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Brasília - O general Augusto
Heleno Ribeiro está à frente do Comando Militar da
Amazônia desde setembro do ano passado. Ele tem sob sua
responsabilidade a segurança de 11,5 mil quilômetros de fronteiras, no meio da
selva.
Nessa entrevista exclusiva à Agência Brasil,
o general conta quais são as principais dificuldades do
trabalho militar na Amazônia e avalia a situação
de conflito entre os países da América Latina.
Ele
garante que não houve nenhum tipo de mobilização
das Forças Armadas Brasileiras devido ao recente
desentendimento entre a Colômbia e o Equador, e diz que o
Brasil tem que se preocupar em ter Forças Armadas “à
altura de sua estatura estratégica” e em reaparelhar as equipes com armamentos individuais e meios de transporte mais ágeis.
Agência Brasil: Qual
é a extensão da fronteira que está sob sua
responsabilidade?
Augusto Heleno Ribeiro: A
nossa fronteira na Amazônia é de 11,5 mil quilômetros. É uma fronteira de características muito especiais,
porque a grande parte é área de selva, de mata fechada,
algumas balizadas por cursos d'água, outras sem nenhum
balizamento, a não ser marcos de fronteiras que são
instalados mas não são vistos. Nessa área de 11,5 mil quilômetros temos um
dispositivo que consideramos razoável para a vigilância
dessa fronteira. É uma fronteira de pontos nítidos de
penetração, principalmente os rios que vêm dos
outros países, entram na Amazônia brasileira, e temos na
maioria das calhas desses rios mais importantes os nossos Pelotões
Especiais de Fronteira, que têm de 40 a 60 militares e que são
tenentes e sargentos especialistas em operações na
selva e cabos e soldados da área, que conhecem profundamente a
selva amazônica, e que têm a selva como aliada. Eu tenho
dito que o nosso grande poder de dissuasão é a
qualidade do nosso combatente de selva, que é inegavelmente o
melhor combatente de selva do mundo. É baseado nisso que nós
confiamos no nosso poder de dissuasão.
ABr: Quantos
homens existem para defender a região?
Ribeiro: Nós
temos hoje na Amazônia 25 mil militares, mas não estão
todos na fronteira. Na fronteira, nós temos 28 organizações
militares: 26 Pelotões Especiais de Fronteira, duas Companhias
Especiais de Fronteira, que têm de 150 a 180 militares, e três
destacamentos, com um efetivo um pouco menor, e que mais tarde serão
transformados em Pelotões Especiais de Fronteira. Mas é
um dispositivo que consegue fazer uma vigilância efetiva da
fronteira, e temos mais a retaguarda, os batalhões especiais
de fronteira e as brigadas de infantaria de selva, que são
responsáveis por esses pelotões de fronteiras que estão
lá na frente e que têm condições, em caso
de necessidade, de reforçar e apoiar esses elementos de
primeiro escalão que ficam exatamente junto à
fronteira.
ABr: As
condições de trabalho são satisfatórias? Ribeiro: As condições
de trabalho na Amazônia são sempre muito difíceis.
É uma área especial, onde o calor, a umidade e a
própria selva, para quem não está habituado são
adversários poderosos, então tem que considerar que as
condições climáticas exigem muito do homem
daqui. A gente quando chega aqui precisa de um período de
adaptação para o organismo poder se habituar àquela
perda de líquido que é natural numa umidade muito alta,
um calor intenso. Esses nossos militares já têm essa
adaptação, são homens, a maioria gente da área,
que não têm nenhum problema dentro da selva. Mas os
Pelotões Especiais de Fronteira são clareiras na selva,
onde as condições de vida são bastante
precárias. Ainda hoje, no início do século 21,
eles não têm luz 24 horas por dia, precisam ter um apoio
mais efetivo do ponto de vista de recursos de comando e controle,
capacidade de se ligar aos seus comandantes de brigada e mesmo a
Manaus ou a Belém com mais facilidade.
ABr: É
preciso um reaparelhamento?
Ribeiro: É
interessante que a gente se preocupe em reaparelhar essa unidades com
equipamentos individuais. Nosso fuzil, que é o armamento
individual do combatente, tem 43 anos de uso, as nossas lanchas
voadeiras podem ser melhores, mais rápidas, mais potentes, nós
precisamos ter mais meios aéreos aqui na Amazônia,
principalmente helicópteros, que me permitem um deslocamento
rápido e quase sempre com qualquer condição
meteorológica. E não é só para efeito de
guerra. Eles são extremamente importantes como auxílio
à população, porque toda vez que tem uma
situação de calamidade na Amazônia nós
somos requisitados imediatamente, seja seca, enchente, gente que
precisa ser evacuada para um atendimento médico melhor, então
eu preciso de meios que me permitam deslocar rapidamente na área
amazônica. Os rios são as grandes estradas da Amazônia,
mas o transporte fluvial é lento. O transporte que funciona
melhor é o aéreo. Então, os meios de transporte
aéreos aqui na Amazônia são fundamentais, não
só para operações militares mas também
para o que chamamos de 'mão amiga', para que o Exército
possa atuar em todos os momentos de crise ou de calamidade.
