Ontem (7), a Comissão
de Anistia do Ministério da Justiça, em sessão
especial pelo Dia Internacional da Mulher, julgou o pedido de sete
mulheres que enfrentaram a ditadura militar no Brasil. Confira abaixo
o perfil das sete anistiadas. As informações foram
fornecidas pelas próprias anistiadas no requerimento entregue
ao Ministério da Justiça.
Ana Wilma Oliveira
Moraes – Era secretária da Folha da Manhã
(atual Folha de S.Paulo), quando, aos 21 anos, foi presa e
torturada pela primeira vez, em 1969. Companheira de um jornalista da
Folha ligado à Aliança Nacional Libertadora
(ANL), teve que pedir demissão, por causa da perseguição
que sofria da ditadura. “Fui presa várias vezes, fiquei sem
trabalho durante muitos anos, porque ninguém queria ficar
perto de mim, porque eu era terrorista”, conta Ana Wilma. “Eles
[policiais]
entravam na minha casa e rasgavam os livros”, lembra.
Num
período de mais de dez anos foi presa quatro ou cinco vezes –
ela não sabe precisar. Presa, foi levada ao Departamento de
Ordem Política e Social (Dops), torturada e interrogada por 26
dias. Chegou a ouvir propostas do delegado Sérgio Fleury para
se tornar sua amante, em troca de regalias na prisão. Em uma
das vezes em que esteve encarcerada, por conta da situação
de perseguição e afastamento da filha, de dois anos de
idade, teve um colapso nervoso e tentou se suicidar, em 1970, quando
ficou 92 dias detida. Teve todos os seus documentos destruídos
pela polícia. “Dinheiro nenhum no mundo paga o que a minha
família sofreu, o que a minha filha sofreu”, diz.
Beatriz
Arruda – Decoradora paulista, foi casada com o deputado
estadual Fernando Leite Perrone (MDB), ligado à ANL. Por conta
disso, acompanhou o marido no exílio no Chile e na França.
Perrone foi para o Chile primeiro, em 1968. As filhas foram no meio
de 1969. No final do ano Beatriz foi encontrar a família,
depois que o mandato parlamentar do marido foi cassado. Ela retornou
para o Brasil em 1979, após a Lei da Anistia. Ela diz que,
frente às histórias de outras mulheres, se sente “um
grãozinho de areia”. “O que eu contribuí foi tão
pouco, mas uma postura ideológica foi uma coisa que sempre me
acompanhou”, afirma.
Clara Charf – “O que
você acha que eu fiz em 63 anos?” Ativista do Partido
Comunista Brasileiro (PCB) desde os 20 anos de idade (está com
83), afastou-se da profissão de aeromoça em 1946. Teve
seu registro profissional cassado, morou em Recife, no Rio de Janeiro
e em São Paulo, sempre tentando escapar da repressão.
Na década de 1950, já vivendo na clandestinidade, era
responsável pelo trabalho do PCB com mulheres quando foi
coordenar uma escola de formação de quadros do partido
em Campinas (SP). Lá foi presa e, por não responder às
perguntas dos policiais, foi considerada heroína pelos
companheiros de cela.
Em 1964, depois do golpe militar, sua
casa foi invadida, ela foi presa, seu companheiro, Carlos Marighella,
fundador da ALN, quase foi morto a tiros dentro de um cinema. “Só
não foi graças a um repórter da Folha da
Manhã, que estava no cinema naquela hora com a filha e
tirou a foto, que saiu no jornal. Senão, o povo não
tinha sabido de nada”, lembra. Ambos presos, foram torturados.
“Depois do golpe militar não teve um dia em que alguém
não tivesse sido preso, torturado ou morto”, diz.
Em
1966 teve os seus direitos políticos cassados, por dez anos.
Depois da morte de Marighella, em 1969, foi para o exílio em
Cuba. Voltou em 1979, depois da Lei da Anistia, aos 54 anos, sem
qualquer documento pessoal. Hoje trabalha no Conselho Nacional dos
Direitos da Mulher (CNDM).
