A defesa da
construção do Sistema Público de Comunicação
e da TV Pública em nível nacional, em andamento, foi a
principal constante nas falas e considerações do
primeiro debate do dia em seminário realizado durante todo o
dia de hoje (7) na Universidade de São Paulo. O evento foi
promovido pela organização Intervozes – Coletivo
Brasil de Comunicação Social.
Para os
debatedores à mesa e para a maioria dos que falaram da
platéia, é preciso desprivatizar e democratizar a
comunicação no país, particularmente o sistema
de emissoras de televisão. O debate foi marcado por protestos
de produtores independentes de cinema e documentaristas, que cobraram
a criação de um espaço legal maior para o seu
trabalho na Medida Provisória (MP) 398, em trâmite no
Senado.
Participaram da mesa de debates o presidente do
Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação
(EBC), o economista e professor da Universidade de Campinas Luiz
Gonzaga Belluzzo; o presidente do Conselho Curador da Fundação
Padre Anchieta da Rádio e Televisão Cultura do governo
paulista, Jorge da Cunha Lima; a jornalista e presidente da EBC,
Tereza Cruvinel; e o representante da Intervozes João Brant.
Uma das referências pontuadas em toda a
sessão foi a preocupação de que a MP 398 seja
bloqueada pela oposição ao governo federal no Senado.
Tereza Cruvinel, que abriu as falas do debate, destacou que a
existência de um sistema público de comunicação
está prevista na Constituição e que, 20 anos
depois, ele está sendo enfim criado como resultante de quatro
fatores: o amadurecimento da democracia no país, as exigências
da cidadania, as mudanças tecnológicas e o que elas
oferecem e, finalmente, a vontade política para realizar isso.
Ela apresentou um cronograma detalhado do processo
legal e operacional da empresa até o momento, dimensionou a
rede inicial que está sendo criada, citou exemplos de
estruturas organizacionais de sistemas públicos de televisão
em outros países e falou das possibilidades e processos
possíveis atualmente e para o futuro.
Luiz Gonzaga Belluzzo e Jorge da Cunha Lima
acentuaram a necessidade de informação para o público
com outro enfoque que não os da comunicação
dominante na iniciativa privada. “A democracia é para os
fracos. Os fortes não precisam de democracia. Eles precisam só
do liberalismo”, disse Belluzzo. Para Cunha Lima, “a democracia
no Brasil foi desmoralizada durante todo o século 20, e o
estado enfraquecido submeteu-se ao modelo privatizante”.
João Brant, do Intervozes, afirmou que “a
TV brasileira é centrada no Sudeste; é masculina e
injusta no modo como traz a mulher, como objeto; é racista por
não refletir a diversidade racial brasileira”. Ele enfatizou
como uma dupla perda para o país, sob o ponto de vista de um sistema
republicano, que a televisão já tenha nascido privada e
sem uma legislação adequada, destacando que, além
de verticalizado, o sistema na prática é privatizado,
apesar de ter caráter público por natureza.
Com
relação à EBC, Brant criticou a forma de
nomeação do conselho curador, que coube ao presidente
da República. Em sua fala, antes do ativista, Tereza Cruvinel
disse que essa forma de escolha é usada em vários
países.
Representantes e militantes do setor de cinema e televisão, entre os quais do Conselho Nacional de Cinema (Concine), da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), da Associação Brasileira das TVs Universitárias (ABTU) e da TV Viva de Recife, lamentaram a inclusão de uma cota de 5% a 10% para a regionalização da programação, que consideraram pequena para fomentar a produção nacional. Também cobraram maior espaço de participação no Conselho Curador da EBC, na definição de temas e nas grades de programação, particularmente no horário de exibição de produções independentes.