ABr: Existe
perspectiva de melhorar essas condições?
Ribeiro: Quem trata desse
aparelhamento do Exército é o Estado Maior do Exército,
junto com o Ministério da Defesa, e nós temos a promessa
de que isso deve acontecer. O próprio Presidente da República,
em almoço com oficiais generais, colocou claramente que ele
acha que um país com a importância estratégica do
Brasil não pode deixar de ter Forças Armadas muito bem
equipadas, muito bem preparadas e muito bem pagas. Então, nós
esperamos que essas promessas sejam cumpridas.
ABr: Como
o senhor avalia a recente crise entre a Colômbia e o Equador? Ribeiro: Houve
um ataque numa base guerrilheira das Farc [Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia] que estava no interior
do território do Equador. Não nos afetou em nada, foi
bastante longe da nossa fronteira. Exatamente por isso, quando fui
perguntado, eu disse: 'não vou movimentar tropas, não
vou reforçar as minhas unidades junto à fronteira'.
Primeiro, porque não havia necessidade, eu não tinha
nenhuma informação de que isso pudesse se irradiar para
dentro do território nacional. E também para contribuir
com a postura do governo, que desde o início foi uma postura
histórica do Brasil de, numa situação dessas,
buscar atuar como um poder moderador, buscando a conciliação.
E os nossos diplomatas, que são extremamente experientes e
competentes nesse tipo de ação trabalharam muito bem na
OEA [Organização dos
Estados Americanos],
a nossa participação foi fundamental e se conseguiu um
acordo e a situação voltou praticamente à
normalidade. Lógico, que sempre fica uma situação
para aos poucos voltar à normalidade. Mas para nós,
não teve nenhum reflexo, eu garanto que em termos de
território brasileiro as ações ficaram em nível
diplomático.
ABr: Não houve
nenhum alerta ou uma mobilização especial das tropas?
Ribeiro: Não, não
havia necessidade. Nenhuma das forças, nem Exército,
nem Marinha, nem Aeronáutica mexeu no seu dispositivo, porque
nós verificamos que não havia situação
que nos levasse a esse tipo de atitude.
ABr: O senhor acha que
ainda pode acontecer uma situação de confronto entre os
países da América Latina?
Ribeiro: Eu espero que isso
não venha a ocorrer. O nosso papel aqui na América
Latina é exatamente de ser um país, que por sua
dimensão continental, naturalmente tem uma posição
de destaque pelas suas características, pela sua economia,
situação geopolítica. Temos uma relação cordial
com todos os vizinhos e sempre que podemos trabalhamos para que os
nossos vizinhos não tenham nenhuma alteração
entre eles. Foi assim no caso da situação do Peru com o
Equador alguns anos atrás na serra do Condor, quando nós
atuamos na busca do entendimento, e agora também na situação
da Colômbia com o Equador, que não é um país
vizinho, mas é um país amigo. Creio que temos que
torcer para que esses pequenos contenciosos não venham a
desembocar numa situação de conflito armado que é
extremamente desagradável, são países que lutam
por uma situação melhor econômica e social,
buscam vencer as desigualdades sociais, e qualquer tipo de conflito é
sempre muito sofrido para o povo. Além de ser sofrido para os
próprios militares, que são os primeiros a serem
atingidos, mas a população também sofre
bastante, não há conflito sem consequência para a
população.
ABr: No caso de haver
um conflito armado na América Latina, o Brasil está
preparado para defender suas fronteiras?
Ribeiro: Eu acho que nós
temos que nos preocupar em ter Forças Armadas compatíveis
com a nossa capacidade estratégica. Nós temos um papel
estratégico que vai ser cada vez maior. À medida que a
nossa economia for avançando, que o Brasil for se tornando uma
potência de nível médio, nós teremos,
inevitavelmente, que respaldar algumas das nossas decisões,
das nossas posturas diplomáticas inclusive, com forças
de dissuasão que estejam por trás dessas decisões.
Isso tem sido dito por muitos estudiosos, eu estou só
repetindo o que tem sido dito, que nós temos que nos preocupar
com isso. Não podemos ser tão imprudentes e avaliar
que jamais teremos que mostrar que por trás de
uma determinada postura existe uma força militar que dá
sustentação a essa determinada postura. O problema de garantia da soberania não é um
problema das Forças Armadas. É missão das Forças
Armadas, mas é um problema nacional, porque interessa ao país
como um todo. Não podemos nos esquecer que nós teremos,
inevitavelmente, que ter Forças Armadas à altura da
nossa estatura estratégica.
Atualizada para alteração no título.
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