|
Brasília - A prática do aborto foi um tema polêmico na agenda
política e social do ano passado, quando a descriminalização foi abordada pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão: em abril ele defendeu a realização de um plebiscito para decidir se deveria ou não ser legalizada no país essa prática.
Hoje (6), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou oficialmente a Campanha
da Fraternidade 2008, com o tema da defesa da vida e o lema Escolhe, pois, a vida!.
A proposta de descriminalização do aborto foi aprovada pela maioria das 2,5 mil mulheres que em agosto de 2007 participaram da Conferência Nacional de Políticas para as
Mulheres. Já 70% dos participantes da 13ª
Conferência Nacional de Saúde, realizada em novembro,
decidiram retirar a recomendação do relatório final do encontro. Outra polêmica
relacionada ao aborto se deu em torno da chamada pílula do
dia seguinte. Considerada abortiva por algumas entidades, entre
elas a CNBB, trata-se de um método contraceptivo
emergencial para impedir a ocorrência de uma gravidez
mesmo após a concepção.
Ainda em janeiro de 2007, resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) liberava os médicos para indicar a pílula como um
contraceptivo emergencial. Um ano depois, em janeiro último, as
Secretarias Municipais de Saúde de Recife, Olinda e Paulista,
em Pernambuco, anunciaram que ofereceriam a pílula em postos montados durante o carnaval.
Atualmente, tramitam no Senado Federal três projetos de lei sobre o aborto: o
183/04, que inclui entre os permitidos os casos em que o
feto se desenvolve sem cérebro (anencéfalo); o 227/04,
que retira a punição dos casos de aborto de fetos
anencéfalos; e o 312/04, que retira do Código Penal a
interrupção de gravidez como crime.
Na Câmara dos
Deputados, 19 propostas tratam diretamente do assunto (ao todo, são
141 itens). Sete delas são contra o aborto e pedem a
revogação dos direitos já garantidos (como nos
casos de estupro ou risco de morte para a mãe) ou a
tipificação do aborto como crime hediondo. Nove
projetos são favoráveis ao aborto em casos específicos
e um deles pede a descriminalização total.
O Projeto de Lei 1135/91, que espera votação na Câmara há
16 anos, retira do Código Penal o artigo que pune a
mulher com detenção nos casos de aborto. Entre os mais
recentes, o 478/07 cria o Estatuto do
Nascituro: de autoria do deputado Luiz Bassuma (PT-BA), proíbe a manipulação, o congelamento, o descarte
e o comércio de embriões humanos.
Dados do Ministério
da Saúde mostram que o aborto é a quarta causa de
óbito materno no país e a curetagem (procedimento de
raspagem uterina feita após abortos), o segundo procedimento
obstétrico mais praticado no Sistema Único de Saúde
(SUS), superado apenas pelos partos. O ministério também
estima que 31% das gestações terminam em aborto, o que
daria aproximadamente 1,4 milhão de casos, entre espontâneos
e provocados.
De acordo com a
organização não-governamental Rede Feminista de
Saúde, são realizados a cada ano cerca de 220 mil
procedimentos de curetagem pós-aborto na rede pública
de saúde e aproximadamente 2 mil abortos legais. Os casos
permitidos pela legislação são apenas os
decorrentes de violência sexual ou risco de vida para a
gestante.
Estudo divulgado em
maio pela Federação Internacional de Planejamento
Familiar (IPPF, na sigla em inglês) apontou o Brasil como responsável por 1 milhão de procedimentos de interrupção de gravidez a cada ano, de forma insegura. E revelou que a média brasileira em 2006 foi de 2,07 abortos induzidos por
cada cem mulheres.
|