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Brasília - Em caso de gravidez indesejada, a gestante não terá que passar por qualquer tipo de processo abortivo – ilegal no Brasil – ou considerar a hipótese de abandono da criança. É o que propõe o projeto de lei que procura regulamentar o parto
anônimo, de autoria do Instituto de Direito da Família
(IBDFam). Elizabeth Saar, gerente de projetos da Subsecretaria de Articulação
Institucional, da Secretaria Especial de
Políticas para as Mulheres, lembrou que a possibilidade de
colocar a criança para adoção logo após o
parto já existe no Brasil e que a novidade estaria apenas no
anonimato da mãe.
“O
projeto não tem ainda regulamentação e
precisa de vários passos. Se aprovado, precisa ser
regulamentado para dizer com que tempo, quais mulheres, quais lugares
e como fica a questão do registro civil da criança,
além das conseqüências desse anonimato”, disse.
Em países como França, Itália e Bélgica, onde o parto anônimo já foi aprovado, lembrou, circulam
questionamentos acerca das conseqüências desse anonimato, já que a origem da criança não
pode ser localizada. “Na
França, a identificação da mãe no registro é um X. A criança
perde o direito a saber quem são a mãe e o pai, e isso tem
conseqüências, por exemplo, para a necessidade de doação de órgãos", alertou.
Segundo
Saar, o Brasil não possui altos índices de abandono de
crianças, mas os de prática de aborto clandestino chegam a cerca de um milhão por ano. "O parto anônimo não é solução para o problema e faz parte de uma estratégia
de quem é contra o aborto. O que
se fala muito é que esse projeto é uma reinstituição
da 'roda' em que se deixavam as crianças nas Santas Casas – tocava-se uma sineta, formava-se a roda e alguém, a mãe que desejava abrir mão do bebê, atendia".
Ela disse considerar que, no projeto, as mulheres aparecem de maneira implícita
como “irresponsáveis”e como pessoas que não querem
ser vistas como mães. “Não
sei em quê o anonimato vai proteger essas mulheres, porque elas já
passaram pelo pré-natal, as barrigas cresceram e elas já
foram para o hospital. Eu acho um passo para trás porque as
crianças não vêm do nada. Acho inócua essa
proposta porque esconde uma realidade", acrescentou.
O fato de mulheres serem levadas, constantemente, a
tomar esse tipo de decisão, segundo Saar, é sinal de “falha” nas políticas
públicas. “Mais
de 50% das gestações não são planejadas,
o que não significa que são todas indesejadas. Acho que
as políticas públicas têm que estar voltadas para
o planejamento e oferecer um bom pré-natal, para que aquela
criança nasça saudável. E oferecer também
a possibilidade de a mulher poder decidir”.
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