e é uma dissidência do nação. Os grupos são formados geralmente por trabalhadores rurais e as apresentações são muito mais ricas, com mantos luxuosos cobertos de paetês que formam desenhos coloridos e, às vezes, o brasão do grupo. Na cabeça os caboclos carregam um capacete grande de onde saem fios compridos, presos de maneira muito parecida com a dos chapéus dos cortadores de cana. A música já não segue o som marcado de tambores e conta com diversos outros instrumentos como ganzá (chocalho), cuíca, surdo e outros. As agremiações se mantêm com o dinheiro das apresentações e dos próprios integrantes, que juntam pequenas contribuições ao longo do ano.

O presidente de um grupo de maracatu rural, José da Silva, explica que a verba de R$ 5 mil que a prefeitura paga, em duas vezes ao longo do ano, não supre as necessidades do grupo. "É muito pouquinho, mal dá para pagar os chapéus. O mais caro para a gente é o transporte para as apresentações. Um ônibus para uma cidade perto custa R$ 800", lamenta com uma flor de cravo, típica do baque solto, na boca.

A preparação espiritual é um dos fatores mais importantes. No maracatu rural os participantes fazem jejum sexual de pelo menos três dias antes das apresentações e não ingerem bebidas alcoólicas. No de baque virado são feitas oferendas para a entidade ao qual o grupo é ligado. Geralmente os participantes saem do terreiro direto para as apresentações.

Em ambos os casos a apresentação é formada por uma corte, com rei, rainha, príncipes, a dama do passo, as baianas e os escravos. No maracatu rural são acrescidos os índios e os caboclos, que são uma espécie de guerreiros que usam os capacetes com perucas coloridas e lanças de 2 metros de comprimento com retalhos pendurados.

Artur, 10 anos, dança maracatu desde os 2 e fala sobre a importância dos caboclos: "Eles protegem as baianas e a corte, sem eles não tem maracatu rural".

A dama do passo, outra personagem central, é quem carrega a calunga – uma bonequinha que representa a entidade para quem o grupo se devota. "Essa aqui é a Calu. Ela é uma personagem muito importante, é como se fosse a rainha negra", conta a dama do passo Verônica Maria dos Santos, que dança há 20 anos. Ela se apresentou na tarde de hoje (4) num encontro de maracatus que aconteceu em Cidade Tabajara, na periferia de Olinda. Foram 51 grupos de baque solto e dois de baque virado.


 


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