|
Brasília - As
mudanças climáticas poderão, já nas
próximas duas décadas, ter efeitos negativos profundos
sobre a agricultura e o sistema de alimentação, com
consequências graves especialmente para os países mais
pobres. É o que aponta artigo publicado na
edição da Revista Science do dia 1º deste mês.
O autor principal do estudo detalhado é David Lobell,
do Instituto Woods para o Meio Ambiente, da Universidade de Stanford.
No boletim eletrônico da Science , assinam o texto Molly Brown,
da Agência Espacial Norte Americana (Nasa), e Christopher Funk,
da Universidade da Califórnia.
“O aumento das
temperaturas e o declínio das precipitações nas
regiões semi-áridas vão reduzir os rendimentos do
milho, trigo, arroz e outras culturas primárias. As mudanças
podem ter impacto substancial na segurança alimentar global”,
destaca a publicação.
Eventos naturais como o
aquecimento do Oceano Índico e o agravamento do fenômeno
El Niño deverão, segundo os autores do estudo, reduzir
as temporadas de chuva nas Américas, África e Ásia,
onde comunidades já têm sofrido, desde 1990, com o
aumento dos preços das commodities (produtos primários negociados em bolsas de mercadorias) e o declínio da
área per capita cultivada .
Os cientistas garantem
já ser possível projetar uma situação de
insegurança alimentar consolidada. “Muitos fazendeiros
consomem seus próprios produtos e vendem nos mercados locais.
Expostos às variações climáticas,
produzem menos, a renda diminui e aumentam os custos de manutenção
do consumo básico. A fome em larga escala pode acontecer mesmo
se houver comida nos mercados, importada de outros lugares”,
explicam no estudo.
Como milhões de
pessoas sobrevivem com o que produzem, o estudo sustenta que
“provavelmente haverá mais fome” se as mudanças
climáticas reduzirem a produção e a população
aumentar. Países de pequeno orçamento que tiveram a
receita nacional afetada pela seca já enfrentam mais
dificuldade de comprar grãos no mercado internacional.
Browm e
Funk citam o exemplo da Tanzânia, onde o acesso à
comida para os pobres foi reduzido em função de
recentes aumentos do preço de grãos. E, ressalta a
publicação, o país da África Oriental ainda teria
que “competir pelo milho” com a produção de etanol
e com criadores de suínos nos Estados Unidos.
Combinados com a
produção reduzida, o aumento dos preços do
óleo, a globalização do mercado de grãos,
o aumento da demanda por biocombustíveis e o aumento do
consumo per capita na Índia e na China foram citados como
fatores agravantes. “Estas mudanças podem elevar o custo
dos alimentos em 40% ou mais em muitas áreas de insegurança
alimentar”.
* Colaboraram Luana Lourenço e Paula Laboissière
|