Halue Yamaguti de Melo –
Costureira da cidade de Ponta grossa (PR), ela era ligada ao PCB. Foi
presa e torturada várias vezes, em 1964, 1965, 1966, quando
foi, com a filha, visitar o marido e as duas ficaram presas por três
dias “em um cubículo”, e em 1975, desta vez pelo Dops de
Curitiba, capital do estado.
Na primeira vez em que foi
detida, os filhos também foram levados junto, para um asilo de
doentes mentais, onde, segundo ela, sofreram ameaças de abuso
sexual pelos internos. Ela relata que também lhe diziam que
sua filha seria abusada se não dissesse onde o marido estava
escondido.
Hoje, com quase 84 anos, diz que o casal decidiu se
desligar do PCB por causa dos filhos. “Ficaram os três, até
hoje, traumatizados, por causa das prisões dos pais”, conta.
“Eu passei coisas horríveis.”
Estrella Dalva
Bohadana – Estudante de arquitetura, judia e moradora de Barra
do Piraí (RJ), no início dos anos 1970 militava na
organização clandestina de esquerda Política
Operária (Polop) e depois no Partido Operário Comunista
(POC). Foi presa pela primeira vez em 1970, quando tinha 19 anos.
Depois de liberada fugiu para São Paulo, onde foi presa
novamente. Por conta da tortura, chegou a ser levada para o hospital
militar.
Em 1973 foi novamente presa e torturada em Barra
Mansa (RJ). No quartel do exército foi torturada por militares
do exército, do Dops e do Destacamento de Operações
de Operações – Centro de Operações de
Defesa Interna (DOI-Codi) e sofreu um aborto. Ficou oito meses no
hospital, depois voltou a ser torturada e foi mandada para manicômio
judiciário feminino. Segundo relato do irmão, chegou a
tentar o suicídio.
Atualmente com 58 anos, ela conta
que a violência sofrida durante a ditadura “aumenta a
indignação e a consciência, no meu caso, aumentou
muito a consciência daquilo que seria uma escolha de vida, de
não silenciar, não perder a indignação
diante das injustiças”.
Nancy Mangabeira Unger
– Estudante da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) na década de 1960, foi detida
pelo Dops depois de assumir a direção do Diretório
Acadêmico da faculdade. Em 1969 foi desligada da instituição
e impedida de praticar qualquer estudo acadêmico. Por causa da
ação policial, com invasões em sua casa, entrou
para a clandestinidade.
Já morando em Recife (PE),
passou a militar pelo Partido Comunista Brasileiro Revolucionário
(PCBR). Novamente presa, durante a ação dói
atingida por uma bala de fuzil, que decepou o dedo polegar da mão
direita e atingiu também parte do fígado e do pulmão.
Mesmo no hospital, foi interrogada e ameaçada. Em 1971, com 21
anos, foi incluída na lista de presos que seriam trocados pelo
embaixador suíço. Depois de liberada, foi banida.
Passou pelo Chile e foi para a Suíça. Voltou ao Brasil
com a Lei da Anistia, em 1979. “Nós lutamos por um ideal e
um conjunto de valores que no meu modo de ver constituem a própria
essência vital de uma sociedade”, afirma.
Maria
do Socorro de Magalhães – Em 1971 já participava
de movimentos estudantis secundaristas. Estudante do quarto ano da
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), recebia bolsa de iniciação
científica e lecionava em três escolas em 1972, quando
foi presa pela polícia política federal, junto com
companheiros. Voltava de uma seminário em Belo Horizonte (MG).
Foi vendada, maltratada, interrogada, torturada, teve que ficar nua,
deitada no chão molhado, com fios elétricos presos ao
corpo.
Durante cerca de um mês foi interrogada e
torturada todos os dias, duas vezes por dia. Foi solta à
noite, com 37 quilos, e teve que dormir na escadaria do prédio
onde a irmã morava, pois esta estava foragida e não
permitiram que ocupasse o apartamento. Com o apoio do pastor da
Igreja Luterana em Recife conseguiu uma bolsa de estudos na Alemanha.
Voltou ao Brasil em 1979 e foi recebida pelo irmão,
ex-militar, e pela irmã, que vivia clandestina no Brasil.
Hoje, ela conta que “se perde muito a identidade” no exílio.